Brasília não pode ser maior que o Brasil

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Quando o urbanista Lúcio Costa e o arquiteto Oscar Niemeyer
tornaram a nova capital federal uma realidade, cidade totalmente planejada em
pleno planalto central brasileiro, não poderiam imaginar que aquele centro
urbano, milimetricamente construído, com quase seis mil km² poderia aprisionar
um país com dimensões continentais como o Brasil, o quinto do mundo, com mais
de 8,5 milhões de km² de área territorial.
Brasília ao ser inaugurada em 1961 pelo então presidente
Juscelino Kubitschek, teria como função atender a dois claros objetivos:
transferir a capital do país para uma zona de menor contingente populacional,
diminuindo as pressões e criar um vetor desenvolvimentista em uma área que
ainda carecia de investimentos e ações integradoras. Brasília conseguiu atender
aos dois propósitos.
   
Seguindo os modelos de organização e controle político do
Palácio de Versalhes, na França e Washington, a capital americana, Brasília tornou-se rapidamente um feudo, uma organização independente do resto
do território. E em seu espaço se concentrariam todas as decisões referentes ao
país. A cidade de São Paulo teria a função de sustentar economicamente o Brasil,
enquanto em Brasília seriam acordados os trâmites políticos. O isolamento de
Brasília em relação ao resto do país só vem aumentando, a atual crise política
confirma na prática essa tese.
Ontem mais um capítulo da interminável novela intitulada
crise política ocorreu. Em mais uma operação da Polícia Federal, o presidente
da Câmara Federal, Eduardo Cunha, ministros, senadores e deputados do PMDB e outros tiveram suas casas
e documentos aprendidos pelos “homens de preto”. A operação atingiu em cheio ao
maior partido do Brasil e o controlador da base governista. O que potencializa
mais ainda o já insustentável ambiente político que promete paralisar o país,
se nada for feito ou algum acordo seja firmado.
Não há mágica ou alguma ação inédita para que se possa
superar a crise política. O processo só será investido com um pacto em nome da
governabilidade, união entre governo e oposição em torno de uma agenda que vise
retomar o processo de crescimento econômico do país. Esse acordão em nome do
país parece a cada dia mais distante. A “politicagem” domina a cultura política
brasileira. Os interesses nacionais não são maiores que os embates políticos,
programáticos e ideológicos de partidos ou grupos políticos. Volto a perguntar,
conforme fiz em outro texto: até quando o país aguentará esse autofagismo institucional?
A sua manutenção a quem interessa?
Pelo que se percebe, Brasília parece a cada dia se afastar
do resto do Brasil, mantendo-se cercada por muros invisíveis, rebocados por dinheiro,
poder e interesses. Basta um abreve análise sobre quanto tempo a capital
federal toma nos noticiários diários. Nos principais jornais televisivos do
país, pelo menos, metade de suas durações abordam Brasília. E o resto do
Brasil?

A agenda brasileira a cada ano vai se fechando cada vez mais
em torno do Plano Piloto que cerca a capital federal e fazendo esquecer o
imenso território que compõe quase um continente. No cabo de guerra quem perde
é o país. Brasília não é e não pode ser maior que o Brasil. Pelo próprio bem da
nação.

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