TRAIÇÃO: De quem é a culpa?

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Uma pauta atual? Um assunto da moda? Uma justificativa para os ciúmes exagerados? Uma inspiração de letra de sucesso para uma nova música de Marília Mendonça? Uma das maiores preocupações de quem vive uma relação a dois?

SIM para todas as indagações acima.

Não importa muito de onde viemos ou para onde vamos com nossos discursos modernos e liberais. O fato é que enquanto não tivermos trocado de espécie e formos tipicamente humanos teremos o medo da perda, o temor pelo dano causado por uma traição do parceiro “tão amado”, “tão querido”, “tão nossa propriedade” (por que é justamente assim que sentimos em relação ao alvo do nosso amor).

Discursos politicamente corretos falam de uma neutralidade no amor muito difícil de tocar. Fala-se que “quem ama” deixa livre, deixa ir, deixa respirar (“só que não” – também estou por dentro de expressões da moda – rsrs).

Como? Somos animais antes de qualquer coisa. Somos como cães que demarcam território com sua urina; somos o leão que não tolera outro macho no bando… Somos gente (E como somos!). Portanto, começamos fazendo o certo quando reconhecemos a verdade desta condição. Assim, por uma lógica simples, não estaremos (nunca) afinados com a ideia de “perder” ou mesmo “compartilhar” o amor que compreendemos nosso com um par estranho a essa ficção de amor.

Claro que alguém vai lembrar-se das relações poligâmicas, muito comuns em algumas culturas, mas ainda eles não aceitam pessoas estranhas àquele contrato estabelecido (somente entre eles) e quando um dos membros da família se relaciona com um terceiro isto tem status de traição. Outra hora poderemos falar disto melhor.

O fato é que não suportamos ser traídos. Não lidamos bem com isso e mesmo quando “está tudo bem” entre um casal convencional (ou entre as muitas pessoas que compõe um “casal”) qualquer passo dado fora da linha desperta aflição. Quando existe o contexto da dúvida um “curto” atraso para chegar do trabalho; uma eventual  indisponibilidade de sinal telefônico durante o dia; aquela falta de tempo para responder uma mensagem ou um sorriso mais brilhante numa manhã de sexta-feira podem representar perigo. Pequenos sinais que nutram suspeitas podem adoecer mortalmente a confiança e, por conseguinte, a relação.

Mas, de onde veio a dúvida? Ciúmes são ciúmes, dúvidas são outra coisa. Se a “anunciada” traição não era um alarme falso, de quem é a culpa?

Muitos responderão que a responsabilidade (ou falta dela) foi de quem traiu. Outros completarão dizendo que “só gente besta é traída porque merece”. Mas nós, que não somos todo mundo, diremos que a traição pode ser uma soma de tudo isto e que se transforma num conceito totalmente diferente desses cursos de pensamento.

Primeiro, se não nos livramos dessa parte do nosso DNA humano e sempre teremos “medo de perder” então está claro que a indisponibilidade do outro rotineiramente nos causará incômodo, sempre sentiremos ciúmes (em maior ou menor grau).

Se as relações não forem tomadas pelo espaço da conversa clara e justa, se o outro não tiver a empatia que o coloque no lugar de quem faz uma pergunta simples (Por que demorou tanto, meu amor?) não contribuirá com a confiança de que se pretende constituir essa relação. Aquele que perguntou primeiro e não foi atendido, se não desistir de seguir com a relação em função de outros reforços que recebe do par, tenderá, pelo histórico de evasivas, a ser a parte menos segura (mais inoportuna, mais curiosa, mais taxativa, mais ciumenta, mais chorona e também a parte menos atraente e sedutora desse cenário). Já sabemos nesta simples conta de somar, quem terá maior probabilidade para incorrer numa traição.

Talvez, diante disto sim, fosse verdade a expressão de que “só gente besta é traída”. Mas não é bem assim. Não foi por sentir temor pela perda que se foi traído, não foi por questionar o outro que o levamos a trair. E não foi o parceiro supervalorizado na relação que viu oportunidade para trair sem que fosse descoberto.

Na verdade, a vítima da traição não é exatamente aquela pessoa que tinha medo da perda, porque só se perde aquilo que se tem na verdade. Os ciúmes que por vezes sentimos por quem amamos devem retratar apenas o apreço que temos e não um apelo desesperado para que o outro permaneça em nossas vidas. E aquela pergunta “onde você estava?” não pode soar assim. Perguntar das horas para o parceiro não deve soar que não se vive sem ele, mas que tendo condições de viver sozinho (ou mesmo acompanhado de outra pessoa) optou-se por viver com ele.

Por que quando se precisa implorar para alguém ficar é por que o lugar dele não é aí (do seu lado). Assim, a grande confusão é que SEMPRE teremos aflição na indisponibilidade do outro, mas NUNCA devemos perder o olhar sobre o interesse do mesmo em ficar. Se ele queria ir e você não viu (por que esteve muito ocupada em apenas reivindicar sua presença) ele deixou o corpo e levou a alma, portanto resolveu trair. E a culpa foi sua!

Não falo aqui que traidores estão desculpados por sua covardia. Mas trato da cegueira que apegos nos impõem. Grande número das traições não foram traições. Explico: foram situações anunciadas. Sabe aquele atraso para chegar do trabalho? Pois é, antes avisava; agora não. Lembra-se daquela indisponibilidade de sinal não programada durante o dia? Então, antes avisava. Lembra-se de quando deixou de responder perguntas antes banais?

Traição, por conceito tem a ver com a violação da confiança; é decepção quando se recebe algo diferente da expectativa que se tinha. Ou seja, traições esperadas não são traição, mas são as que mais se repetem nas relações em que o indivíduo nega verdades claras. Nesse modelo, o traidor de si mesmo foi aquele que insistiu mesmo diante de todos os indícios de que a confiança seria quebrada pelo parceiro. A culpa foi de quem se permitiu ocupar o lugar de enganado, mesmo quando sabia exatamente o que esperar de um indivíduo cujas condutas se alinhavam ao menor dos afetos, quando o “traidor” dava todas as pistas de que já não estava mais ali, no lugar onde normalmente o amor habita.

Trocas justas não acolhem traição. Pretendas parcerias em que os ganhos sejam reais para todos os lados. Não traias a ti para sentir-se parte dos planos de alguém. Tenhas teus próprios planos, onde caibam apenas as pessoas que queiram ficar.

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