Corpo Estranho

Ao fim da eleição de 2018, que elegeu Helder Barbalho governador do Pará, viria a etapa seguinte: a montagem do novo governo. E o eleito sempre deixou claro que o processo iria primar por aspectos técnicos e que estes estariam acima das indicações políticas. E assim foi feito. Em postos chaves da gestão, Helder nomeou pessoas de sua confiança e que possuem experiência nas áreas que foram escolhidas.

Obviamente que não se monta uma estrutura governamental a nível estadual sem indicações políticas. Como contemplar os aliados da campanha? Os partidos políticos? Chegou a se registrar nos bastidores a insatisfação de alguns líderes perante o filtro imposto pelo governador eleito. Estava claro que as secretarias menos importantes sob os pontos de vista político e orçamentário, ficariam reservadas para o atendimento político, além é claro, da reserva do segundo escalão do governo para tal fim. E assim foi feito.

O deputado federal Éder Mauro apoiou Helder Barbalho contra Márcio Miranda, o candidato do então governador Simão Jatene, na disputa pelo governo do Pará. Apesar de ser do PSD, Mauro tem forte influência no PSL, partido que seu filho, Rogério Barra, dirige no Pará. Ambos foram cobrar espaço político no novo governo. Foi reservado a Barra o espaço político. No dia 21 de dezembro de 2018, ele passou a ser o 15º secretário a ser anunciado pelo governador eleito. Estaria à frente da Secretaria de Estado de Justiça.

Éder Mauro e Rogério Barra são dentro do território paraense, os maiores defensores do presidente Jair Bolsonaro. São eles que definem as diretrizes de atuação do PSL e o modus operandi do Bolsonarismo parauara.

A pandemia de Covid-19 colocou em rota de colisão o presidente Jair Bolsonaro e os governadores, dentre eles Helder Barbalho. Publicamente, o nosso mandatário estadual diverge de Bolsonaro. Tal situação, iria indiscutivelmente colocar em choque a ala que defende o chefe da nação, com quem dirige o Estado. O que de fato, ocorreu.

Helder baixou decreto proibindo toda e qualquer aglomeração de pessoas, fechando estabelecimentos e pedindo para que as pessoas ficassem em casa. A ordem vinda do presidente (indo de encontro ao seu próprio Ministro da Saúde e ao que está se defendendo e praticando no mundo, que é o isolamento horizontal) era o contrário, pedia que as pessoas voltassem para as suas atividades, ou seja, voltassem às ruas.

No último dia 15, Éder Mauro e Rogério Barra, ambos, foram os responsáveis pela manifestação feita pelas ruas de Belém (naquele momento já haviam recomendações para que não houvessem aglomerações de pessoas), em apoio ao presidente Jair Bolsonaro e pedindo o fechamento do Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Mesmo com as recomendações das autoridades de saúde, o ato ocorreu.

No último domingo, 29, novamente apoiadores do presidente ameaçaram ir às ruas, agora pedindo o fim do isolamento social, mesmo com decretos proibindo e com a negativa da Justiça. Em Belém, poucas pessoas resolveram infringir a Lei, e quem teve tal postura, foi encaminhado para responder junto a autoridade policial responsável.

Na carreata do último domingo, 29, Éder Mauro e Rogério Barra não apareceram. Tal sumiço causou indignação em seus apoiadores. Ambos não quiseram comprar briga direta com o governador. Porém, no dia seguinte, bem ao seu estilo, o citado deputado federal, destilou toda a sua raiva em um vídeo gravado contra o Delegado Geral do Estado do Pará, Alberto Teixeira. Mauro desafiou, além de expor situações de cunho pessoal de Teixeira. A questão é que a ausência na carreata foi justificada pelo deputado como um simples “não deu”. Por que não foi?

A questão é: Éder Mauro não compõe a base política do governo do Estado? Sim. Não é aliado político do governador? Sim. Por que então ataca membros do governo que apoia e que tem o filho como secretário de Estado?

O fato é: se Éder Mauro não comunga das ideias e propostas vindas do governador, então lhe cabe deixar de apoiar o chefe do Poder Executivo estadual e ir para oposição. Além disso, ao romper, por coerência, deveria pedir ao filho que entregue o cargo que ocupa de secretário de Estado. Fazer duplo jogo político, de apoiar publicamente o presidente Jair Bolsonaro e nos bastidores (de olho na disputa pela Prefeitura de Belém) não há cabimento.

O governador pelo visto relativizou o caso. Sabe que o estilo de Éder Mauro é a de jogar para a galera. Algo que sabe fazer bem. A ala Bolsonarista no governo do Estado é pequena, mas ao seu estilo faz barulho e provoca instabilidades. Assim, passam a ser um corpo estranho.

A conferir as cenas do próximo capítulo. Se houver.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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