Salvem o rio Parauapebas

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Com 350 quilômetros de extensão e correndo na direção sul-norte. Formado pela junção do Ribeirão do Caracol com o Córrego da Onça, ele recebe pela margem esquerda o Córrego da Goiaba, os igarapés Gelado e da Gal e os rios Sossego e Sapucaia; pela margem direita recebe o Igarapé Ilha do Coco e os rios Plaquê, Verde, Novo e Caracol – detalhe: o Rio Caracol é um e o Ribeirão do Caracol é outro. Em seu alto curso até o Rio Sossego, o Parauapebas é conhecido entre os ribeirinhos como Caracol ou Plaquê. Também recebe o nome de Rio Branco em seus cursos médio e baixo. Ele só é navegável por pequenos barcos em trechos limitados, haja vista ser cheio de corredeiras e pequenas cachoeiras”.


Confesso que desde quando cheguei ao município de Parauapebas, pouco mais de um ano atrás, procurei informações, estudei, busquei analisar falas, ações e projetos referentes ao principal recurso hídrico da região e o único responsável em abastecer a “capital do minério” que, segundo o IBGE, já conta com 189 mil habitantes, o quinto município mais populoso do Pará.

Essa inquietação só aumentou quando tive a oportunidade de conhecer “in loco” o referido rio, por ocasião de aula de campo com alunos. O ponto conhecido é rodeado de corredeiras, que impedem qualquer tipo de navegação, trecho que fica embaixo de uma ponte metálica que liga à zona rural e ao aterro sanitário da cidade. Os alunos ficaram horrorizados com o que viram. Lixo para todo o lado e retirada de água do rio por dezenas de caminhões-pipas, sem ordenamento ou controle nenhum. Rapidamente se percebeu o descaso que o maior recurso hídrico em limite territorial de Parauapebas, vive.

Chega a ser unanime quando converso com diversas pessoas sobre o rio. A resposta é quase a mesma: “o rio está morrendo”, “está faltando água”, “o rio está a cada ano secando” e por ai vai. O que o senso comum reproduz, os estudos técnicos comprovam. Inevitavelmente o rio que dá nome a cidade, está em nível crítico, vazão cada vez menor, assoreado, com as matas ciliares quase inexistentes, ocupação irregular de suas margens e depósito de esgoto de toda a área urbana municipal.

O Parauapebas está criticamente em perigo. A fronteira agrícola e a mineração têm contribuído para o assoreamento pontual do rio, que tem perdido profundidade. A falta de saneamento básico na sexta maior cidade paraense faz com que resíduos sólidos e efluentes sejam despejados, sem qualquer pudor, nas suas margens. E a população – que frequentemente se vale do rio para se refrescar em momentos de lazer – não se preocupa em fazer sua parte, fiscalizando e evitando atirar lixo no curso d’água. Ela, por vezes, é a primeira a fazê-lo.

Um estudo científico intitulado “Diagnóstico da Qualidade da Água do Rio Parauapebas”, produzido por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), denuncia que o desmatamento das matas ciliares, a atividade mineradora, a retirada de areia e seixo para construção civil e a expansão urbana não planejada, com a invasão irregular da beira do rio, têm causado impactos nocivos ao Parauapebas. Como moeda de troca, a cada inverno, o rio expulsa centenas de casa, mostrando que ainda tem forças para reagir e sinalizando que chegou primeiro e foi ocupado indevida e irregularmente.

O índice de qualidade da água indica que tem havido transformações graves no rio e que, se nada for feito para conter o desgaste, em futuro não muito distante, a capacidade de uso e reuso do líquido precioso estará comprometida. O rio tem plenas condições de se autodepurar, desde que o processo de degradação seja contido. Atualmente, 80% dos 155 mil habitantes da sede urbana de Parauapebas bebem água do rio. Para encher tantas barrigas com o líquido precioso, a prefeitura precisou tramar um plano segundo o qual só com a ampliação do atual sistema seria possível atender a comunidade com plenitude. E apenas em 2015, para fazer frente à explosão que é o crescimento demográfico municipal, somente com vazão de 476 litros d’água por segundo, apontam estudos técnicos.

O problema é que a água que vai parar nas torneiras não volta limpa ao rio. Quando retorna, está em forma de crime ambiental: esgoto sanitário. Um rio poluído gera custos para que sua água seja tratada. E enquanto se trata água aqui, uma adutora dá defeito ali, um cano quebra acolá e um morador desperdiça água tratada em algum lugar. Vão-se embora dinheiro e força de trabalho. Nesse dilema, o Rio Parauapebas é castigado permanentemente, sobretudo no verão, quando seu nível baixa de maneira drástica, e ele mal dá conta de atender as necessidades básicas, tendo em vista que já vem devassado de outros lugares – com assoreamento e despejo de produtos químicos, entre outros.

Até quando esse cenário perverso e preocupante irá se manter? Acompanhar a morte progressiva do rio, em doses homeopáticas é masoquismo? Precisamos de uma ampla ação integrada entre os poderes constituídos e setores da sociedade civil organizada, para buscar ações efetivas de controle, preservação e revitalização do referido recurso hídrico. Sem isso, projeto da orla, por exemplo, seria mais um intervenção antrópica que iria acelerar o processo de destruição do rio Parauapebas. 

Em uma região em que a questão ambiental é encarada como um “entrave ao desenvolvimento”, e os órgãos do setor são meras formalidades institucionais, servidos apenas a interesses políticos-eleitorais e que o meio ambiente algo sem importância e que o próprio poder público não demonstra exemplo, o futuro é temeroso. A racionalidade humana é apenas uma retórica impraticável.

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