Dilma Rousseff: “O novo governo é do Cunha”

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Suspensa da Presidência, Dilma Rousseff assistiu do Palácio
da Alvorada ao anúncio da equipe do governo provisório, na quinta-feira 12.
Seis dias depois, sentada à biblioteca da residência oficial que ainda ocupa,
não tem dúvidas sobre como resumir o gabinete interino de Michel Temer. “É o
governo do Cunha. Uma parte do Ministério todinha é do Cunha.”
Eduardo Cunha é outro suspenso do cargo, recém afastado do
mandato de deputado e do comando da Câmara pela Justiça. Foi por obra dele que
Temer nomeou como ministros os deputados Mauricio Quintella (Transportes) e
Ronaldo Nogueira (Trabalho). Suas bençãos contaram muito também para as
indicações do deputado Ricardo Barros (Saúde) e de Marcos Pereira (Indústria).
Ao chegar para uma entrevista a CartaCapital, a ser
publicada na edição que começa a circular na sexta-feira 20, Dilma via no
noticiário a probabilidade de Cunha emplacar outro apadrinhado num
posto-chave do time de Temer: o deputado André Moura (SE), líder do
evangélico PSC, era cotado para líder do governo provisório na Câmara.
A hipótese confirmou-se ao longo do dia, sob a suspeita de
que, ao contrário de Dilma, Temer tenha cedido a uma chantagem de Cunha. Por
volta das 15h30, Moura convocou uma entrevista na Câmara para anunciar que
será o líder de Temer. “Tivemos uma reunião ontem com o presidente
[interino] Michel Temer e aceitamos o convite”, disse.
Um convidado à altura de Cunha. Moura é investigado na
Operação Lava Jato e réu em processos criminais no Supremo Tribunal
Federal (STF) sob a acusação de improbidade administrativa. Declarado
“ficha-suja” pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Sergipe, só pode assumir
o mandato em fevereiro de 2015 graças a uma liminar judicial de dezembro
de 2014. Não só: o Ministério Público desconfia de que ele está envolvido em
uma tentativa de homicídio.
Como um parlamentar de tal currículo teria conquistado a
liderança do governo na Câmara, cargo a partir do qual estará em posição
de negociar todas as votações de interesse do Palácio do Planalto? Por
chantagem, disse da tribuna da Câmara o deputado Silvio Costa (PTdoB-PE),
um dos maiores dilmistas em atividade.
Entregar a liderança de Temer a Moura foi uma exigência de
13 partidos cunhistas. Junto, o “centrão” é a maior força da Câmara.
Ocupar o posto com um fiel era necessário para Cunha tentar escapar da
Justiça. Ele precisa de um governo que o ajude no STF. Foi para isso que
ele abriu o impeachment de Dilma, na esperança de manipular Temer, um
velho parceiro.
No discurso, Silvio Costa contou como teria sido a
negociação dos cunhistas com o Planalto. Uma repetição, com final
distinto, dos dias que antecederam a abertura do impeachment de Dilma por
Cunha.  Segundo Costa, os cunhistas foram na terça-feira 17 ao secretário
de Governo, ministro Geddel Vieira Lima, cobrar o cargo para Moura. Vieira
Lima teria pedido uma semana para decidir. A trupe saiu dali e foi a
Cunha. Este teria orientado: digam que se não nomearem o Moura, os
partidos do “centrão” irão indicar seus membros à comissão do impeachment
de Temer.
O presidente interino assinou alguns decretos orçamentários
do tipo “pedalada fiscal”, como Dilma. Seu impeachment foi solicitado por
um advogado mineiro. Cunha negou a instalação da comissão. No início de abril, uma liminar do ministro do STF Marco
Aurélio Mello mandou o então presidente da Câmara repetir o que havia
feito com Dilma. Na época, Cunha protegeu Temer e peitou o Supremo com uma
artimanha. Combinou com seus aliados do “centrão” que ninguém indicaria
membros à comissão. Na prática, ela não existiria. Pelo que contou Silvio
Costa sem ser desmentido por ninguém no plenário, Temer topou ceder a
Cunha para que ela jamais exista. A propósito: na terça-feira 17, Marco Aurélio
Mello liberou o caso do impeachment de Temer para uma decisão pelo
plenário do STF. O processo pode ser julgado a qualquer momento.
Fonte: Carta Capital.

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