A “culpabilidade” de Tite

Adenor Leonardo Bacchi é indiscutivelmente o melhor técnico brasileiro de futebol em atividade. Mereceu o convite, em 2016, para treinar a seleção brasileira. Mais conhecido como “Tite”, levou um desacredito time que “caia pelas tabelas” nas eliminatórias, com sério risco de ficar de fora da Copa do Mundo da Rússia (algo inédito na história da seleção brasileira) para se classificar em primeiro lugar, com duas rodadas de antecedência.

Tite foi glorificado por toda a imprensa esportiva nacional, quase uma unanimidade. Qualquer crítica era abafada por uma sonora e acachapante avalanche de apoios e defesas. Pouco tempo após ter assumido o comando da seleção, o Brasil voltava a ser um dos favoritos a conquistar o título mundial. Essa relação Eliminatórias e Copa, talvez tenha sido o primeiro erro, o maior deles, e que provocou os seguintes que viriam depois.

O excelente desempenho contra as seleções sul-americanas criou um falso patamar de qualidade, que ficou claro na Copa, talvez nunca tenha existido. A divulgação da relação dos nomes que foram à Rússia foi o melhor possível. Jogadores que não constaram na lista final, alimentaram críticas ao treinador, algo natural. Sempre haverá cobranças pelos escolhidos e aos que não foram selecionados. O erro, talvez, tenha não ter realizado uma avaliação mais criteriosa em relação ao estado físico de alguns atletas. Mesmo estando em fim de temporada, não é normal ou aceitável que diversos jogadores estivessem tendo problemas físicos mais graves, como os que ocorreram e que tiraram alguns atletas de várias partidas.

Adenor errou também na teimosia em manter como titulares jogadores que estavam abaixo do desempenho esperado. Pagou caro por essa insistência, por exemplo, Gabriel Jesus no ataque; Willian na direita e Paulinho como volante. Conforme analisou o comentarista esportivo Mauro Cézar Pereira, da Espn Brasil. Segundo ele, o treinador brasileiro fez uma opção clara: instaurou na seleção a “República Corinthiana”, haja vista, que dos 64 profissionais que estiveram na delegação brasileira em solo russo, 17 foram ou são funcionários do referido clube paulista. Portanto, a linha seguida por Adenor foi a de agrupar profissionais de sua confiança ou que trabalharam com ele. Essa questão não é o maior problema em si, mas tomando essa decisão, ele privilegia alguns por um critério seu, conveniente a ele, em detrimento ao critério que seria mais justo: a competência e experiência.

Tite chegou ao cargo máximo de um treinador no Brasil por méritos. É um estudioso do futebol, de esquema táticos, de variações de jogo, do futebol moderno: intenso, compactado e repleto de triangulações que mudam a todo momento a dinâmica de uma partida. Aprendeu isso tudo quando foi estudar na Europa (em 2013, em seu ano sabático), depois de sair do Corinthians e ter sido preterido para ser o treinador da seleção na Copa de 2014, no Brasil.

Retornou melhor, com maior conhecimento técnico. E logo colocou a base teórica aprendida no Velho Continente em prática. Resultado todos sabem: Brasil realizou uma das melhores Eliminatórias de sua história. Mas veio a Copa… E toda a supremacia mostrada nos jogos sul-americanos e amistosos contra seleções importantes, caíram por terra, e fizeram ruir a imagem de um time imbatível e de um treinador brasileiro que se tornou mestre em jogo tático; que aliado ao talento individual dos jogadores brasileiros, poderia passear na Rússia. Entre a teoria e a prática, ou melhor, colocar em prática a teoria há um caminho às vezes extenso e que muitos não conseguem percorrer.

Tite é debutante em Copas. É inteligente o suficiente para saber analisar os erros, sobretudo, os seus. Deverá ficar no comando da seleção por mais quatro anos, tempo suficiente para montar uma nova equipe, promover análises, testar e ensaiar. Terá, por exemplo, já no ano que vem uma Copa América que será disputada no Brasil, para reiniciar um novo trabalho. Em 2022, no Catar, a seleção brasileira completará duas décadas sem título mundial e Tite estará em sua segunda Copa do Mundo, com seis anos à frente da única seleção pentacampeã do planeta. Portanto, o fator tempo, aliado à falta de planejamento, não deverão ser, em hipótese nenhuma justificativa a uma possível eliminação. Por outro lado, o maior espaçamento temporal no comando da seleção só aumentará a pressão pelo Hexa.

Que a Copa da Rússia sirva de lição a Tite, que levou a seleção até às quartas de final. Uma saída prematura contra a Bélgica, resultado do “nó” tático que levou de Roberto Martinez e que mostrou que a tão propagada “titebilidade” ainda precisa ser aperfeiçoada quando se disputa uma Copa do Mundo, cada vez mais nivelada. Só nos resta esperar por 2022.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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