A “lambança” política de Alckmin em São Paulo

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Márcio França (PSB) foi vereador e prefeito de São Vicente, município da Baixada Santista. Sempre se mostrou um grande articulador político; ações nos bastidores, se especializando em arrecadação e captação de recursos para campanhas eleitorais. Essa habilidade e crescente trânsito político lhe garantiu dois mandatos como deputado, entre 2007 e 2015.

Em 2014, foi convidado pessoalmente pelo então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin – que naquele momento disputava à reeleição ao Palácio dos Bandeirantes – para ser o seu vice. Para Márcio seria a apoteose política, como o próprio admitiu. Na gestão do governo paulista, além da vice-governadoria, França exerceu a função de secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação. Uma das pastas com maior volume de recursos do orçamento estadual.

Todos os acordos firmados, até então, estavam convergindo para os interesses políticos de Geraldo. Em 2017, o mandatário da política paulista tornou-se presidente do PSDB, o que sacramentaria – pelo menos na teoria – a sua pretensão e objetivo maior: ser aclamado como candidato do partido a Presidência da República, em 2018. Aliado a esse contexto, contra tudo e contra todos, Alckmin bancou politicamente o nome de João Dória como candidato do PSDB a Prefeitura de São Paulo, haja vista, que a vitória de Dória representaria a Geraldo força política dentro do próprio partido, contra, por exemplo, José Serra. 

A estratégia política era clara naquele momento: Alckmin seria candidato ao Palácio do Planalto, deixando em seu lugar o vice Márcio França para concluir o mandato. Dória seria candidato ao governo de São Paulo, com a saída de Alckmin; e o seu vice, Bruno Covas assumiria a prefeitura da capital, com a possibilidade de concorrer à reeleição, em 2020.

Alckmin só não contaria com a gana insaciável de Dória pelo poder. Meses depois de sentar na cadeira de prefeito, o referido empresário ensaiava passos em direção à Presidência da República, provocando a ira de Alckmin. A relação entre os dois ficou estremecida por diversos meses. Toda essa engenharia político-eleitoral foi abordada pelo blog. A questão era a construção de uma política de alianças que pudesse se sobrepor aos interesses pessoais. Foi justamente nesta questão que Alckmin errou.

Primeiro, não soube conduzir politicamente a sua desincompatibilização do cargo de governador. França não aceitou o acordo em assumir o cargo e não concorrer, como era da vontade de Alckmin. O que gerou automaticamente grande crise política, pois Dória descumpriu o prometido publicamente de permanecer no cargo de prefeito até o fim do mandato, se lançando como o candidato tucano ao Palácio dos Bandeirantes (fazendo ruir o discurso raso de não ser político, e sim um gestor – mas com tal atitude imita perfeitamente a postura política que impera no Brasil, a do político de carreira).

Na teoria, Alckmin possui dois candidatos, o que poderia lhe garantir dois palanques em São Paulo. Na prática, a situação gerou grande embate. Inegavelmente o agora governador Márcio França e o candidato ao seu cargo pelo ex-aliado PSDB, João Dória vivem em constante ataques mútuos. Ambos cobram o apoio público de Alckmin, que não se posiciona publicamente. Os tucanos no parlamento paulista viraram oposição ao governador e estão – a mando de Dória – dificultando ao máximo a gestão.

Além de tentar se manter vivo na disputa presidencial, com forte pressão do seu partido – no qual é o presidente nacional – Alckmin terá que encontrar formas de amenizar o autofagismo do seu grupo político em São Paulo, que poderá fortalecer o segundo colocado nas pesquisas (com Dória na liderança) Paulo Skaf (MDB). Alckmin vive o seu “inferno astral” em seu estado, não lidera pesquisas em seu reduto e pode ter provocado um autofagismo político-eleitoral de sua base, que poderá custar a manutenção do seu grupo de poder no Palácio dos Bandeirantes, um das dinastias políticas mais longas do Brasil, após o seu processo de redemocratização. 

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