A insensatez coletiva

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Entre todos os países ao redor do mundo (praticamente todos politicamente reconhecidos), o Brasil é o único que registra manifestações em defesa do retorno às atividades normais, portanto, abandonando o isolamento social, até aqui a única medida que se mostra eficaz no combate ao novo coronavírus (Covid-19). Chega a ser inacreditável que pessoas (em sua maioria de classe alta, composta por empresários) estejam nas ruas, promovendo o que é proibido – via decreto – aglomerações, afim de forçar que as determinações das autoridades públicas, estas guiadas por protocolos de especialistas em saúde, libere o fluxo de pessoas.

O presidente Jair Bolsonaro é também o único chefe de Estado que no presente momento pede o retorno à normalidade. Defende, por exemplo, o isolamento vertical, que define que apenas os grupos de risco e idosos se mantenham isolados. A questão é que o mundo inteiro está praticando um outro tipo de isolamento: o horizontal. Este define que todos estejam reclusos em suas casas. Repito: é a única e a melhor forma de combater à Covid-19. Mas aqui à revelia do mundo, seguimos por caminhos diferentes.

Ainda bem que nem todos. Quase todos os governadores se posicionam ao lado das orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde (MS). Definiram cada um ao seu modo e necessidade, formas de combate ao coronavírus, que incluiu como algo comum: assinatura de decretos que determinaram o fechamento de diversos estabelecimentos e restringiu a circulação de pessoas.

Ontem, 29, em Belém, uma carreata havia sido organizada por simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro, convocando pessoas a apoiarem o fim da quarentena. Portanto, desconsiderando o decreto assinado pelo governador Helder Barbalho. O mandatário estadual havia avisado dias antes que, caso ocorresse tal ato, ele seria reprimido pelas forças policiais. E assim foi. O local marcado para a concentração, escadinha do Cais do Porto, na área portuária da capital paraense, as forças de segurança se concentraram por lá. Mesmo assim, dezenas de carros se juntaram e promoveram por algumas ruas a carreata prometida. Logo foram interceptados pela Polícia Militar, que os conduziu para uma seccional de Polícia Civil.

A decisão enérgica do governador paraense repercutiu pelo país. E se espalhou de forma positiva. A ampla maioria o elogiou pela decisão. As carreatas já haviam sido proibidas pela Justiça em diversos estados. Mesmo assim, os mais radicais da ala Bolsonarista – no caso do Pará – pagaram para ver. Segundo dados da Secretaria de Comunicação (Secom), além dos 11 detidos, 16 pessoas, proprietárias de veículos que estavam na carreata, foram enquadradas no artigo 174 do Código de Trânsito Brasileiro: participar na via como condutor em evento organizado sem permissão, uma por dirigir com a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) vencida e um por transitar com o veículo em mau estado de conservação.

O pronunciamento feito na semana passada pelo presidente Jair Bolsonaro, ocasião que pediu que as pessoas voltassem para as suas atividades laborais, estimulou – irresponsavelmente – o crescimento de pessoas que querem o fim da quarentena. O movimento “O Brasil não pode parar” é um crime sob o ponto de vista da saúde pública. Tal postura presidencial, fará, infelizmente, o país, sobretudo os mais pobres, pagarem um valor inegociável: a perda da própria vida.

Bolsonaro deveria seguir o seu líder, a pessoa pública que mais admira: Donald Trump. O presidente americano havia desmerecido, relativizado os problemas da pandemia, mas logo voltou de sua decisão. Porém, seu relativismo custou caro: os Estados Unidos tornaram-se o epicentro da pandemia, com o maior número de casos no mundo. segundo dados contabilizados pela Universidade Johns Hopkins, que estão sendo atualizados em tempo real na internet, os Estados Unidos atingiram a marca de 2.191 mortes em decorrência da infecção pelo novo coronavírus, em um universo de 124 mil infectados, até o momento de produção deste artigo.

A insensatez coletiva que se propaga no Brasil, e deverá, infelizmente, nos custar milhares de vidas. E isso partindo de quem deveria, pelo cargo que ocupa, zelar pelo país. Uma pena.

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