Entrevista da semana: Venício Lima – “Boa parte da mídia abdicou de fazer jornalismo para fazer oposição política”

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Pesquisador há décadas sobre o papel social da mídia, o
professor aposentado da Universidade de Brasília Venício Lima é autor de vários
livros sobre o assunto e segue refletindo sobre o comportamento dos veículos de
comunicação, a necessidade de regulação do setor e o papel da comunicação
alternativa e pública.
Brasil de Fato – Temos visto uma cobertura cada vez mais
parecida, especialmente da política, nos veículos da mídia hegemônica. Apesar
de pequenas diferenças de linha editorial, parece haver uma homogeneização no
tratamento de alguns temas, como na questão da crise e da operação Lava Jato.
Como você avalia esse comportamento?
 
Venício Lima – Na verdade, não acho que constitui uma
novidade. Há muitos anos, em livro que publiquei com o Kucinski [“Diálogos da
perplexidade: reflexões críticas sobre a mídia”], comentamos essa questão da
posição homogênea da grande mídia. É a ideia de que a grande mídia funciona
como se tivesse um supraeditor, como se as principais notícias, a pauta, a
narrativa, fossem cotidianamente editados por um super editor, que dá a elas o
mesmo enquadramento. Isso é tão verdadeiro que às vezes as mesmas palavras
aparecem reiteradamente, para os mesmos assuntos, para a mesma pauta, em
diferentes veículos. Isso não é uma novidade, e expressa apenas o fato sabido e
conhecido de que os oligopólios privados de mídia no Brasil têm interesses
comuns e defendem basicamente as mesmas propostas e são contra as mesmas
propostas, projetos e políticas. 
A que você atribui essa recente inflexão em alguns veículos,
como a Folha e o Globo, na questão do golpe ou impecheament contra a
presidenta?
É uma questão delicada. Os grandes oligopólios no Brasil
têm, sobretudo o grupo Globo, historicamente conseguido se adaptar às
conjunturas e preservar seu interesse. E, correspondente a isso, o Estado
brasileiro também historicamente não tem sido capaz de fazer prevalecer a
natureza de serviço público, sobretudo na radiodifusão. Um observador como eu,
sem acesso a fontes privilegiadas, sem vínculos com partidos ou nada do tipo,
me valho da minha experiência e dos dados públicos. O que se sabe agora é que
houve uma reunião do secretário de comunicação da presidência com os
controladores do grupo Globo e, por ocasião de uma homenagem à Globo no Senado,
uma reunião com executivo do grupo e nove senadores do PT. Depois desses
encontros, de fato observa-se uma inflexão na cobertura política e um
posicionamento diferente com relação ao impeachment da presidente. O que não se
sabe é se houve – e muito provavelmente houve – algum tipo de entendimento, de
acordo. Como foi feito no passado, com outros governos, em outras situações. O
Estado brasileiro e qualquer grupo que temporariamente controlam sua máquina
têm sido incapazes de fazer prevalecer políticas de interesse público e
negociam com esses meios, que se tornam cada vez mais poderosos e mais capazes
de fazer valer seus interesses. Depois saberemos melhor do que se trata. Vi
especulações em relação à atribuição das frequências, utilização do chamado 4G,
questões tecnológicas que o Estado tem poder, disputa entre os velhos grupos e
operadoras… teremos que ver se se confirma a inflexão e saberemos o que foi negociado.
Mas certamente alguma coisa foi negociada.
Na sua avaliação, por que os governos do PT não avançaram na
questão da regulação do mercado de comunicação?
Essa pergunta tem que ser feita aos governos do PT. Eu não
consigo compreender. Houve momentos em que se acreditava que os governos
petistas iam pelo menos propor uma atualização da legislação, a regulação dos
artigos que estão na Constituição, que fossem encaminhar projetos ao Congresso.
Isso ocorreu em diversos países da América Latina em que projetos democráticos
chegaram ao poder, mas nada disso aconteceu no Brasil. Tenho dito que esses
governos caíram numa armadilha de acreditar que seria possível que os
oligopólios de mídia apoiassem um projeto político, com repercussão na
economia, que beneficiasse as classes populares, que promovesse a inclusão. Há
informações seguras que durante muito tempo figuras importantes nos governos
petistas acreditavam que era possível trazer o apoio desses oligopólios para a
execução dessas políticas. Assim, a negociação com eles, as verbas
publicitárias, empréstimos etc, deveriam ser a prioridade da política de
comunicação do governo. Em detrimento da construção de um sistema público de
comunicação, como, aliás, manda a Constituição. Ao cair nessa armadilha,
perderam-se as oportunidades históricas de se fazer o que era necessário fazer
e que não foi feito.
A partir da pressão da sociedade e também dada a virulência
desses meios hegemônicos contra o governo do PT, você acredita que há
possibilidade de avanço na regulação neste segundo mandato da Dilma?
De novo, quem tem que responder são os agentes públicos do
governo, ou a própria presidente. Posso dar uma reposta de observador que tem
décadas que acompanha essas questões. Sou pessimista. Não vejo no momento atual
de crise política e de diluição completa da sustentação parlamentar do governo
possibilidades de avanço. As condições são adversas para que se implemente algo
