Bolsonaro em silêncio. A sua melhor estratégia

HR SÃO PAULO/SP 27/11/2017 - FÓRUM VEJA: AMARELAS AO VIVO POLITICA - Jornalistas e colunistas da Revista Veja entrevistam várias personalidades da política brasileira. Na foto Jair Bolsonaro, deputado federal. Foto: HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

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Em outubro de 2017, escrevi artigo intitulado: “Bolsonaro um ‘mito’ insustentável”, ocasião em que me propus a analisar o referido parlamentar, levando em consideração o cenário à época. No período citado, o texto gerou polêmica. Muitos em consonância com o conteúdo, outros nem tanto, e alguns o acharam sem lógica ou totalmente errôneo em sua argumentação.

Em seu conteúdo, diagnostiquei (no momento pelo que se tinha de cenário) e prognostiquei o que estava por vir. Afirmei que, naquele momento, Bolsonaro continuaria a crescer, mas estava chegando próximo do seu “teto”, haja vista, com a proximidade do período eleitoral, a tendência com a projeção de outros nomes e com a inclusão da retórica de seus pares, a sua atuação quase unilateral iria sofrer abalos (pelo próprio perfil do pré-candidato e seu conhecimento raso em todas as áreas).

Pois bem, as pesquisas que sucederam a publicação do referido artigo, em outubro, até as mais recentes, apontaram relativo crescimento e o atual estacionamento de Bolsonaro na casa dos 20% das intenções de voto. Seu discurso, ou melhor, a falta dele, começou a pesar contrário as suas pretensões eleitorais.

Sua atuação em eventos com os demais presidenciáveis estava sendo sofrível. Suas posições em debates e sabatinas estão sendo usadas muito bem por seus adversários para mostrar o seu total despreparo. Bolsonaro sente o peso da exposição de uma candidatura presidencial e o que se espera de quem se lance a tal projeto.

A tática de seus assessores agora é blindá-lo. Ou seja, limitar ao máximo a sua exposição na mídia, especialmente em eventos em que o deputado tenha que ser questionado, com a obrigação de apresentar propostas sobre diversos assuntos, sobretudo, a mais importante: na área econômica.

Desde o ano passado venho afirmando que chegaria o momento em que as bravatas; frases de efeito jogadas ao vento; fórmulas mágicas para resolver situações complexas de forma simples, iria acabar justamente quando iniciasse o processo eleitoral e o firmamento das candidaturas. Portanto, Bolsonaro hoje calado é melhor ao próprio (no quesito eleitoral) do que se abrir a boca e opinar. Seu desconhecimento já começa a ser percebido até por quem o apoia ou defende.

Um ponto interessante que as pesquisas apontaram sucessivamente: Bolsonaro em todos os cenários estará – segundo as consultas – no 2º turno. Mas em todos esses mesmos cenários ele perde para todos os adversários que disputar. Essa “blindagem” que agora Bolsonaro forçadamente estará submetido (medida de segurança para mantê-lo em condições eleitorais competitivas), no 2º turno não conseguirá ser mantida. É uma outra eleição, com muito mais exposição e confrontos diretos. Segundo afirmações de outros presidenciáveis, o adversário mais fácil de vencer no 2º turno seria justamente o capital da reserva do Exército. 

E o que mantém Bolsonaro com folga na liderança das pesquisas (sem a presença do nome de Lula)? Jair “surfa” na onda direitista e conservadora que avança rapidamente no Brasil, incluindo no senso comum a derrocada da Esquerda. Portanto, ele incorpora o discurso nacionalista, patriota (mesmo que isso seja esquizofrênico, pois defendeu a venda do pré-sal para outros países e defende privatizações). Portanto, diferente do que o nacionalismo defende e prega.

Outro ponto é com relação à sua densidade eleitoral. Ele vem ampliando o seu nicho eleitoral, mas ainda é insuficiente para qualquer possibilidade de vitória em uma eleição presidencial. Não agrada, por exemplo, os grandes grupos empresariais. Não tem densidade eleitoral nas regiões Norte e Nordeste. Os maiores financiadores de campanha e a Direita clássica prefere um nome que saia do PSDB/DEM, a buscar uma “aventura” com Bolsonaro, que não definiu se reforça o aparato estatal ou o torna mínimo, conforme pregoa a base neoliberal. No campo econômico é algo incerto, sem base ou sustentação (por mais que o respeitado economista neoliberal Paulo Guedes tenha se tornado o seu guru na área).

Enquanto isso, segue o formato que se propôs a realizar. Conforme diz o economista Joel Pinheiro, em um artigo publicado na revista Exame: “A eleição está a cada dia mais perto, mas há muito tempo para Bolsonaro se esvaziar. Isso só acontecerá, contudo, se as alternativas a ele entenderem e lidarem com os motivos compreensíveis que alimentam seu atual sucesso”. Por enquanto, a referência “mito” a Bolsonaro está mais para a parábola escrita pelo filósofo grego Platão em uma passagem do livro “A República”. Quem sairá da sombra e enxergará a realidade? Ainda há tempo.

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