Banalização da morte

Quando bateu-se a marca de dez mil mortos, o fato teve grande cobertura da mídia. Foi emblemático. Da mesma forma quando se chegou a 20 mil óbitos. Ao se atingir 30 mil vidas perdidas, outras matérias jornalisticas foram feitas, porém, em volume menor do que as anteriores. Isso já era um sinal de algo desolador: normalização da morte.

Ontem, 05, chegamos a 35 mil mortes por Covid-19. O Brasil ultrapassou a Itália e já é o terceiro neste triste ranking mundial, atrás apenas dos Estados Unidos e Reino Unido. Se continuar no atual nível de registros diários de mortos por Covid-19, em breve, seremos o segundo. E concomitantemente a esse cenário desolador, os governadores estão reabrindo a economia em seus estados. Como dizem como uma justificativa comum: “Estaremos flexibilizando a abertura de diversos setores de forma gradativa, sob a condição de manter as regras de isolamento e com fiscalização”. Isso funcionará na prática? Sou altamente pessimista sobre tal pretensão desses mandatários estaduais.

Chegamos no pior momento que poderíamos chegar. Banalizamos a morte. Milhares de vidas perdidas, mais de mil diariamente (segundo dados oficiais e sem falar das subnotificações), já compõe a cotidiano. Todo dia esperamos os boletins sobre a pandemia sem nos alarmamos, mesmo com o número de infectados e mortos subindo. Nos fizeram entender ou nos mesmos interiorizamos que tais mortes são – como disse o presidente Jair Bolsonaro – um fato que inevitável.

A economia do país não pode parar. Mesmo que isso custe milhares de mortos. Esse discurso que antes era questionável, combatido, agora parece ser verdade absoluta. Assim vamos acompanhando como se fosse uma novela ou série, mortes acontecendo a todo momento. A taxa de isolamento cai em todos os lugares, as pessoas estão nas ruas. Sabem que o vírus está em todo o lugar, mas se arriscam, se aglomeram. Em nome da sobrevivência.

Tal normalização da morte no Brasil é algo histórico. Por descaso das autoridades e do próprio cidadão, milhares de brasileiros morrem anualmente por acidentes de trânsito, assassinatos, etc. Nossa mortalidade sempre foi alta. Nascemos e aprendemos a viver em um país que negligência a vida, esta com pouco valor. O Estado não promove vida digna aos seus nacionais. Parece que é, desde de sempre, cada um por si. Na verdade sempre foi.

A pandemia expôs mais uma vez e da pior forma possível, que somos um país em que vida pouco importa. E não estamos em guerra contra outro país. Nunca tivemos. A exceção foi a do Paraguai, em meados do século XIX. A nossa guerra é interna, um conflito civil disfarçado, divido por nichos. Lutamos pela sobrevivência, sem perceber. Somos uma nação extremamente desigual, com uma das piores distribuições de renda do mundo. A pobreza compõe a paisagem. Viver em um país em que se banaliza a morte, não é fácil. Requer resistência.

A nossa curva de contágio continua a subir, em breve, infelizmente, chegaremos a 50 mil vidas que foram perdidas pela Covid-19. E, mesmo assim, até lá, a economia em parte, terá voltado a funcionar e seguiremos a acompanhar todos os dias, boletim a boletim, milhares de vidas, histórias, indo para não mais voltar. No caso do Brasil, tendo como referência a forma como o Governo Federal atua em relação a pandemia, os especialistas chamam isso de necropolítica. No Brasil ela sempre existiu, agora por conta do coronavírus, ela foi potencializada.

A vida não teve tão pouco valor. E isso, infelizmente, parecer ser um caminho sem volta.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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