nessa área. É interessante observar que o discurso de regulação econômica da
mídia, que fez parte da campanha eleitoral, que foi vocalizado diversas vezes
pelo ministro das comunicações, desapareceu. Não se fala mais nisso. Além
disso, até mesmo medidas que poderiam e podem ser tomadas por diferentes
setores do governo, que independem de aprovação parlamentar, não têm sido
tomadas. Como, por exemplo, a revisão de critérios das verbas oficias de
publicidade e a fiscalização de arrendamento de emissoras. Coisas que fazem
parte do papel do Ministério das Comunicações, em alguns casos, ou podem ser de
decisão política da presidência, medidas que poderiam ser tomadas independentes
de aprovação do parlamento, que é sabida e declaradamente de oposição ao
governo.
Você escreveu que não temos no país uma “narrativa
pública alternativa”. Na sua avaliação, como os veículos comunitários,
sindicais e populares poderiam avançar para pautar a pluralidade de vozes e
visões de mundo? 
Tem uma questão histórica, na mídia alternativa brasileira,
incluindo as TVs e rádios comunitárias, a mídia sindical, o sistema público de
um modo geral, que é a dificuldade de unificar sua narrativa. Há avanços, mas
são ainda muito tímidos em relação ao que seria necessário. Eu considero
absolutamente crítica a necessidade de apoio do governo ao sistema público
de comunicação. A Empresa Brasil de Comunicação, EBC, tem, a duras penas,
tentado produzir uma alternativa de qualidade à mídia comercial. Mas é muito
difícil, porque a forma como a EBC está regulamentada depende de recursos não
só do governo, mas de contribuição à radiodifusão pública, que inclusive vem
sendo questionado na Justiça. É uma situação financeira difícil. E mesmo a
empresa conseguindo, em seus diferentes veículos, produzir programas de boa
qualidade, é difícil quebrar a inércia da audiência, que há décadas é dominada
pela mídia comercial. A mídia pública não consegue ser divulgada fora dela
própria e fica reduzida à sua pequena audiência. Acho que esta é das
possibilidades que devem ser apoiadas. Inclusive uma coisa que esquecemos é que
as pessoas que acreditam na necessidade de uma mídia alternativa à comercial
devem apoiar a TV pública assistindo sua televisão e ouvindo suas emissoras de
rádio.
Ao mesmo tempo em que assistimos ao fortalecimento da mídia
comercial, aumenta o número de demissões e se discute o futuro do jornalismo. O
que se desenha para o cenário da comunicação hoje?
Essa não é uma peculiaridade brasileira. É algo que está
acontecendo na sociedade contemporânea e decorre de uma transição tecnológica,
cujos resultados não sabemos ainda. Há uma nova geração surgindo que não terá
os mesmos hábitos de consumo de mídia e isso já está claro, sobretudo no
Brasil. E isso tem implicação para modelos de negócio. Mas sou daqueles que não
compartilho o entusiasmo, muitas vezes acrítico, com relação ao acesso à
informação que as novas tecnologias possibilitam. Os dados que temos no Brasil
e no mundo confirmam que, apesar da transição e das mudanças de plataforma
tecnológica, os grandes produtores de conteúdo continuam os velhos grupos da
mídia tradicional. Pesquisas confirmam e isso é visto junto a segmentos que
acessam a internet, blogs e sites: os mais citados são da velha mídia. Esse
quadro se repete nas redes sociais, às quais 90% das pessoas que acessam a
internet estão vinculadas. Importante destacar que essas redes não são
produtoras de conteúdo, elas distribuem conteúdo e facilitam a interação. E o
conteúdo distribuído vem em grande medida dessa velha mídia.
Do ponto de vista da força de trabalho, tenho defendido há
anos que as novas tecnologias não implicam na desqualificação da mão de obra.
Ao contrário, ela tem ter que ser mais qualificada para sobreviver no mercado
de distribuição de conteúdo. Essa geração, embora embevecida com as redes, vai
precisar de informação de qualidade. Eu não posso ser exemplo, já tenho meus 70
anos, mas sou seletivo no dinheiro que gasto para receber informação. Boa parte
da mídia brasileira não me interessa porque abdicou de fazer jornalismo para
fazer oposição política. Quero informação para compreender o mundo e me ajudar
a tomar posições. Não quero generalizar minha posição, mas me parece que será
preciso uma qualificação da força de trabalho para produzir informação de
qualidade. Isso já está ficando claro em alguns países do mundo. Mas ninguém
tem bola de cristal. Estamos claramente vivendo um momento de transição, que
não é só no Brasil.
Como você vê iniciativas como o jornal Brasil de Fato, que
chega aos dois anos em Minas Gerais?
Absolutamente fundamentais. Eu como indivíduo estou numa
tentativa de lançamento de um jornal popular aqui em Brasília, como forma de
furar o bloqueio da mídia comercial. É muito importante não esperar que a
grande mídia venha a ser aliada para projetos que beneficiem classes
subalternas, nem aqui, nem em lugar nenhum. O Brasil é exceção na América
Latina porque não conseguiu ter, nem na mídia impressa, nem eletrônica, uma
alternativa à mídia comercial. Outros países têm essa construção, como
Argentina, México, Bolívia. Acho fundamental, apoio como posso e cumprimento
grupos que conseguem, com todas as dificuldades, produzir de alguma forma uma
imprensa alternativa. 

Fonte: Brasil de Fato.

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