Suor de ferro: a realidade dos trabalhadores da mineração no Brasil. Parte III

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Acamado e com uma tosse constante, o ex-minerador Raimundo
Brito pede com dificuldades um copo de água à filha mais nova, Raquel. Os dias
do senhor de 68 anos têm se resumido à fadiga e falta de ar recorrente, tendo a
cama como amparo e a morte como certeza. O aparelho de oxigênio é a mais
presente companhia no quarto. Aos 36 anos, Raquel praticamente vive para ajudar
o pai. “Dou banho, comida na boca, carrego ele para tomar sol, troco a fralda e
levo para o hospital quando ele tem crises piores”, relata a filha.  
A situação dele é a mesma de um grande número de ex-trabalhadores
da mineração das cidades de Nova Lima, Raposos e Sabará, na região
metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais. O número de trabalhadores da
mineração no Brasil que têm silicose (doença respiratória que causa fibrose
pulmonar pela inalação de partículas contendo dióxido de silício e poeiras
minerais) chega a 500 mil nas empresas de extração mineral e garimpo,
informou a diretora Marta Freitas, da Secretaria de Saúde de Minas Gerais, a
partir dos dados da Frente Sindical Mineral e Fundação Jorge Duprat e
Figueiredo (Fundacentro).
O complexo minerador conhecido como Morro Velho e atual
Anglo Gold Ashanti, com sede em Nova Lima, esteve, no período colonial e no
século 20, entre as minas que mais produziram ouro no mundo. Dominada pelo
capital transnacional, a empresa só passou a distribuir Equipamento de Proteção
Individual (EPI) a partir dos anos 1990. Como consequência disso,
trabalhadores já idosos agonizam doentes. 
Em 2009, relatório da Anglo Gold Ashanti indicava 3.077 mil
ex-trabalhadores diagnosticados com a doença. Mas, para o sociólogo Tádzio
Peters Coelho, que pesquisa a mortalidade desses ex-mineradores, essa conta não
fecha. “Com certeza é bem maior esse número de doentes, porque tinha muita
gente lutando justamente para ser diagnosticada. Muita gente já morreu em
decorrência da silicose e sem o diagnóstico da doença. Fora os que morreram
antes ao longo dos séculos”, destacou o acadêmico.
Suborno
Tádzio explica que muitos trabalhadores se dirigiam aos
médicos da Justiça do Trabalho e não recebiam o diagnóstico correto. “Criou-se
uma polêmica na região, porque esses trabalhadores faleciam sem ter a doença
diagnosticada e sem uma causa de morte convincente”, conta.  Segundo o
pesquisador, há suspeita de suborno pelas mineradoras. “Os médicos que faziam a
avaliação [eram pagos] para esconder o alto índice de silicose entre os
trabalhadores da Anglo Gold Ashanti”, apontou. 
A médica Ana Paula Scalia explica que a silicose é
facilmente diagnosticada com uma radiografia. “Ou, quando não se
esgota o diagnóstico, é possível confirmá-la com uma tomografia de alta
resolução no tórax”, esclareceu. Com a deturpação do diagnóstico, trabalhadores
entraram, nos anos 1990, com pedidos de indenizações na Justiça, recebendo
valores de R$ 10 mil a R$ 15 mil, que não custeavam nem os gastos com a doença
nem os custos de subsistência familiar diante da impossibilidade de o doente
trabalhar.
“Sem eira nem beira” 
Depois de quase 20 anos da primeira leva de trabalhadores
que recebeu algum tipo de compensação, em 2010, 25 ex-mineradores com silicose
receberam benefícios. Desses, oito já haviam morrido quando a sentença foi
proferida. Um terço deles perdeu, portanto, o direito à pensão vitalícia
determinada pela Justiça enquanto vivessem e ao pagamento dos atrasados, cujo
total já atingia R$ 1,2 milhão.
Brito, mesmo com todas as dificuldades provocadas pela
doença, é um dos que ainda não recebeu indenização. Mensalmente, ele tem
direito a um pecúlio do Estado no valor de R$ 280 por conta da silicose. A
filha Raquel diz que o valor não cobre nem as despesas com medicamento e com
transporte para idas constantes ao hospital.
“Só com o espessante, produto para deixar a água mais
grossa, pois ele não pode tomar líquido que engasga, dá um gasto de R$ 360 por
mês, fora os gastos quando temos que sair com ele de táxi”, reclama. Edson
Morato, de 66 anos, que entrou na mineradora Morro Velho em 1987, está com a
mesma doença de Brito e vive em uma situação de miséria por não receber
qualquer compensação pelos anos de trabalho na mina. Com 60% do pulmão comprometido pela doença, ele teve mais de
oito pneumonias nos últimos anos. “Mesmo com o diagnóstico de silicose e com
muita dificuldade para trabalhar, eu não consegui me aposentar por invalidez.
Também não consegui uma indenização na Justiça”, lamenta. 
Massa enferma 
Minas Gerais é o estado brasileiro com maior número de
silicoses diagnosticadas. “Antes um trabalhador adquiria um quadro grave de
silicose com 15 anos de trabalho. Recentemente, encontramos trabalhadores de
empresas de mineração e garimpo com quadro avançado de silicose com apenas três
anos de trabalho. Ou seja, teremos mais silicose nesse período recente de 70
anos de retomada da mineração no Brasil do que nos 180 anos do primeiro ciclo
de exploração no período colonial”, revela Marta Freitas, diretora da
Secretaria de Saúde de Minas Gerais.
Segundo o médico auditor do Ministério Público do Trabalho
(MPT), Mario Parreira, um caso de silicose custa muito aos cofres públicos. “A
Previdência Social é onerada em R$ 293 mil por cada beneficiário, considerando
uma vida útil minimizada depois de adquirir a doença após a aposentadoria do
trabalhador”, explica. Diante do cenário de epidemia, Raquel demonstra
rancor com a história da mineração em Nova Lima. “É um monte de gente acamada
numa cidade que tinha tanto ouro embaixo de uma terra que hoje só sobrou para
enterrar, no mesmo lugar dos ouros, esse monte de ex-minerador”,
desabafa. 

Fonte: Brasil de Fato

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