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O Brasil possui 5570 municípios. Em números gerais, 94% deles não chegam a 100 mil habitantes. Ontem, 08, o Brasil chegou a marca, infelizmente, mais emblemática desta pandemia no que se refere a perda de vidas: cem mil mortos por Covid-19, isso em registro oficial. Tendo essa triste referência como base, é como se 94% das municipalidades brasileiras fossem varridas do mapa, sumissem, virassem pó. Um número vergonhoso e triste. Desde do primeiro caso registrado no início de março, até atingimos a marca de cem mil mortos (ontem), foram apenas 164 dias.

É como se a maior tragédia da aviação brasileira (o acidente de avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, que matou 199 pessoas) tivesse se repetido 505 vezes desde 26 de fevereiro, quando o primeiro caso foi oficialmente confirmado. Seriam três desastres de avião daquele porte por dia, todos os dias, ao longo de mais de cinco meses. Nunca em sua história, o país perdeu tanta gente em um período tão curto de tempo.

Ainda mantemos o chamado platô que nada mais é do que a estabilidade dos números de infectados e óbitos. A questão é que essa manutenção é alta, no caso de mortes, fica na média móvel (o registro dos últimos sete dias, dividido pelo mesmo número) de mil. O Blog já abordou diversas vezes o caso com uma conclusão óbvia: nos acostumamos com esse cenário diário de perdas. Banalizamos a morte. Ela passou a fazer parte de nosso cotidiano, de nossa rotina. Não impressiona mesmo que oscile para cima o número de óbitos. Ainda mantemos o recorde nacional em toda a pandemia: em 29 de julho, 1.595 novos óbitos foram confirmados, mas esse triste dado passou despercebido ou já foi esquecido.

A questão é: esse cenário que o Brasil vive (o segundo pior do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos) poderia ter sido evitado? Ao menos amenizado? Claro que sim. Quem, então é o seu maior responsável? Não há dúvidas que é o presidente Jair Bolsonaro. Desde o início da pandemia no Brasil, o mandatário da nação sempre negou, desprezou e procurou não agir para evitar mortes. É claro que por ser o chefe da nação, a responsabilidade neste caso é dele, em um segundo momento, outros gestores como governadores e prefeitos.

O respeitado site BBC, enumerou os erros cometidos pelo Brasil para que chegássemos a essa triste marca:

1 – Não nos preparamos para essa pandemia;

2 – Não houve um plano nacional contra o coronavírus;

3 – Bolsonaro minimizou a pandemia;

4 – Não foram feitos testes em massa;

5 – O isolamento social não foi suficiente;

6 – A propaganda da cloroquina fez muita gente se expor ao vírus;

7 – Os hospitais de campanha viraram um ‘problema’;

8 – Não conseguimos proteger os índios;

9 – Não conseguimos proteger os mais pobres.

Portanto, somos – como já dito em outros artigos neste Blog – o exemplo (deveremos ser estudado no futuro por conta disso) do que um país não pode fazer ou o que não pode deixar de fazer em uma pandemia. Como os especialistas falam, estamos bem longe de encerrar a pandemia por aqui. Ela só ocorrerá com uma vacina, e isso levará ainda um bom tempo para que a população brasileira esteja imune ao vírus. Até lá, pelo que parece, continuaremos a contar diariamente a perda de vidas. A se manter o atual e duradouro ritmo, em cem dias, iremos dobrar a marca de mortos que atingimos ontem.

Chegamos a um ponto que todo brasileiro conhece alguém que perdeu a vida por Covid. Cem mil famílias choram a perda de parentes, em diversas delas, foi mais de um ou até mais entes queridos. Mas nada disse parece importar. Tudo vem voltando à normalidade. Governadores e prefeitos a cada semana flexibilizam seus decretos, sob a justificativa de cenários epistemológicos favoráveis. De toda forma, vida que segue.

Aos mais conscientes ela segue, mas mantendo distanciamento, evitando aglomerações, usando máscaras, não frequentando festas, não comemorando. Não há o que festejar quando se tem cem mil brasileiros que tiveram suas vidas interrompidas. Que não puderam se despedir. Não há o que comemorar quando seguimos em direção a duplicar o atual números de mortes. Empatia ao próximo é algo que precisa ser conservado e estimulado. São cem mil vidas que se foram. Não há o que celebrar. Todos nós perdemos. Somos derrotados. O maior culpado tem nome e sobrenome.

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