Belém do rio, um resgate histórico. Parte II

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Além das ações de resgate da relação da cidade com o rio, na
semana passada a Prefeitura de Belém, autorizou a operação de transporte entre
o centro de Belém ao porto de Icoaraci, com a novidade de ser em caráter
fluvial, através de lancha de uma empresa privada. A iniciativa seria louvável
se fosse em formato de operação pública ou através de modelo de concessão via
licitação pela menor oferta do preço da passagem e melhor serviço prestado. Mas
o transporte da forma como foi implantado (segundo a PMB, em caráter
experimental) torna o seu acesso restrito, quase exclusivo.
Projetos que visem utilizar o rio como meio de transporte
urbano, desafogando em parte o caótico trânsito de Belém não é novidade. Desde
a década de 1980 estudos já previam e recomendavam a utilização do transporte
fluvial como um meio de deslocamento para desafogar um pouco trânsito de Belém
que naquele momento já começava a se intensificar. Na década de 1980, um grupo
de japoneses, representantes da Consultoria Jica, que apresentou depois de dois
anos de estudos o Projeto de Desenvolvimento do Tráfego Urbano (PDTU) de Belém.
Já naquela época os técnicos afirmavam que se nada fosse feito, em pouco tempo,
até 2010 o trânsito de Belém poderia “travar”.
Passamos pela referida data e o pior ainda não ocorreu. Não
houve o anunciado travamento da mobilidade da cidade, pelo menos total. Mas que
precisa se locomover pela capital paraense sabe que esse cenário prognosticado
pelos japoneses não está longe de ocorrer. Logo após esses estudos técnicos,
diversas intervenções foram sugeridas para desafogar o trânsito. Entre elas
estava a utilização do transporte fluvial como opção ao belenense. A própria
Universidade Federal do Pará (UFPA) desenvolveu diversos estudos e projetos
para a implementação de linhas fluviais que interligassem o centro de Belém a
diversos pontos da cidade, especialmente aos distritos de Outeiro, Icoaraci e
Mosqueiro.
Nenhum projeto neste sentido avançou. Na semana passada essa
pretensão de anos se tornou realidade. A Prefeitura de Belém na gestão de Zenaldo
Coutinho colocou em operação o serviço de transporte fluvial. Por ser operado
em caráter experimental e operado por uma empresa privada, sem subsidio do
poder público, tornou a tarifa alta demais, excluindo a massa de trabalhadores
do acesso ao serviço. Dez reais por viagem, sendo que – no mínimo – o passageiro
gastaria em ida e volta, vinte reais por dia, o que torna economicamente inviável
a utilização.
A prefeitura informou que abriu processo licitatório para
tornar o transporte fluvial mais barato, com mesmo valor cobrado na passagem
urbana normal com direito a meia-passagem. A tentativa fracassou, nem houve
interesse por parte da iniciativa privada. Isso demonstra que além do lobby das
empresas de transporte rodoviário, a própria população não apoia a iniciativa,
o que reforça a cultura da mobilidade via terrestre e o desdém pelo rio.

Belém em sua área territorial conta com 39 ilhas em sua
parte insular, maior que a parte continental. Poucos belenenses conhecem “Belém
das ilhas”. Esse perfil da capital ainda é pouco acessado. O arquipélago do
Marajó que reúne mais de uma dezena de municípios é a área do território paraense
mais esquecido, com baixo desenvolvimento econômico e social. Isso reforça que
o resgate histórico da relação cidade-rio ainda é um grande desafio. A começar
pela cultura social e pela postura do poder público, ainda distantes do gênese amazônico. 

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