Belém: 399 anos. Uma senhora decadente

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Quando resolvi escrever sobre o
aniversário de Belém, a primeira indagação surgiu: abordar fatos históricos? A
memória da cidade? O presente? Projeções futuras? Postar um poema? Uma música?
Ou retratar em um texto crítico a realidade que cidade vive? Venceu a última
alternativa.
O título deste texto foi tomado de empréstimo do arquiteto e
urbanista Flávio Nassar, na ocasião da entrevista que o referido concedeu ao
jornal Diário do Pará de ontem (11/01/2015), sobre o aniversário da cidade de Belém.
A capital do Pará completa hoje (12/01/2015) 399 anos.
Fundada pelos portugueses em 1616, servindo de “porta de entrada” para a
exploração da Coroa na região amazônica. Sem ter a pretensão de fazer abordagem
histórica (isso eu deixo para os meus colegas historiadores), vale, porém,
relembrar que a cidade de Belém três séculos depois de sua fundação era a
cidade mais importante do Brasil e de melhor infraestrutura urbana do país.
Há quase cem anos atrás a capital do Pará tinha mais importância que São Paulo
e Rio de Janeiro, a capital brasileira na época. E o que fez Belém ficar tão
para trás?
Explicar essa estagnação em relação as cidade do eixo
centro-sul citadas acima não é tarefa difícil, porém trabalhosa. Requer muitas
abordagens históricas. Irei me eximir de tal responsabilidade e livrá-los de
ler essa maçaroca de informações. A proposta deste texto é outra. Visa analisar
o presente e projetar o futuro da capital do Pará.
A pergunta que fica no ar é: há o que comemorar nos 399 anos
de Belém? Sem saudosismo, digo que não. Qual obra de grande porte ou que possa
mudar a realidade da cidade foi entregue? Nenhuma. Há vários aniversários a
capital do Pará comemora de forma formal, com bolo gigantesco em seu maior
cartão postal e solenidade de nossas autoridades. E só. Nada além disso.
Geralmente em uma cidade de grande porte como Belém, o
aniversário é marcado pela entrega de grandes obras. Simples pesquisa na
internet comprova isso. Em Belém, há pelo menos 15 anos a festa é sem graça,
sem presentes. A cidade no próximo ano completará 400 anos. Marca histórica. O
que se pode esperar? Alguma obra de grande impacto será entregue nessa marca
histórica?
Belém vai – infelizmente – se tornando uma cidade decadente.
Esse processo vem acontecendo há pelo menos quatro décadas. Perdemos
gradativamente a importância do passado. Deixamos de ser a capital da região
amazônica, a cidade mais importante do norte do Brasil. Manaus assumiu – sem
grito – a dianteira.
A capital do Pará sofre (e isso pode explicar tal decadência
em parte) de péssimas gestões que passaram pelo Palácio Antônio Lemos. A cidade
parou no tempo. Nada de moderno no que diz respeito a organização urbana,
sobretudo no trânsito, foi feito ou realizado. Em comparação com 20 anos atrás,
a diferença é a criação de novas vias. Belém caminha para o colapso em sua
mobilidade urbana. O maior projeto na área, o BRT, não avança e se tornou um
mero corredor expresso para ônibus convencionais.
No quesito violência, a capital do Pará é considera uma das
cidades mais violentas do mundo. Há clima de medo por toda a cidade. População
acuada. A cada ano piora. Os dados são alarmantes.
Belém é uma cidade típica de um padrão econômico de centros
urbanos brasileiros. Sobrevive do setor terciário. Sua economia é mantida pelo
comércio e serviços, com alto grau de informalidade. A questão é que a economia
paraense vai se deslocando cada vez mais para os interiores. O fluxo de
capitais e investimentos continuam a chegar em Belém, mas em volumes menores,
divididos entre a capital e outras praças, especialmente no sudeste do Pará.
O fluxo populacional se inverte. Muitos deixam a capital do
Pará e vão buscar melhores oportunidades em outras cidades. Belém vai perdendo
espaço econômico na concorrência com outros municípios. Em 2013 havia perdido
(recuperou recentemente em ranking divulgado a liderança no PIB) para
Parauapebas (cidade localizada no sudeste do Pará e que abriga a maior reserva
mineral do planeta) a liderança do PIB paraense.

Já escrevi diversas vezes sobre a economia paraense,
externando preocupação sobre o futuro, sobretudo, econômico da capital do Pará,
frente ao novo perfil das cidades do interior do estado. O processo de perda da
importância economia e política de Belém parece ser irreversível. Como bem
resumiu Nassar: “Uma senhora decadente”.

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