O alto preço do “tchau, querida”

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O governo Temer completa hoje 19 dias que assumiu
interinamente o poder com o afastamento da presidenta Dilma Rousseff no
processo de admissibilidade do impeachment. Pela constituição, o referido
governo tem prazo legal de até 180 dias para continuar interino, ou se tornar
definitivo (se o julgamento do impeachment condenar a presidenta Dilma) até
dezembro de 2018.
Em pouco mais de duas semanas o governo Temer acumulou
diversas trapalhadas, erros grotescos e polêmicas. Nem o mais pessimista
petista ou apoiador de Dilma poderia imaginar um começo tão desastroso. Alguns
poderiam afirmar que os erros se sucederam pelas condições políticas e
econômicas que o governo interino recebeu o país. Mas deixando desculpas de
lado e favorecimentos políticos-ideológicos, Temer errou demais e os deslizes
foram todos de sua própria responsabilidade, na condição de mandatário
temporário do país.
Primeiramente, se faz necessário dizer que antes mesmo de
qualquer definição em relação ao processo de impeachment, Michel Temer já
articulava sem cerimônias o novo governo. Mesmo sem a Câmara ter votado o
processo de admissibilidade no dia 17 de abril, diversas reuniões e encontros
no Palácio Jaburu e na capital paulista já ocorriam, para definir os nomes que
iriam compor o primeiro escalão de seu governo. Então, não foi por falta de
tempo, não foi surpresa ou supetão. Temer teve tempo para montar a sua equipe.
Justamente por isso, pelo tempo, foi muito criticado pela
montagem de seu ministério. Um primeiro escalão composto só por homens, sem
mulheres, foi o primeiro erro. Desde a época da ditadura militar, década de 80,
governo Figueiredo, que isso não acontecia. Outro erro foi a nomeação de sete
ministros que estão envolvidos em denúncias de corrupção com seus respectivos
nomes vinculados a processos no Supremo Tribunal Federal. Como um governo que
se coloca como o “novo”, como o combatente da corrupção, ser montado com
pessoas que respondem processos?
Outro grave erro diz respeito a decisões sobre o tamanho da
máquina pública federal. O governo interino afirmava e fez forte discurso de
austeridade, ou seja, corte no custeio, reorganizando o seu primeiro escalão,
com redução de ministérios, promovendo extinção de pastas, fusão de outras. O
“tiro no pé” de Temer foi determinar o fim do ministério da Cultura. O ato
provocou revolta e milhões de críticas pelo país, inclusive de seus próprios
apoiadores.
Mesmo sendo interino, deveria nesta condição manter a ordem,
as instituições funcionando, enquanto espera pelo julgamento do processo de
impeachment da presidenta Dilma Rousseff no Senado Federal e não logo nos
primeiros dias promover diversas mudanças. Diversos programas federais serão
modificados, alguns até encerrados. O Minha Casa Minha Vida, Pronatec, Fies,
Prouni, Ciências Sem Fronteiras, Samu e outros, sofrerão significativas
mudanças.
No campo econômico, o governo provisório deverá tomar
medidas duras, com aumento de impostos e diminuição dos investimentos e
seguridade social. O Bolsa Família está na mira e deverá ser alterado. A conta
parece cair novamente sob os mais pobres, os mais necessitados, que em um
passado não muito distante já estavam acostumados nas crises do país a
carregarem o pesado fardo.
Pelo visto, o afastamento de Dilma, o processo de
impeachment, não seria o fim da crise como muitos pensavam, mas o seu início.
Está claro, evidente que o governo do presidente interino Michel Temer não tem
condições políticas de governar. O seu apoio popular cai a cada dia, sendo muito
inferior ao governo que sucedeu mesmo em seu pior momento avaliativo. Além de
não contar com o apoio popular, começa a perder a sustentação política no
Congresso Nacional. Diversos parlamentares estão insatisfeitos e já começam a
deixar claro que estarão fora da base.
No Senado, local que o afastamento de Dilma está sendo
julgado, consequentemente o futuro do governo interino, senadores que votaram
favorável a aceitação da admissibilidade do impedimento da presidenta, já
repensam suas posições. Ou seja, neste momento, não há garantias que Temer
governará até o final de 2018.
As pressões interna e externa aumentam a cada dia. O governo
provisório não consegue descolar da imagem de golpista, palavra cada vez mais
utilizada pelos editoriais dos principais meios de comunicação do mundo. Como
se sustentar assim? Como manter a governabilidade? O apoio popular? A relação
comercial com o mundo? Como resgatar o apoio? Como fazer um governo para todos?

São muitos os questionamentos que são feitos e que Michel
Temer parece não saber como resolvê-los ou solucioná-los. O Brasil parece uma
embarcação à deriva, sem comando em volta a grande tempestade. Com a democracia
não se brinca. O preço é alto.

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