Parauapebas e sua preocupante realidade*

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O município de Parauapebas, também conhecido como a “Capital
do Minério”, em maio próximo, completará 28 anos de emancipação
político-administrativa. Como o referido ente federativo nasceu, foi criado sob
o processo de extração mineral, Parauapebas nesse período já teve algumas
oscilações em relação a sua economia, entre altos e baixos na questão da oferta
de empregos e taxa de ocupação da cidade.
O auge econômico ocorreu entre 2010 e 2013, quando o preço
da cotação do minério de ferro (carro-chefe da Vale em Carajás) atingiu 115
dólares, fazendo os cofres da prefeitura municipal transbordar de recursos
vindo dos royalties. A melhor fase da cidade em relação à questão de oferta de
empregos estava posta. O Brasil olhava para a Parauapebas, assentada em uma
cordilheira mineral, especialmente o ferro. Milhares de pessoas chegavam
regadas por sonhos, de enriquecer e mudar de vida por essas bandas. O nome
“Pebinha de açúcar” não era à toa, fazia sentido, naquele momento.
A questão é que a relação econômica de Parauapebas é para
“fora”, ou seja, no exterior, mercado internacional, e não só no território
brasileiro. A partir de 2013, a crise econômica mundial começava a aumentar e
os integrantes do BRICS (Grupo formado pelos países emergentes que mais crescem
no mundo: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) começavam a sentir os
impactos da retração econômica global. A China, por exemplo, maior compradora
dos minérios que deixam Carajás, começou a reduzir o seu volume de importação.
A queda não se resumiu apenas a cadeia mineral, mas as commodities de forma
geral, a principal mantedora das balanças comerciais dos “emergentes”.
A partir de 2014 o cenário em Parauapebas começou a mudar. A
Vale continuava a bater recordes de produção (medida para enfrentar a redução
dos valores do minério de ferro e manter as taxas de lucro), mas os repasses
constitucionais começavam a cair. Com o ajuste feito internamente pela
mineradora, diversas terceirizadas começaram a serem desligadas do processo e
com elas milhares de empregos foram sendo extintos. O efeito é cascata, porque
o circuito econômico em Parauapebas é todo interligado e a Vale o comanda.
Ainda há vagas que são geradas pelo setor mineral, mas são
em menor número e com condicionantes de capacitação, para além do que era
exigido minimamente em outros tempos. Os novos critérios de admissão, tornou-se
um grande empecilho para a mão-de-obra local, que enfrenta grande dificuldade
de inserção ao mercado de trabalho na cidade.
Atualmente diversas manifestações vêm ocorrendo em
Parauapebas por conta da falta de disponibilidade de vagas.  Ruas fechadas, palavras de ordem e marchas
estão sendo realizadas. O Sine (Sistema Nacional de Emprego) já foi alvo de
ações desse tipo. O referido órgão não consegue dispor de oportunidades
conforme a demanda exige. Todos os dias em seu entorno se formam filas
gigantescas de pessoas das mais variadas faixas etárias, desempregadas, em
busca de uma oportunidade, mesmo que não seja em sua área de formação ou
atuação.
Esse cenário assustador desencadeia outros processos. Por
exemplo, a violência aumenta sem controle, com efetivo policial bem abaixo do
necessário. Parauapebas começa a viver a violência que se pratica nos grandes
centros urbanos. A Fobópole (Termo usado por Marcelo Lopes de Souza, geógrafo
que estuda a violência nos grandes centros urbanos brasileiros) já começa a
fazer parte do cotidiano parauapebense, isso sem muitos o perceberem.
E o que os poderes públicos estão fazendo para mudar essa
realidade? Quais ações, por exemplo, a prefeitura está promovendo para atenuar
a crise econômica que a cidade vive? E a Câmara Municipal o que planejou ou
está aprovando como lei para combater essa baixa na oferta de empregos?
A prefeitura, depois da Vale é a maior empregadora do
município, andou contribuindo com a crise demitindo centenas de servidores
contratados como medida de diminuir o custeio da máquina, buscando equilibrar
as contas, com a arrecadação em queda livre. Contrariamente a isso, logo em
seguida, no apagar das luzes do expediente legislativo, o Palácio do Morro dos
Ventos enviou à Câmara Municipal, projeto de lei para a contratação de 2500
pessoas. Muitos taxaram a iniciativa de “Bolsa-emprego”, criticando a gestão
municipal, haja vista, que soa como política eleitoreira, pois estamos em ano
eleitoral. Mas se um dos maiores provedores de empregos da região não oferta, o
que fazer? Ou de que forma fazer diferente?
Claro que a prefeitura não pode e nem deve chamar a
responsabilidade da empregabilidade local só para sí. O poder público têm
condições e ações que fomentam a geração de emprego e renda, através de
projetos, incentivos e parcerias. Da mesma forma os vereadores que podem criar
projetos de lei que estimulem a contratação de mão-de-obra local. O primeiro
passo na “Casa de Leis” foi dado. Os legisladores aprovaram a convocação de uma
audiência pública para tratar sobre o tema e despachar sugestões e acordos.

Pelo visto, Parauapebas, continua não se preparando para a
sua manutenção sem o minério. Completará 28 anos sem viabilizar qualquer outra
forma econômica que possa, pelo menos, em parte, amenizar o possível fim desse
finito recurso que irá acabar em um futuro não muito distante. E depois? O que
virá? O que ficará? A atual crise é mais um aviso que ela poderá voltar –
dentro da lógica cíclica de crise do capitalismo – e de forma mais devastadora.
Pelo visto, a teoria da maldição dos recursos naturais é altamente aplicável em
Parauapebas, infelizmente.
*Artigo originalmente publicado em minha coluna semanal no Portal Canaã.

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