Mariana, Paris e a cobertura da grande mídia brasileira

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No último dia 05 do corrente mês, duas barragens de rejeitos
de minério da mineradora Samarco, controlada 50% pela Vale, romperam e criaram
um tsunami de lama com material químico que varreu a cidade de Mariana e outras
à montante no vale mineiro. A enxurrada de rejeito levou tudo que encontrou
pela frente, matando fauna, flora e eliminando vida nos recursos hídricos da
região. Transpôs os limites do território mineiro, chegou ao Espirito Santo e
descarregou os milhões de metros cúbicos de lama no mar. Sem comparação com
fatos ocorridos anteriormente, a tragédia em Minas Gerais é a maior na área
ambiental em território brasileiro.
No balanço divulgado pelos governos estadual e municipal,
seis pessoas morreram, e mais de duas dezenas ainda estão desaparecidas.
Milhares de cidadãos estão desabrigados, pois perderam tudo e não possuem
expectativa de nada, tornaram-se “zumbis” a espera de algo que possa lhes
devolver a vida. No plano ambiental os danos ainda são incalculáveis. O Rio
Doce, símbolo do sinistro, está morto, sem vida pelos próximos cem anos,
segundo especialistas e técnicos ambientais. Cálculos feitos por diversas
entidades apontam para um prejuízo de 42 bilhões de reais ou mais, dependendo
ainda de novas análises e levantamentos.
O que desperta atenção no caso de Minas Gerais é o baixo
nível de repercussão da tragédia. Com a mídia cobrindo superficialmente os
fatos, a sociedade tende a importar pouco. E ainda há pessoas que duvidam do
poder da imprensa no Brasil. Parece que o baixo número dos registros de óbito humano,
criaram a falsa impressão do verdadeiro impacto. Ou a nossa limitada
sensibilidade ambiental não nos permite enxergar os danos ao meio ambiente?
Do outro lado do Atlântico… Paris, capital da França,
cidade mundialmente conhecida, na última sexta-feira (13), foi o centro de seis
ataques terroristas, quase simultâneos que “tocaram o terror” pelas ruas
centrais da “capital da luz”. Nos ataques 124 pessoas foram mortas e 352 estão
feridas. Depois de algumas horas o grupo terrorista “Estado Islâmico” como de
praxe, requereu a si a autoria dos ataques. Em poucas horas o mundo se
consternou com o ocorrido em solo francês. A mídia mundial se concentrou no
desenrolar dos fatos. E assim deverá continuar por semanas de forma intermitente.  
O leitor deste texto se pergunta: qual a relação entre os
fatos? Por que escrever e dividir em parágrafos as duas tragédias? O intuído desta
reflexão e provocação textual diz respeito ao processo de cobertura jornalística
dos grandes veículos de comunicação do Brasil para os eventos citados. Para o
povo brasileiro, o atentado terrorista em Paris é mais importante do que a tragédia
em Mariana? Por que a grande mídia brasileira deixou de lado o sinistro em solo
mineiro e “mergulhou” no desenrolar dos fatos na França?
Antes mesmo do Estado Islâmico agir em solo francês, as consequências
do rompimento das barragens em Mariana, já estava sendo enterrada como ocorreu
com os próprios objetos no caminho do Tsunami de lama de rejeitos químicos do
minério de ferro. Além dessa cobertura superficial por parte da mídia, a
mineradora Vale, acionista da Samarco, tratou logo de se isentar de
responsabilidade, como se não houvesse relação entre a operadora e a
controladora das atividades desenvolvidas.

Desde o dia da tragédia na cidade mineira que a grande mídia
tenta esconder a verdadeira responsável: empresa Vale. O nome da mineradora é
escondido pelos principais veículos da imprensa, tudo para blindá-la e tirar as
devidas responsabilidades. Sendo assim, os atentados em Paris servem para
literalmente enterrar do noticiário nacional a maior tragédia ambiental
brasileira. Independente de escalas de resultados ou consequências de
tragédias, a capital da França é mais importante do que a maior tragédia ao
meio ambiente ocorrido no Brasil nos últimos 515 anos. “Je suis Paris” (Somos todos Paris).

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