João Campos e a meritocracia à brasileira

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Malia Obama nasceu em 1998, tem 17 anos, tornou-se uma linda negra americana. Foi contratada como estagiária no set do seriado “Girls”, do canal de TV HBO. Sua função não era de chefia. Ele servia cafés aos atores e auxiliava a produção do programa. Essa história é comum para adolescentes que estão se inserindo no mercado de trabalho, não só nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro. O “pequeno” detalhe é que essa jovem é filha do presidente americano, Barack Obama, o homem mais poderoso do planeta.

Ou seja, a filha do presidente dos Estados Unidos, trabalhou como estagiária e servia café. Isso seria possível no Brasil? Creio que não. A nossa cultura não permitiria situação de tamanha humildade. O fato relatado não se resume apenas ao caso americano. Na Inglaterra, por exemplo, membros da família real são vistos diversas vezes exercendo atividades como um cidadão comum. No Japão, China e alguns países do Velho Continente, há diversas histórias que o sobrenome não impõe vontades ou situações favoráveis para se conquistar um “lugar ao sol”, pelo contrário, só se chega ao objetivo com muito esforço.

Aqui no Brasil a questão da meritocracia voltou aos debates. João Campos, 22 anos, filho do ex-governador Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo em agosto de 2014, quando disputava a Presidência da República, foi nomeado chefe de gabinete do governador de Pernambuco, Paulo Câmara. A situação levantou diversos debates e muitas críticas. Quais os critérios que levaram um jovem de 22 anos, ainda cursando engenharia na universidade, ao segundo maior posto em importância política de Pernambuco?

Se alguém tiver a curiosidade em pesquisar (caso não saiba) as atribuições do chefe de gabinete de um governo estadual são imensas e até, em alguns casos, complexa. Se pesquisar encontrará que o cargo precisa reunir experiência e muita capacidade gerencial. João Campos parece não ter essa qualificação. Em que propósito a meritocracia se encaixa neste caso?

Eduardo Campos antes da tragédia que o vitimou, sempre foi reconhecido como um grande gestor. Imprimia aos seus governos grande ação gerencial e defendia arduamente a meritocracia. Dizia que era necessário saber, conhecer e através do trabalho, da experiência, exercer um determinado cargo. Se estivesse vivo concordaria com a nomeação de seu filho à chefia de gabinete do governo pernambucano?

Este caso em Pernambuco não é o primeiro e nem será o último. No Brasil se se acostumou a usar mais o sobrenome do que o primeiro nome. Tornou-se – infelizmente – procedimento institucional costumeiro indicar parentes para ocupar cargos comissionados em outros poderes. Membros do Judiciário, por exemplo, indicam aos poderes Executivo e Legislativo nomes para serem lotados em algum lugar. Uma troca de favores. Essa é a meritocracia à brasileira.

Alguém poderia imaginar o filho dos presidentes da Câmara e Senado servindo café? Ou batendo xerox, ganhando um salário mínimo em uma sala apertada no Congresso Nacional? Ou os filhos dos mais importantes políticos do Brasil, estudarem em escolas públicas? Isso ainda é surreal para o nosso país.

Pelo que se percebe, a tão falada e defendida meritocracia é diferente e atende os mais variados interesses. Em alguns países ela é conquistada da forma correta. Por aqui, o sobrenome ainda impõe. Parabéns a família Obama e a jovem Malia que serve de exemplo do que é correto e como se deve educar os filhos.

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