A saída é pela esquerda, mas que esquerda e que saída?

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Depois do terremoto, alguns pontos parecem quase unânimes.
Digo quase porque, como uma amiga de longa data me recordou, ainda não vi o PT,
de verdade, assumir a questão na totalidade. Erramos, muito, quando insistimos
na coligação com o PMDB. Eu, pessoalmente, nunca aceitei. Como escreveu um
jornalista que eu prezo, passarinho que dorme com morcego acorda de cabeça para
baixo. No nosso caso, dormimos com vampiro mesmo, além da incômoda posição,
acordamos sem sangue. Resta-nos usar a cruz e a estaca. Fé e luta.
Não vou ficar no “eu te disse”, no entanto, porque, apesar
de meu pessimismo habitual, fui positivamente surpreendida, por exemplo, pelo
senador do PT do Rio de Janeiro, Lindbergh Farias. Esperava menos dele. Nem
sempre eu acerto, graças a Deus. Da Marta, sempre esperei traição, feminismo
para ela sempre foi um meio, nunca um fim. Voltando, usamos o PMDB para
destruir o DEM, e ele nos destruiu para ressuscitá-lo. Lá está ele no
Ministério da Educação, bem vivo, aliás. E a salvo da Lava Jato, diga-se de
passagem. A coligação foi o rio de águas volumas, contudo, o golpe foi o abismo
final. Acreditamos que a saída é pela esquerda, foi a esquerda que elegeu
Dilma, dizem, mas, se de fato é, que esquerda, que saída?
Primeiramente, precisamos olhar para a grande massa dos que
não votam no Brasil, absolutamente desapontados com a política. Não apenas com
a corrupção, mas com o fato de que a política parece não preencher nenhuma de
suas necessidades e pautas. Falo como pessoa com deficiência. Somos 46 milhões de
pessoas. Nossas famílias, portanto, elegeriam qualquer presidente da República,
facilmente. Mas, as políticas para pessoas com deficiência no Brasil são
meramente assistencialistas, medievais, ridículas. Sustentam grandes
organizações como APAES, mas verdadeiramente não se importam em criar uma massa
crítica de pessoas com deficiência trabalhadoras, intelectuais, de classe
média, empoderadas, autônomas.
Escreveu Lennard J. Davis, em Impondo Normalidade, “há um
silêncio estranho e realmente inexplicável quando a questão da deficiência é
levantada”: […] afinal “a esquerda dedicou-se à questão do corpo, da construção
social da sexualidade e gênero. Corpos alternativos, pessoas, discurso: gay,
lésbica, hermafrodita, criminal, médico, e assim por diante”. A pessoa com
deficiência permaneceu, apesar do Plano VIVER SEM LIMITE, e do PLANO DE ATENÇÃO
INTEGRAL À PESSOA COM DOENÇA RARA NO SUS, com os quais tive a honra de
contribuir, mesmo dentro do governo do PT, ainda como numa penumbra. Quando ia
tratar do tema com algum parlamentar do PT eu vivia dois tipos de situações: ou
era muito bem recebida por pessoas sensíveis, como Juliana Cardoso, Edinho
Silva, Alexandre Padilha, Eduardo Suplicy, Erika Kokay, Jean Wyllys, ou
enfrentava uma maré de assessores que achava que mães com crianças doentes se
lamentavam demais. Sério.
Além de não observar a pauta da deficiência e de dormir com
morcegos a vampiros, passando por todos os espectros possíveis, a esquerda
cometeu outros grandes equívocos. Não denunciou os esquemas de corrupção assim
que se deu conta deles, obviamente. Não construiu um legislativo que
viabilizasse o poder executivo. Não se capilarizou no Judiciário, enfrentando
sua caixa preta, sua forma singular de reprodução de poder. Não mexeu nos meios
de comunicação. Acerca de cada um destes temas poderíamos escrever uma tese, um
ensaio, um artigo. Assumir os erros, pensar o futuro.
Preciso citar ainda os protagonistas da nova esquerda. Quem
foi fundamental nesse processo, durante os últimos anos, e na reação ao golpe,
quem necessariamente é capaz de auxiliar na formação de uma FRENTE DE ESQUERDA,
verdadeiramente popular, propositiva e assertiva? Que pense todas as questões,
do combate à pobreza ao combate ao capacitismo? Da luta contra o poder do
monopólio das comunicações à capilarização da esquerda no judiciário, no
legislativo e no mundo das exatas e tecnológicas? Que encare pautas inovadoras,
de meio ambiente à doenças raras?
Bom, há sempre problemas em todas as listas. Essa é a minha
lista. Perdoem-me os que não estiverem nela. Considero os que listo abaixo,
pelos motivos elegidos a seguir, mas não digo que esta lista é suficiente. Mas,
sem eles, a saída NÃO SERÁ PELA ESQUERDA & NÃO HAVERÁ SAíDA.
Começo pela turma da comunicação (jornalismo e blogs):
Conceição Oliveira, Nana Queiroz, Lola Aronovich, Juliana de
Faria, Cynara Menezes, Nassif, Renato Rovai, Leonardo Sakamoto, Eduardo
Guimarães. Gente que escreve, fina, elegante, sincera. Com habilidade para
dizer o sim e o não, e para explicar porque o rei mal coroado não queria o amor
no seu reinado pois sabia que não ia ser amado. Não resisti de fazer uma
homenagem #fofa para vocês que leio todos os dias. Nunca vou esquecer uma
conversa com Nassif acerca das APAES que tomou conta de um debate no Barão de
Itararé. Falamos a respeito do equívoco que foi premiar as APAES no Prêmio de
DH da Presidência. APAES ajudaram no golpe? A mulher de Moro é advogada delas.
E #Arns do PSDB, seu grande defensor, participou? Ainda escrevo um texto sobre
deficiência e golpe.
Eu poderia ter colocado ele na turma de cima, mas quis dar
um destaque: Douglas Belquior, não apenas pelo ativismo do movimento negro, e
pela postura ética, mas porque compreende muito bem a questão de gênero e a
questão da deficiência e das doenças raras. Sabe o quanto é triste ver uma
criança com várias marcas ser banida pela soma delas, uma criança com doença
rara, menina, da periferia, em São Paulo, quase não tem chances. E ele sabe e
luta.
Jean Wyllys, que se reuniu na minha casa, com uma parte das
associações que integram o Instituto Baresi para discutir o Projeto de Lei de
doenças raras que escreveu conosco. Por defender todas as pautas, por estar
sempre na esquerda, do lado do mais pobre, do negro, do pobre, da pessoa com
deficiência, e não ter medo de fascistas. E por não desistir de lutar nem
quando ameaçado de morte.

