Alimentos Afetivos

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Já estava com saudades de nossas conversas. Há dias não escrevia, mas resolvi retornar aos textos levantando um tema que tem aparecido frequentemente nas demandas do consultório.

Vamos discorrer acerca do valor nutricional dos alimentos a partir de uma ótica diferente. Interessa-nos falar a respeito do teor emotivo do alimento. O que será que nos sustenta além de teores de carboidratos, proteínas e outros nos pratos que ingerimos? Existe outro elemento que nos nutre e vamos falar sobre isto.

Muitos estão entre os discursos de especialistas e curiosos a respeito das melhores dietas para emagrecer, ganhar massa muscular entre outras missões das mais queridinhas de praticantes de estilos de vidas atuais. São restrições notadamente midiáticas que frequentemente elegem vilões como carboidratos, carnes vermelhas, gorduras e açucares em geral, entre muitos outros. Ovos, derivados do leite e café também não foram esquecidos nessa relação.

Por falar em café, o escolho para iniciar o trato do fator afetivo de alimentos. Vivo devendo explicações a amigos e colegas a respeito do açúcar do meu cafezinho tão amado. Normalmente, tenho uma imagem associada a um estilo de vida saudável. Frequento a academia para sessões regulares de musculação e faço uma série de escolhas na alimentação que me incluem numa ingestão saudável, mas esse café com açúcar questiona minha reputação alimentar amiúde. Também não mencionei meu pão francês e queijo que acompanha meu primeiro cafezinho do dia.

Bom, mas deixa-me mencionar apenas um de meus “erros” alimentares cotidianos (risos). O café é mais que uma bebida energizante dotada de mágicos componentes que atletas e amantes defendem no elevado números de resenhas que se acumulam em redes sociais e rodas de conversas informais. O meu café foi a bebida que abriu meu dia, todos os dias da minha vida até hoje; foi a bebida que meu pai mais adorava e me ensinou a fazer. Minha primeira empreitada na cozinha foi um café fraco, com gosto de água suja e frio que servi para meu amado pai e que o mesmo alegou estar MUITO BOM para um primeiro café (uma mentira apaixonante, mas deslavada).

Meu café foi temperado com açúcar, com amor e me traz lembranças de momentos ímpares em minha história. E eu escolho iniciar meus dias, todos os dias com essa satisfação que nutre além do meu soma; afaga minha alma.

Portanto, escolhi ter meu alimento afetivo em seu modelo perfeito, sem ajustes, sem faltar nada. Não à toa, os melhores são aqueles passados no saco de pano (sei que sofrerei críticas por isto também).

Minha refeição da manhã nunca poderá substituir o café por sucos de frutas, shakes ou vitaminas. Falamos neste momento de um de meus alimentos afetivos prioritários. Trata-se daquele que nunca será retirado de uma dieta.  Assim, como o arroz nunca precisará ingressar (já retirado há cerca de 5 anos, substituído por outras fontes de carboidratos). Meu pão francês (ou a tapioca) com queijo também é imexível (risos).

Utilizei exemplos de meu modelo afetivo e se precisasse utilizaria outros de meus alimentos, mas acredito ter ilustrado de forma suficiente.  Assim como eu, todas as pessoas tem sua relação emocional com o alimento. Dietas que focam apenas no dado objetivo que cerca o alimento certamente serão negligenciadas pelo indivíduo, que tomara a relação passada pelo profissional da nutrição como uma penalização e não se sentirá incluído numa nova vida, mas sentir-se-á excluído da vida anterior. Assim, constante no modelo de alimentação saudável prescrito pelo especialista sempre estará destacada em negrito a função RECOMPENSA do alimento afetivo retirado da lista (tida como maldita pelo paciente).

Nesses dias também presenciei a força de um alimento afetivo na vida de um paciente em recuperação de AVC. Um dos pacientes SUS que atendo no Centro Especializado de Reabilitação. Utiliza sonda sem apresentar nenhuma restrição em seu equipamento físico para ingestão oral, apenas o aspecto depressivo lhe fez rejeitar a comida. Em plena sessão fiz a provocação mencionando alimentos que sempre gostou, segundo informou a filha. O senhor voltou para casa, tendo no mesmo dia retirado sua sonda para fazer a ingestão oral que um caldo ofertado pela filha. Sua condição depressiva o fez retroagir e voltar à sonda dois dias depois, contudo, ficou evidente que o resgate das lembranças positivas com o alimento o recarregaram as energias, que foram tomadas pela depressão (já em tratamento).

Indivíduos do mundo inteiro tentarão o estilo de vida novo (desses que criam uma série de vilões), mas o mundo inteiro estará enganado se acreditará que tal estilo será incorporado. Serão eleitos os escapes (como o Dia do Lixo de que todos falam). Serão aguardados ansiosamente os dias de sábado e domingo para SERMOS FELIZES de novo. Comeremos os alimentos “imundos” quando ninguém estiver olhando. Viveremos mais um grande evento perigoso de mentira em nossa história.

Caso não se sentisse tão penalizado de segunda a sexta-feira o indivíduo não se sentiria tão recompensado pela comida no final de semana, dias em que poderá (e o faz) pôr a perder todos os “ganhos” da semana.

É simples: considerar alimentos afetivos na dieta é propor uma relação de alimentos que afinal possa incorporar o estilo de vida da pessoa. Contudo, mais fácil é propor jejuns mirabolantes, dietas impraticáveis, que forjam pessoas com hábitos questionáveis (que trocam jantares em família, que negam uma fruta que se comia debaixo do pé da árvore na infância e que agora virou o “monstro da marmita”). Negar o aspecto social e afetivo do alimento é negar um aspecto nutricional que muitos especialistas e gente comum negligenciam e é imputar uma pena muito pesada para se cumprir ao indivíduo, que vive por isso a vive burlando ou que a cumpre infeliz demais.

Que, finalmente, dietas virem estilos e não cárceres privados. Que pessoas experimentem satisfação e afeto quando estiverem se alimentando; que pensar numa boa porção de feijoada não vire pesadelo; que não se precise passar cadeados em geladeiras. Que não se promova mais uma frustração e que não se crie mais crime (o de alimentar a alma).

Prezados, reconhecer e enumerar alimentos afetivos é o primeiro passo para uma dieta que funcione. Balancear nutrição de corpo e mente nos trará a saúde que esta ÉPOCA de evolução do homem tanto requer de nós.

A psicologia QUER ajudar.

Saudações Psi a todos!

@annypontes­_psicomportamental (no Instagram)

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