Panelas continuam guardadas

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Esperar que os paneleiros protestem contra o “governo” Temer é o mesmo que aguardar a manifestação de neonazistas contra Bolsonaro: uma perda de tempo. A percepção de que aqueles que bateram panelas ou vestiram a camisa da CBF o fizeram “contra a corrupção” é ingênua na melhor das hipóteses: a questão ali NUNCA foi “corrupção”, mas o ódio a qualquer política minimamente considerada de esquerda.

Quando Temer anunciou um “ministério” (sempre uso aspas ao mencionar qualquer coisa relacionada ao “governo” Temer) formado apenas por homens brancos, os paneleiros se viram representados; quando sete destes “ministros” se revelaram ligados à Lavajato, acharam normal; quando vazaram gravações ESCANCARANDO a natureza golpista do “impeachment”, julgaram aceitável; quando o “ministro” da Transparência, supostamente encarregado de combater a corrupção, foi flagrado dando instruções de como fugir das investigações, preferiram ignorar; quando o novo ministro da Transparência declarou que “Temer jamais será cassado pela Justiça Eleitoral se for bem na economia”, condicionando o funcionamento do judiciário a fatores políticas, não piscaram um olho; quando a criação de 14 mil novos cargos foi aprovada depois de Temer dizer que seu governo reduziria em 5 mil o número de cargos, optaram por ignorar; quando o golpista anunciou a intenção de criar impostos, os paneleiros esqueceram de que haviam xingado Dilma por tentar fazer o mesmo; quando Temer usou o serviço de inteligência para MONITORAR AÇÕES de opositores, acharam até justo; quando o “governo” ganhou do Congresso o direito de chegar a um déficit de até 170 BILHÕES (nada menos do que quase OITENTA BILHÕES a mais do que o governo Dilma havia solicitado, num inchaço inexplicável), concluíram que Temer provavelmente era mais responsável do que a presidenta legítima que havia derrubado; quando logo em seguida o “governo” manobrou no Congresso para aprovar um aumento ao judiciário que custaria quase 60 BILHÕES – curiosamente, na véspera do que todos diziam que seria um dia repleto de prisões graúdas (que – hum – não vieram) -, os “anticorrupção” não viram nada de mais; e quando Temer recuou do corte inicial previsto de número de ministérios, da extinção do Ministério da Cultura, da decisão de não nomear o PGR a partir de lista tríplice, do cancelamento da contratação de mais de 11 mil unidades do Minha Casa Minha Vida, do anúncio de que o SUS deveria ser reduzido e de nomeações (como a do líder do governo na Câmara que havia sido condenado por duplo homicídio), os bate-panelas viram ali apenas um líder “flexível”.

Mas a trajetória de sucessos de Temer, o Pequeno, não para por aí, já que esta semana ele decidiu MANTER em seu “governo” dois integrantes que qualquer gestor sério afastaria: o “ministro” do Turismo, Henrique Alves, suspeito de receber dinheiro de propina, e Fátima Pelaes, “secretária” de Políticas para Mulheres, que, evangélica, já havia se declarado contra o aborto mesmo em caso de estupro e que, para completar, foi alvo de investigações por um esquema que desviou 4 milhões de verbas do ministério do Turismo. (Aparentemente, é preciso ter ficha corrida para ser aceito no “governo” Temer.)

Por outro lado, é possível compreender ao menos a decisão de manter Henrique Alves, cujo afastamento ocorreria principalmente graças ao fato de seu nome ter sido citado em delação que consta do novo pedido da PGR contra Eduardo Cunha. O problema? O NOME DE TEMER TAMBÉM CONSTA do documento como tendo recebido propina de 5 milhões. Ou seja: se afastasse Alves, Temer teria também que se afastar.

Mas as panelas seguem guardadas. O importante, afinal, é dar um jeito de entregar nossos patrimônios para os estrangeiros e cortar os programas sociais que tornam a vida de milhões de famílias um pouco menos dura enquanto as grandes corporações ganham incentivos fiscais, empréstimos milionários e o direito de “flexibilizar” os direitos de seus funcionários. Mas não se esqueçam: é a esquerda que incentiva a luta de classes. Claro.

Fonte: Texto postado no Facebook de Pablo Villaça.

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