Belém do rio, um resgate histórico. Parte I

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Inegavelmente a história da cidade de Belém desde a sua
fundação, em 1616, pelos portugueses, servindo de “porta de entrada” para o
início do processo de colonização da Amazônia, até os dias atuais, com os recém-completos
400 anos, a relação do referido centro urbano com o rio sempre foi – aos poucos
– sendo diminuída, ao ponto que especialistas utilizam a expressão: “Belém
virou de costas para o rio”, o que de fato, não deixa de ser verdade.
A lógica desenvolvimentista para a região amazônica que na
década de 1950 (seguindo a tendência nacional de interligação territorial pelo
modal rodoviário) a relação do homem com o rio vem se apequenando. A cidade
nasceu do rio, mas nos tempos atuais o despreza, o diminui, o faz perder o
sentido, o resumindo a um estuário de dejetos que são jogados aos milhões todos
os dias pelos habitantes da capital.
Diversas produções acadêmicas foram produzidas para analisar
o relacionamento de Belém com o seu entorno fluvial, especificamente o rio Guamá
e a chamada Baia do Guajará (Erroneamente chamada assim na área situada em frente
a Belém, na verdade o certo é denominar dessa forma, após a “Ilha das onças” em
direção ao arquipélago do Marajó). Além de pesquisas dos centros de
conhecimento regional, documentários e publicações em diversos formatos mostra
essa esquizofrênica relação da cidade com o rio.
“Belém, cidade das águas” foi uma das melhores obras
realizadas para analisar a questão. De forma objetiva, em 22 minutos, Jorane
Castro e a Cabloca Produções, reuniram um grande material que servirá para
gerações que ainda virão, tamanho a sua riqueza de informações. No referido
material, o doutor em geografia Saint-Clair Trindade, faz de forma sucinta contundente
análise sobre os “usos” do rio pela metrópole, neste caso, Belém.
E por que essa sensação de desprezo pelo rio, pela maioria
dos belenenses? Primeiro, esse sentimento foi alimentado por décadas pelos
gestores públicos que administraram a “ex-metrópole da Amazônia”, que não
criaram políticas públicas para agregar o crescimento urbano ao entorno
fluvial. Segundo, a concepção de “modernidade” que despreza o local, a tradição
em detrimento aos meios mais atuais, neste caso, o carro.
Aliado a isso, o processo de ocupação da orla de Belém foi
completamente desorganizado, sem ação do poder público. Do distrito de Icoaraci
até a Universidade Federal do Pará (UFPA), a orla de Belém foi ocupada por
diversos segmentos. Desde os institucionais até as mais variadas modalidades econômicas,
especialmente da extração madeireira e suas serrarias. Esse processo retirou da
população o acesso ao rio, fomentando esse distanciamento da cidade em relação
ao seu entorno fluvial.
Só na década de 1990, nas gestões do ex-prefeito Edmilson
Rodrigues (1996-2004) que essa relação começava a ser restaurado, com as ações
que visavam devolver o rio a cidade. Os projetos chamados de “janelas para o
rio”, criação ou a revitalização de espaços que antes estavam sobre domínio particular
e agora começavam a se tornarem públicos, com áreas que proporcionem a
contemplação do rio, da vida ribeirinha, pela população da cidade.
Concomitantemente a ação municipal, o ex-governador Almir
Gabriel, em seu primeiro mandato (1994-1998) entregou a “Estação das Docas”,
área que pertencia a CDP (Companhia Docas do Pará) autarquia federal de gestão
de portos no Pará, onde antigos galpões tornaram-se atrativos ao turismo. Hoje um
dos principais cartões de visitas de Belém.
Continuando no âmbito estadual, na gestão de Simão Jatene
(2003-2007) entregou o Complexo Turístico Feliz Lusitânia, que abriga o Forte
do Presépio, a praça Dom Frei Caetano Brandão, a Casa das 11 Janelas, a Igreja
de Santo Alexandre (Museu de Arte Sacra) e a Catedral Metropolitana de Belém, além do Mangal das Garças, outro importante ponto de visitação da capital paraense.
Na gestão seguinte no Palácio Antônio Lemos, o prefeito
Duciomar Costa, após dois mandatos entregou o “Portal da Amazônia”, espaço de
lazer com dois quilômetros de extensão, composição do projeto de macrodrenagem
da bacia da “Estrada Nova”, que soma dez quilômetros de extensão. E aos poucos,
a cidade vai reconhecendo que é cercada por água, que nasceu dela e que deve
compor a sua paisagem urbana.

Continua no próximo post.

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