Belo Monte começará a funcionar. Tudo em nome do “progresso”

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Na semana passada o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
Recursos Naturais Renováveis (Ibama) liberou a licença de operação para a Usina
Hidrelétrica de Belo Monte, situado na volta grande do rio Xingu, 90 km à
jusante do município de Altamira, o mais populoso da região. A referida
autorização é mais uma etapa do processo de licenciamento do órgão. Com a
operação liberada, a Norte Energia, empresa responsável pelo empreendimento,
poderá encher os reservatórios de água para a geração de energia.
Tecnicamente o primeiro reservatório estará cheio em 40
dias. A projeção da geração de energia firme é para o mês de março, com mais de
um ano de atraso. O referido empreendimento é sem dúvida um dos maiores
entraves jurídicos da história do país. Por dezenas de vezes, houveram paralisações no andamento das obras. O que claramente atrasou e encareceu muito
o projeto.
Segundo estimativas a usina de Belo Monte deverá custar 50
bilhões de reais. Bem acima dos 15 bilhões que foram projetados inicialmente. A
obra que irá barrar o rio Xingu possui algumas particulares. Será a primeira
usina hidroelétrica construída a “fio d’água”, ou seja, as turbinas estarão na
posição horizontal, o que tornar a geração de energia mais proveitosa e de
menor represamento. Outro ponto diz respeito ao processo de transmissão da
energia gerada. Pela primeira vez foi feito de forma separado do conjunto da
usina, devido ao alto custo para levar a energia gerada na volta grande do Xingo
ao resto do país, via sistema integrado nacional.
Escrevi por diversas vezes, desde 2011, sobre a usina de
Belo Monte. No referido ano fui convidado para debater o projeto no município
de Augusto Correa, nordeste paraense, com o ex-vice-governador Odair Correa.
Eu, contra, ele, à favor da obra. Na ocasião apresentei as inviabilidades
social, econômico e ambiental do empreendimento. Mas de nada adianta
questionamentos contra a usina de Belo Monte, quando o país padece da falta de
energia e precisando gerar mais de 5 mil MW por ano, para afastar o risco de
apagão, a exemplo do ocorrido em 2001, no governo FHC.
Belo Monte gerando energia, no atual cenário de custo
tarifário nas alturas, a usina permitiria o desligamento de – pelo menos – 19 termoelétricas
pelo Brasil, barateando o custo de geração e consequentemente o preço final ao
consumidor. A questão da geração de energia é o centro dos debates técnicos.
Por que construir uma usina hidrelétrica para gerar por apenas quatro meses no
ano a capacidade máxima instalada, neste caso 11 mil MW?
O rio Xingu entre todos os grandes rios amazônicos é o de
maior variação entre o período de cheia e vazante. A diferença chega a
impressionantes 25 metros. Durante oito meses no ano, a geração de energia não
passará dos 4 mil MW por falta de água suficiente nas 18 turbinas da casa de
força. Por outro lado, a engenharia permitiu grande redução da área total
alagada. O que ficará submerso será 516 km², território já alagado nas grandes
cheias naturais do rio Xingu. Esse é o maior discurso de quem defende o
empreendimento. A título de comparação, a Usina Hidrelétrica de Tucuruí alagou
cinco vezes mais.
Outro ponto diz respeito ao cumprimento das 40 macro
condicionantes impostas pelo Ibama para a liberação gradual das licenças. A
licença de instalação foi concedida sem as garantias desses cumprimentos. Agora
a de operação foi liberada sem a comprovação que as imposições ao consórcio
sejam atendidos. A crise hídrica que o Brasil vive, apressa e faz enorme
pressão para que Belo Monte entre o mais rápido possível em operação. Novamente
o meio ambiente vai ficando de lado em nome do progresso. 
Altamira, a principal
cidade da região, já possui quase o triplo de habitantes que tinha antes da
obra. Todos os serviços públicos estão em níveis caóticos, sem o suporte
devido. O governo do Estado mantém a sua postura centralizadora na RMB e
esquece a região do Xingu.

Pelo visto as tragédias socioambientais vão se repetindo no
trágico livro dos gêneses da Amazônia, onde o passado não serve de alerta e o
futuro é incerto pelo presente intensamente perverso. A lógica
“desenvolvimentista” não muda. Amazônia é a sua triste sina de servir e não ser
servida continuará. Até quando?

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