Adolescência: O idioma que pais desconhecem.

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O semanal: Psicologia de cabeceira

Por Anny Pontes*

 

Nesta semana iniciamos o atendimento de mais um “adolescente problema”, segundo a descrição contida na queixa da mãe. A esta mocinha chamarei de Andy (preservação da identidade).

O número de famílias se ocupando do encaminhamento de seus adolescentes à terapia tem sido cada vez mais frequente. O que diria ter seus lados BOM e RUIM, conjugados no mesmo dado.

Ou em função do avanço da inserção da psicologia no senso comum (o que é bom, do ponto de vista de minimizar o tabu de que apenas males psicopatológicos merecem atenção em consultórios de psicologia), ou em função da falta de tempo de pais e responsáveis tomados pelas inúmeras tarefas do dia ou mesmo em razão dos perigos cibernéticos a que crianças e adolescentes são expostos na incrível era da soberana internet temos recebido indiscutivelmente um número cada vez mais significativo de adolescentes para escuta psicológica.

As notas da escola; a escolha da carreira; a suspeita de “namoro precoce”; dificuldades de relacionamento com colegas e professores; respostas de ódio e agressividade desmedida; “desobediência” aos pais; treino de autoconfiança e liderança; desorganização, desleixo com a rotina e mau gerenciamento do tempo; negligência com a aparência, entre outras, são as principais queixas que tenho recebido.

Ao que me parece existe uma variável transversal fazendo referência às queixas mencionadas acima. Em todos os casos, assim como no caso de Andy, percebemos a necessidade de estabelecer um processo de comunicação que à primeira vista pareceu ser o grande vício desse cenário familiar. Procurei investigar, no caso de Andy se o desacerto entre as partes (adolescente x demais familiares da casa) se daria em função de uma das variáveis que mais conheço e para minha surpresa, nem anotei problemas de desempenho escolar, nem de agressividade, nem de namoro “fora de hora”, nem baixa autoestima ou coisas assim. Percebo honestamente apenas um abismo entre as vontades contidas naquela casa (interesses que não se cruzam porque as pessoas talvez não se conheçam).

Temos pais e uma adolescente de 14 anos que, em resumo, não se apreciam; não se escutam, nem se percebem. Fazem o que é pedido pelas regras sociais; cumprem seu papel sem reclamar.  Assim, aparecem os “defeitos” da relação e impactam numa série de estágios do desenvolvimento do próprio adolescente (e no “sossego” dos adultos responsáveis por ele).

Reconheço que se não fossem os espaços mal ocupados teríamos um cenário familiar bem mais salubre e equilibrado. Caso a família estivesse a par do “novo” lugar tomado por seu adolescente teria melhores condições para se comunicar com ele e este, por sua vez, teria melhor compreensão sobre o que deve entregar e como se movimentar dentro das novas expectativas sociais que se alteram com o avanço da própria idade.

Trocando em miúdos, talvez não tivéssemos mais adolescentes tão “preguiçosos” se pais percebessem como se comporta o repertório de interesses do filho e se aceitassem que este (mesmo de “cara feia”) é capaz de realizar tarefas “chatas e enfadonhas”, porque nós também (os adultos) não gostamos de realizar uma série de tarefas “chatas e enfadonhas”, mas, que por sermos adultos, às vezes, temos o direito de reclamar da atividade e até de rejeitar em certos casos. É parte do caminho de desenvolvimento bem trilhado passar por restrições da vontade e fazer “coisas chatas”, mesmo que emburrados (e isso não deve magoar os pais).

Negociar prioridades e reconhecer que o adolescente já trás de interesses para o interior da relação pode fortalecer laços de confiança, melhorar níveis de responsabilidade, já que as orientações saem do lugar da “ordem” e vão para o lugar da “necessidade”, da “contribuição”. Trata-se de uma neurolinguística que confere ao adolescente o lugar de um adulto em formação e não o de uma criança crescida. Faz parte ainda do processo de desenvolvimento se colocar como arquétipo no caso de comportamentos que se deseja instalar no repertório do adolescente, não com um discurso antipático (e sim mencionando metas praticáveis, usando um discurso de pessoa falível). Reforçando ser possível e necessário cumprir determinadas responsabilidades.

Aos pais e responsáveis, não quero ter comunicado que uma educação liberalista é a defesa a que se propõe este texto. Ao contrário, sou defensora de que toda educação bem sucedida reserva destaque à apresentação de limites e não resume consequências “negativas” para condutas inapropriadas dos filhos. Sim, defendo que pais e responsáveis são a primeira configuração da lei na interface de crianças e o “mundo real”, então não se privem de praticar uma liberdade vigiada. Contudo, percebam que subestimar o conteúdo que trazem uma criança ou um adolescente, apresentando tutoriais impraticáveis por eles, também não se faz medida muito inteligente ou viável na formação de adultos responsáveis.

Aos adolescentes que realizaram esta leitura, também devo ter deixado claro que vocês não serão os líderes das vontades da casa, de uma hora para outra, tão logo ultrapassem os 12 anos de idade. Mas, que o ideal é que tanto vocês se ocupem de compreender gradativamente as implicações de suas novas fases, que procurem ter empatia com as vontades de seus pais, assim como recomendei que os mesmos fizessem.

Hoje tratei de caminhos que aproximem pais e responsáveis de seus adolescentes. É uma pauta imensa, mas espero ter provocado a curiosidade por novas leituras e a necessidade de estabelecer um cenário rico de diálogos dentro do contexto doméstico.

Olhem-se. Pratiquem a escuta um do outro. Entender e respeitar são boas bases para o amor e o equilíbrio familiar.

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