Belém: caos urbano sem limites

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Os urbanistas nos anos 30 já falavam que as cidades são organismos vivos, onde tudo está interconectado e em constante mudança. É preciso, portanto, planejar a ocupação para garantir que os cidadãos possam circular livremente, ter espaços de lazer e contato com a natureza. No coração da Amazônia, Belém está bem longe desse conceito. A cidade é o retrato do crescimento desordenado. Falta saneamento, não há calçadas nem política de acessibilidade para pessoas com deficiências. Como transformar a capital dos paraenses em um lugar melhor para todos? Este foi o tema da entrevista do DIÁRIO com o arquiteto e urbanista Rodrigo Vianna, 40 anos, sobrinho neto do precursor dos ambientalistas na Amazônia, Camilo Vianna. Como o tio avô, Rodrigo também defende a interação do homem com o meio ambiente como uma das receitas para se ter uma cidade mais amigável para os moradores da cidade.

P: Do ponto de vista da ocupação urbana, como você caracterizaria Belém?

R: Para entender a ocupação de Belém, vamos voltar até os conceitos do Urbanismo na década de 1930. Os urbanistas, já naquela época, defendiam a tese de que a cidade é um tecido vivo em constante interação entre suas várias partes e isso está tudo conectado. Belém cresceu a partir da Foz do Rio Guamá e foi sendo ocupada em direção à porção mais Continental. Atualmente se transformou numa conurbação, formada pela interação entre Belém, Ananindeua, Marituba e ainda poderíamos caracterizar o distrito das ilhas como sendo quase uma outra estrutura urbanística independente.

P: Mas nós já tivemos um planejamento adequado dessa ocupação?

R: Infelizmente, o último modelo de planejamento urbano que foi aplicado é antigo. Belém não tem planejamento urbano há mais de 100 anos. Isso fez com que a associação do movimento de urbanização com o crescimento populacional e a falta de planejamento nos trouxesse à situação em que nos encontramos hoje.

P: Como assim?

R: Belém é uma cidade extremamente desenvolvida materialmente em vários bolsões urbanizados, mas é também cercada por uma estrutura de periferia que o próprio IBGE caracterizou como favelização e que carece de desenvolvimento social, acima de tudo.

P: Belém é uma metrópole, no meio da Amazônia. Como isso se reflete no seu modelo de ocupação e arborização?

R: É importante que se entenda que Belém foi chamada de Metrópole da Amazônia durante a revolução da Borracha no início do século 20. Hoje esse conceito não pode ser mais tido como verdadeiro. Somos uma cidade cercada por uma floresta equatorial densa e isso, a princípio, deveria ter produzido espaço urbano de interação entre o homem e a natureza com arborização em toda cidade, além de equilíbrio microclimático nos vários bairros e distritos traduzido em conforto ambiental em um ecossistema urbano humanizado. Infelizmente, a falta de planejamento fez com que tudo isso não se concretizasse.

P: Temos alguns dos piores índices de saneamento do País. De que forma isso impacta na qualidade de vida das pessoas daqui?

R: No que tange ao saneamento, voltamos ao conceito inicial da cidade como organismo vivo interligado e interdependente. No caso de Belém, faltou fundamentalmente planejamento para a ocupação urbana. Durante muito tempo, o mito do asfalto acabou se sobrepondo à necessidade primordial de primeiros termos um abastecimento de água e um esgotamento sanitário adequados. A Organização Mundial de Saúde estima que 87% de todas as doenças mais básicas de uma população podem ser evitadas se a cidade tiver saneamento adequado. Fica claro que, se pensarmos de forma objetiva, o melhor investimento é no saneamento de uma cidade. Isso é básico para estruturação de qualquer ocupação urbana.

P: Como é essa rede hoje?

R: Infelizmente, Belém não possui nem 40% de sua área urbana atendida por uma rede de esgotamento sanitário nem 10% dos seus esgotos são tratados. Isso se traduz em baixíssima qualidade de vida para todas as pessoas.

P: Mesmo para quem mora nas áreas saneadas?

R: É importante frisar isso: a falta de saneamento não traz consequências negativas só para quem mora na periferia. Todos os belenenses, mesmo aqueles que moram no último andar dos prédios do Umarizal sofrem indiretamente as consequências da falta de saneamento adequado na cidade. Todos nós estamos conectados! Aquilo que afeta um morador da Pratinha, por exemplo, em algum momento vai causar efeitos negativos no morador do bairro do Reduto.

P: Belém é uma cidade hostil para pedestres e ciclistas. É possível, a esta altura da nossa ocupação, resolver esses problemas?

R: Essa hostilidade aos pedestres infelizmente é um fato. Pior ainda é hostilidade aos portadores de necessidades especiais que padecem todos os dias. Se sequer temos calçadas, que dirá calçadas apropriadas para todas as pessoas e suas necessidades particulares. Sobre as ciclovias, atualmente temos cerca de 100 quilômetros, a maioria desconectadas entre si. Na realidade, já deveríamos ter mais de 300 quilômetros integrando todas as principais vias dos bairros e distritos de Belém. O uso da bicicleta está fundamentalmente ligado ao direito de ir e vir da população e à qualidade de vida que muitos buscam, ou ainda à necessidade de locomoção por pessoas que não têm recursos para usufruir do transporte público coletivo.

P: É possível mudar essa realidade que vivemos?

R: Temos de mudar nossos conceitos. Temos de ultrapassar o paradigma evolucionista tradicional, buscar o planejamento urbano humanizado, ecologicamente correto e equilibrado com o meio que nos cerca. Apenas vencendo esse desafio teremos então a Belém que queremos. Uma Belém para todos, independentemente de endereço, classe social, crença religiosa, direcionamento político ou cultural.

A URBANIZAÇÃO DE ANTÔNIO LEMOS

Antônio Lemos administrou a capital paraense entre os anos de 1897 a 1912. Lemos implantou o código de postura que existia na época e concluiu a arborização das vias públicas a fim de amenizar o clima sempre muito quente da cidade. O código era considerado rígido e proibia, por exemplo, estender roupas na frente das casas. Ele remodelou as praças Batista Campos e da República, além de reformar o Bosque Rodrigues Alves. Ele também foi responsável por obras que, ainda hoje, figuram na paisagem de Belém como os Mercados de Ferro e de Carne, o então Asilo Dom Macedo Costa, a sede do Corpo de Bombeiros, a caixa d´água de São Brás, além de ser a primeira cidade a ter bondes elétricos no País.

Fonte: Diário do Pará

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