Luiza Erundina, por tudo. Abraçar você é um presente,
sempre. Por ver você na cadeira de Eduardo Cunha por cinco minutos, num apelo a
esperança. Por ter sido, ao meu ver, a melhor prefeita de São Paulo. Haddad
poderia ter sido. É um grande urbanista, um grande administrador. Mas, o
capacitismo dele não deixou.
Alexandre Padilha. Este divide comigo três coisas que a
UNICAMP nos ensinou: o amor ao bem público, ao SUS e a crítica intelectual.
Alexandre é como um irmão para mim, e não é à toa, meu único irmão se chama
Alexandre de fato. Mas Padilha é o irmão que olho maravilhada: me deu a cunhada
que eu amo de paixão: Thássia, sua linda, você é maravilhosa, e o projeto de
saúde que eu mais admiro: o Mais Médicos, que erradicou, apesar da gritaria da
corporação de ofício, a mortalidade infantil de cidades e cidades do Norte e
Nordeste. O que Alexandre e Thássia sofreram por conta disso ficará para a
história como coragem, como sangue dado pelas pessoas mais humildes. A ele eu
devo o Plano de Raras do SUS, que salvará crianças que ainda vão nascer. 
Jandira Feghali. Embora eu não a conheça pessoalmente, os
vídeos dessa mulher corajosa, ao lado de LULA, ou fazendo narrativas sobre o
golpe demonstraram como a força da mulher de esquerda é fundamental para pensar
e lutar.
Eleonora Menicucci, cujo abraço em Brasília dias depois da
votação da Câmara eu nunca vou esquecer. Também não vou esquecer de sua fala,
pública, minutos depois, no Prêmio Igualdade de Raça e Gênero, diante da ONU
MULHERES. Eleonora conhece profundamente as necessidades das mulheres
brasileiras e foi rápida em perceber o quanto as famílias com crianças com
doenças raras são em sua imensa maioria mantidas e cuidadas por mulheres e como
isso implica numa política de cuidadores com foco em gênero. Teríamos avançado
de maneira imensa com ela. Espero sua volta em breve.
Edinho Silva, pela capacidade de diálogo e pela liderança em
São Paulo. Pela honestidade, pela decência, pela sensibilidade, por respeitar
pessoas com deficiência como tema.  Pela humidade, pela seriedade. Emídio
conseguiu destruir em 30 dias o que Edinho construiu em toda sua gestão.
Renato Simões, companheiro de longa data, da causa da
deficiência, da doenças raras, de uma sensibilidade ímpar com o povo deste
país. Acho que poucas pessoas tem a capacidade de dialogar, de apreender e de
ouvir de Renato. Com certeza, quase ninguém tem sua múltipla trajetória, que
vai do operariado a Teologia da Libertação, dos Direitos Humanos Acadêmico ao
campesinato aos povos indígenas.
Obviamente, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.
Tipo, os últimos serão os primeiros.
Falta obviamente, listar os acadêmicos. Não falo dos
eternos, os que nunca são esquecidos, como Marilena Chauí, entre outros. Claro
que têm importância. Mas, incomoda-me a esquerda não ouvir muito mais gente que
pensa a esquerda como Vladimir Safatle, Celso Barros, Laymert Garcia, para
citar alguns, mas a lista é imensa. Não basta se aproximar da academia que
concorda com você, mas precisamos de novos nomes.  Sem medo. Ouvir
críticas, assumir erros, recomeçar.

Autora: Adriana Dias.

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