Amor Não Correspondido: A Mais Grave das Substâncias Viciantes

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Na clínica, sempre fui atraída pelo público adulto. A trajetória como analista comportamental de crianças é muito recente (e este até pouco tempo parecia ser um solo em que não jogaria minhas sementes, dado o grau de afinidade que tenho com as demandas de adultos, em especial aconselhando casais – outra das minhas paixões – já que a primeira sempre foi o mundo organizacional… como mencionei em outro texto).

Mulheres e homens (e não falo de gêneros, por não ser a função deste texto), ao longo da história, deram largas passadas a respeito da conquista de muitos espaços, inclusive a Lua (risos). Contudo, se existe um conjunto de condutas que os aproximam significativamente da era primitiva de suas relações são as arroladas no afeto que se nutre num relacionamento amoroso (desde o flerte).

Homens (na afirmação biológica) se consolidaram como o “sexo forte por natureza” e as (“antes doces”) mulheres pleitearam o comando de uma série de postos, inclusive no trabalho. Famílias inteiras passaram a ser supridas material e emocionalmente por elas, que depois de terem queimado os próprios sutiãs ganharam o “o direito de usar calças compridas” e abraçaram o mundo.

Homens (os mesmos do parágrafo anterior) já “podem” chorar em casamentos, cuidar dos filhos enquanto esposas saem para trabalhar. Homens viraram “Do lar” e mulheres arbitram jogos de futebol. Mas, ambos não desenvolveram maturidade para AMAR seus parceiros (sendo eles homens ou mulheres, sem importar a ordem).

Contudo, mesmo diante de tantas mudanças incríveis que revelam muito movimento e muita liberdade de ambos (inclusive no aspecto sexual), ainda habitamos um cenário bastante machista (ironicamente confirmado por condutas de homens e mulheres, acreditem!). Panorama em que, normalmente, homens (estes os que nasceram biologicamente machos ou não) comandam (ou escolhem a quem conquistar ou escolhem a quem se render) no emaranhado dos acertos de relacionamento. São inúmeros os manuais de “Como conquistar homens deste ou daquele signo”. Para ser uma boa candidata favor “não parecer fácil no primeiro encontro”, como já recomendavam as moças na época da minha avó, nascida nos anos 30 do século XX.

Por que se mantém e se nutre assim o cenário das relações amorosas, onde alguém precisa deter PODER e o outro precisa SUCUMBIR e COMER O PÃO AMASSADO PELO ANJO CAÍDO (usei o drama para reforçar a gravidade, rsrs)?

Para quê tantos manuais? Para quê tanta artilharia ou escudos? Para quê tudo isso?

Quem elaborou mentalmente o motivo: Para não “fazer papel de palhaço” na relação, deve ter acertado, pois é assim mesmo que os parceiros acreditam estarem se “protegendo” dos riscos advindos da afeição pelo outro.

Companheiros têm muito receio de passarem constrangimento, de parecerem fracos demais, de serem enganados; humilhados publicamente (agora ainda mais sentido em função da facilidade de compartilhamento de informações). Homens e mulheres têm lançado mão de jogos e mil tecnologias do senso comum para “vencerem” na queda-de-braço das relações. Suas estratégias, às vezes, circenses,  de atração e manutenção do interesse do outro só tem confirmado o desgoverno de que estamos falando.

É tão cenozoico o conjunto de comportamentos que homens e mulheres adotam quando tomados por severas “sensações de amor ou de paixão”. Existem comportamentos que parecem, inclusive, tipicamente biológicos dados suas frequência e sua previsibilidade. São “Sins que significam Nãos”; são meias palavras; são mensagens de WhatsApp não visualizadas de propósito; são status passionais personalizados; são posts com função de indiretas. São pessoas com medo de se darem ou de receberem sentimentos com os quais não saberão lidar. São aspectos de uma sabedoria pré-escolar que revela a destacada baixa autoestima, pouca autoconfiança e má formação emocional geral.

São exemplos cada vez mais típicos neste movimento que encaminha pessoas para a total inabilidade nos relacionamentos. Não conseguem ser transparentes; não assumem riscos mínimos em histórias que poderiam ser mais uma mera perda de tempo, mas que também poderiam se tratar de minutos valiosos ao lado do futuro “Grande Amor de Suas Vidas”. Só a característica de inabilidade talvez não seja suficiente para justificar os prejuízos reais do que acabo de ilustrar.

Não se tem repertório pessoal para viver dias felizes, nem tampouco para lidar com as perdas e frustrações a que estamos expostos quando aceitamos o ingresso do outro em nossas vidas. É claro que assim os amores demoram a chegar ou simplesmente tardam a serem percebidos. São muitos medos e desconfianças. O tempo passa e traz aflições complementares. A principal delas consta na pergunta: Ficarei sozinho?

O cenário descrito delineia um movimento contínuo na construção de relações de submissão que tem mostrado o quão sedutor é o poder do outro (cuja severidade foi conferida por nós mesmos). A autoconfiança dele nos impõe a desconfiança acerca de nosso próprio lugar no interesse de nosso parceiro. Como poderia ser diferente se a carga negativa que se traz é tão pesada?

Claro que isso tudo explica parte do teor viciante do amor não correspondido. O outro “tem o que eu não tenho”. “Admiro o poder que ele tem e que sorte a minha ter alguém assim!”. “Tenho muito menos a oferecer e assim preciso segurar esta relação, que, provavelmente, é a melhor que eu poderia ter”. “Ele tem mais virtudes que defeitos e acredito que possa mudar para melhor”. Quantas sentenças claramente limitantes! Quanto reforço intermitente! Um verdadeiro comportamento de apostador profissional de loterias (só perde, mas acredita firmemente na “bolada”). Tudo isso é muito mais comum do que gostaríamos (e confesso: estes honorários terapêuticos preferiria não receber).

Quanto desconhecimento de nós mesmos! O que nos permite subestimar tanto assim nossas próprias competências? Seria ausência do autoconhecimento, o aspecto cultural de romantização da dor de amor (do que se suprem nossos maiores poetas)?

Se o que tem se repetido são relações em que um “manda” e o outro “obedece”, a razão é dada pela imaturidade. O que tem dominado as queixas de adultos que buscam terapia em função de relacionamentos ruins está diretamente relacionado à construção frágil do EU. Alguém pela metade busca “metades de laranjas”. Pessoas inteiras buscam frutas inteiras.

Mesmo conhecendo a finitude de tudo: de pessoas, de interesses e motivações, parceiros preferem negar sua própria capacidade de superar suas perdas e divórcios. Apegam-se a afetos mínimos e dedicam-se ao investimento em amores inconsistentes, com a esperança de que irão reaver alguma atenção (que nunca existiu).

Aos amantes viciados, cuidem-se. Tratem-se. Amem-se um pouco mais e dediquem-se a uma troca justa de amor. Se puderem, façam terapia.

 

 

O semanal: Psicologia de cabeceira

Por: Anny Pontes

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