Até um dia, meu velho

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Confesso que este texto foi um dos mais difíceis, talvez o mais que escrevi na vida. Pensei várias vezes antes de escrevê-lo. Quando resolvi fazê-lo, o apaguei outras tantas vezes. Me emocionei em diversos trechos, precisando parar, respirar, tomar ar, beber água e continuar. Precisava chegar ao fim, descarregar emoções. Em outro momento, o apaguei e depois o resgatei na lixeira eletrônica, recomeçando a escrita. Essa perturbação foi a tônica que me acompanhou por horas e horas. A indefinição de não postar, não era porque queria uma descrição perfeita do momento em que vivo, mas pela incerteza em expor tal processo íntimo, familiar. Quem me conhece sabe que evito ou até fujo das exposições pessoais, nunca me habituei em abrir a minha vida. Ela é restrita aos poucos que estão bem próximos, grupo seleto que resiste ao meu elevado nível antissocial.

Entre centenas de textos, artigos que escrevi, quase nenhum ou menos de 5% do total são de cunho íntimo. Minhas ações nas redes sociais são de abordagem de temas públicos, não pessoal. Este quebrou com o perfil dialético que me propus a seguir, justamente pela necessidade em abordar o tema. Escrever, aos poucos se tornou uma irrefutável necessidade para mim. Recentemente perdi uma das pessoas que mais amo (termo no presente porque me recuso a colocá-lo no passado) na vida. Meu avô, Mário da Silva Marinho, que perdeu a batalha para o câncer.

Quando amadureci e me tornei adulto, tive a exata noção do que ele foi para mim. Do quanto contribuiu em minha vida, desde a infância, sendo o primeiro neto, até a fase adulta, muito presente, ainda muito recentemente, enquanto esteve com saúde. Por isso, nos últimos anos já afirmará aos mais próximos que precisaria me preparar para a sua partida. Profetizava que não estaria – infelizmente – muito distante, levando em consideração tudo que passou na vida e o preço que a saúde cobra por décadas de muito trabalho e pouco descanso.

Meu avô teve a trajetória de vida muito parecida com a maioria do povo brasileiro, especialmente aos que não nasceram em boas condições, precisando lutar desde cedo para sobreviver. Foi assim que deixou a pequena São Sebastião da Boa Vista, no arquipélago do Marajó e rumou para Belém. Sem estudo, logo tornou-se braçal, ganhando a vida como pedreiro. Por suas mãos sujas de cimento, foram construídas importantes obras que hoje estão no dia-a-dia do belenense e aos que visitam a capital paraense. O canal da Tamandaré, inúmeros edifícios, ruas e diversos blocos da Universidade Federal do Pará, são alguns exemplos que podem ser citados. Todo esse processo tive oportunidade de ouvir dele mesmo, nas inúmeras conversas que tínhamos, geralmente aos fins de semana, na sala de sua casa, em seu habitual assento, do lado esquerdo do sofá, próximo a janela.

Se fosse descrever todos os momentos ou estórias que passamos, seria preciso acomodar todos os caracteres gerados em um livro. Mas aqui, neste texto, busco, apontar (ou pelo menos tentar) sua importância em minha vida.

Qual significado de avô? Na questão social, viés apontado pela sociedade, na estrutura familiar, é o pai de seu pai. Simples. Mas para quem conviveu, foi criado, direcionado em grande parte de sua vida, é mais, muito mais. Para mim e outros que passaram por tal relação seria mais do que um pai. No mínimo, tentando tipificar, um pai ao “quadrado”.

No auge da emoção, quando se despede de um ente tão querido, sempre o questionamento sobre a partida, ou melhor, a morte. Por que ela existe? Por que morrer? Não seria uma grande injustiça para com os que ficam? Qual a lógica de se nutrir de amor e respeito a alguém que irá partir, lhe deixar, sair deste plano lá na frente? Mesmo que ninguém concorde com essas indagações, defende que a morte é um processo (algo comum nas religiões, ou até que a não tem), há uma concordância geral: a morte é um grande desperdício, talvez o maior da vida.

Mas, a morte é também um significado. Ela, inversamente proporcional a dor que causa (neste caso depende de fatores religiosos e culturais de onde ela ocorre), torna-se o firmamento ou até, o resgate das pessoas que ficam. Serve também para a valorização de quem parte. O que seria de nós se fossemos eternos, imortais? Qual significado de amor, neste caso? Se vivêssemos eternamente a nossa relação com as pessoas seria completamente diferente. Portanto, a morte dói, a partida deixa estrago aos entes queridos, mas, faz parte do ciclo da vida.

A dor vai sendo substituída gradativamente pela saudade e boas lembranças. Obrigado, meu avô por tudo. Serei eternamente grato. O terei sempre como exemplo a ser seguido. Até um dia, meu velho.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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