Psicologia de cabeceira: Psicologia x Coaching?

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A respeito de ser necessário não ponderei, mas julguei oportuno iniciar a minha participação nesta “mesa de amigos” fazendo uso de um texto que vise desfazer, segundo minha abordagem profissional, alguns falsos dizeres acerca de similaridades e diferenças entre o midiático título de Coach e a atuação do Psicólogo (ou psicoterapeuta).

A Psicologia é a ciência do comportamento humano (e quando digo Ciência é no sentido literal, sem dúvidas). A mesma tem condições irrefutáveis de realizar procedimentos de coleta e trato de dados palpáveis e mensuráveis à moda de qualquer diretriz matemática. Faz-se uso de modelos estatísticos e métodos replicáveis. A audaciosa Psicologia tem como objeto de suas noites mal dormidas (risos) e, por que não (?) das bem dormidas também (para manter a justiça) o único objeto que não se poderia tentar observar, analisar ou prever: O Homem. Este, cuja maior virtude é ser o animal mais adaptado do mundo e cujo principal risco que traz é também ser o mais adaptado do mundo (vocês entenderão a ironia), já que assim acessa, subjuga e controla afim da satisfação de suas vontades (sanas ou insanas) todos os demais componentes dessa natureza que habita e na qual usa a coroa por ocupar o topo de sua cadeia alimentar.

O estudo do comportamento surgiu através do Behaviorismo que teve como percussor John Watson, no início do século XX. Segundo Bock (2001), este estudioso postulava o comportamento como objeto da psicologia, dava a esta, consistência que a comunidade de psicólogos da época buscava – um objeto observável, mensurável, cujos experimentos poderiam ser produzidos em diferentes condições e pessoas. Essas características foram importantes para que a psicologia alcançasse status de ciência, rompendo definitivamente com as correntes filosóficas. O Behaviorismo dedica-se ao estudo das interações e o ambiente onde ele está inserido, entre as ações que o indivíduo produz (respostas) e ambiente (as estimulações) (Bock, 2001).

O objeto Homem sempre intrigou a si mesmo. Sua criação, suas descobertas, sua trajetória sempre foram ensejo de curiosidade. A Filosofia (mãe de todas as ciências) desde os primórdios lançou questionamentos sobre os “motivos” do Homem para entender seus sentimentos, emoções, condições mentais gerais e como tudo isto resulta em seus comportamentos. Pois, no fim de todas as análises o que realmente importa é a materialização do todo que há dentro daquele universo “inacessível” (dessas coisas que se passam na mente humana) e como tudo isso vira o modo de SER ou ESTAR dessa criatura perturbadora.

Ao longo de tantos passos dessa trajetória, muitas ciências se propuseram a (a seu modo) contribuir elegantemente com o desvendar desse mundo de dentro do Homem. Antropologia, Biologia (Genética), História, Geografia entre outras muitas, direta e indiretamente, se ocuparam de estudar seus objetos que no fim tinham sua repercussão para nos munir ainda mais sobre os contornos do comportamento humano.

A Psicologia, com sabedoria e humildade, soube considerar todas as demais disciplinas científicas no conjunto de ações que operou para compreender então seu estimado objeto. E assim uniu saberes que possibilitaram atuar em áreas da vida do Homem, como: Desenvolvimento Humano, Psicomotricidade, Aprendizagem Humana, Psicopedagogia, Comportamento Organizacional, Neuropsicologia, Cognição, Psicologia Clínica, Psicologia Jurídica, Psicologia Social etc. O que sugere obviamente que o cerco que a Ciência do Comportamento fez sobre o existir humano a atribui, sem dúvida alguma, o melhor arcabouço teórico e artilharia técnica para analisar, entender e propor mudanças comportamentais de acordo com queixas e “dores” do indivíduo que hoje, por influência da mídia ou por falta de esclarecimentos que a própria comunidade de profissionais da Psicologia poderia promover no sentido de advertir que psicólogos são os únicos profissionais habilitados para promover as mudanças saudáveis que um repertório comportamental “indesejável” pode requerer.

Para garantir que o texto cumpra a missão que o título propôs, descrevo brevemente a técnica de Coach. Trata-se de uma forma de desenvolvimento na qual alguém denominado Coach contribui com o objetivo de um cliente (o coachee), através de treinamento e orientação. O Coaching se difere do Mentoring por se forcar em tarefas ou objetivos específicos, por oposição a objetivos mais gerais, ou desenvolvimento como um todo. A metodologia Coaching visa conquistar resultados efetivos em qualquer contexto, seja pessoal, profissional, social, familiar, espiritual ou financeiro. Trata-se de um processo que visa produzir mudanças positivas e duradouras em um curto espaço de tempo de forma efetiva e acelerada. A proposta tem a ver com o movimento do indivíduo de um estado atual a outro (desejado) de forma rápida e satisfatória (IBC Coaching).

Assim sendo, Coach pessoais, Coach de Vida, os de emagrecimento, os de carreira, Coach domésticos ou os infinitos outros, cuja velocidade com que são criados concorre com as horas do dia, não seriam os profissionais melhor indicados quando a necessidade fosse uma mudança efetiva e permanente de conduta, já que o comportamento seria analisado na sua raiz e não na superfície de um trânsito rápido e eficaz apenas em curto prazo, já técnicos não identificam porquês e sim justificam motivos (e apenas aqueles que aparecem involuntariamente).

Devo esclarecer que não me ocupo de denegrir ou demonizar a atuação dos profissionais de Coach, já que o que eles se propõem a entregar, pelo que vejo, entregam. Ocupo-me sim de justificar que se o que o indivíduo precisa é de uma mudança real e pautada no autoconhecimento; mudança lenta e gradual de comportamento assegurando relação entre pensar e agir para adquirir repertórios novos e permanentes e não mudanças parciais em que o indivíduo precise se exigir demais para manter máscaras pesadas ou que se transforme num perfil fake o que se precisa de fato é de um Psicólogo, preferencialmente comportamental. Destes que carregam em sua formação saberes de Filosofia, Biologia, Antropologia, Etologia etc. Desses, que podem promover mudanças que durem muito além do próximo inverno.

Antes de contratar um Coach de Vida (ou qualquer outro) procure um bom Psicoterapeuta do Comportamento. Busque um processo que promova sua independência e não um processo que garanta sucessivos retornos pelo conjunto de queixas.

 

Por Anny Pontes*

Psicóloga Comportamental Cognitiva

Referências

BOCK, Ana M. B. Psicologias: Uma Introdução ao Estudo da Psicologia. São Paulo: Saraiva, 2001.

Resumo Profissional

  • Análise do Comportamento Aplicada – ABA;
  • Especialista em Gestão de Pessoas e Comportamento Organizacional;
  • Psicóloga Organizacional com forte vivência em Gestão de Pessoas, com mais de 15 anos de experiência atuando em desenvolvimento de pessoas e mudança de comportamento;
  • Psicóloga Clínica com forte vivência em terapia de casais, atendimento familiar e desenvolvimento de mulheres; aconselhamento de carreira; tratamento de distúrbios do humor (Depressão e Ansiedade) e tratamento de fobias; atendimento de crianças com TEA, TDAH e outros referentes a atrasos globais do desenvolvimento;
  • Servidora pública municipal, integrando a equipe de psicólogos do Centro Especializado de Reabilitação em Parauapebas.

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