Da miopia política à aceitação do golpe

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Confesso que demorei e até relutei em aceitar o termo “golpe” quando se referia à crise política vivida no Brasil. Quando o Palácio do Planalto, ainda sob a gestão da ex-presidente Dilma Rousseff perdeu o controle político, viu a governabilidade indo embora e com a paralisia do Congresso Nacional, a não votação de projetos enviados pelo governo ao parlamento, ainda sim relutava em aceitar o termo.

Minha resistência se sustentava (pelo menos em minha cabeça) na tese de que o PT “patinava” em seus próprios erros e que o governo não sabia fazer articulação política, por isso, pagava alto preço político, que poderia naquele momento culminar no impeachment, o que de fato se consumaria meses à frente.

Mesmo não aceitando as famosas “pedaladas fiscais”, base e justificativa para o pedido de afastamento da presidente, procedimento que a ampla maioria dos ordenadores de despesas praticaram sem cerimônias até aquele momento, ato que se tornou corriqueiro no poder Executivo, ainda não havia formado perfeitamente a indicação de um golpe em minha análise do processo como um todo. Novamente os erros e as recorrentes práticas que até então o PT condenava, eram os alicerces de sustentação para o não aceite de qualquer vinculação a quebra do regime democrático de forma golpista.

Hoje, cinco meses depois de Temer ter assumido em definitivo a Presidência da República, e três meses antes de forma interina (enquanto o rito do impeachment se desenrolava), analisando os acontecimentos, alguns em formato sequencial, quase orquestrados, percebo que estava enganado. Minha miopia e desilusão com o PT escamoteava a real razão de tudo. Foi golpe sim e continua sendo.

Basta ligar os fatos e relacionar com a exposição mais emblemática de todo o processo, apresentado por Romero Jucá e Sérgio Machado em uma ligação telefônica (transcrito da Folha de São Paulo):

“Ainda conforme a reportagem, o ex-presidente da Transpetro fez uma ameaça velada e pediu que fosse montada uma estrutura para protegê-lo.

Em outro trecho, de acordo com a “Folha de S.Paulo”, Sérgio Machado voltou a dizer: “Então, eu estou preocupado com o quê? Comigo e com vocês. A gente tem que encontrar uma saída”.

O ex-dirigente da Transpetro disse que novas delações na Lava Jato não deixariam “pedra sobre pedra”. E Jucá concordou que o caso de Sérgio Machado não poderia ficar nas mãos do juiz federal Sérgio Moro, responsável pelos processos da Lava Jato na primeira instância.

Na gravação, ainda segundo o jornal, o ex-presidente da Transpetro afirma ao então senador do PMDB que, “a solução mais fácil” era colocar Michel Temer no comando da Presidência.

Jucá concorda com o interlocutor e ressalta que somente Renan Calheiros, que, segundo ele, “não gosta de Temer”, é contra a proposta de afastar Dilma do Palácio do Planalto por meio de um processo de impeachment.

“Só o Renan que está contra essa porra. Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra”, diz Jucá ao ex-presidente da Transpetro.

Na sequência, Machado destaca que é preciso “botar o Michel num grande acordo nacional”.

“Com o Supremo, com tudo”, enfatiza o ministro.

“Com tudo, aí parava tudo”, concorda Machado.

“É. Delimitava onde está, pronto”, avalia Romero Jucá, sugerindo que quem já está sendo investigado continuaria alvo da Lava Jato, mas quem ainda não faz parte da apuração do esquema de corrupção ficaria blindado.

Juca também disse na gravação que havia mantido conversas com ministros do Supremo, mas ele não menciona o nome dos magistrados com os quais teria falado. Ele ressalta, entretanto, que são “poucos” os ministros da Suprema Corte aos quais ele não tem acesso.

O ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF, seria um desses ministros, destacou o peemedebista, que acrescentou que Teori é “um cara fechado.

Um dos investigadores da Lava Jato, o delegado da Polícia Federal Igor Romário de Paula comentou nesta segunda-feira, em uma entrevista coletiva em Curitiba, que a corporação foi “pega de surpresa” com o teor da conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado.

O delegado disse que a origem do áudio deve ser apurada no foro adequado. Ele também negou qualquer interferência no trabalho da Lava Jato por conta da troca de governo. “O trabalho segue normalmente”, enfatizou.

O desenrolar dos fatos seguintes já é sabido. Dilma Rousseff foi afastada em definitivo e dezenas de políticos que estão sendo investigados pela Operação Lava Jato, tornaram-se ministros, ou seja, obtiveram foro privilegiado, só podendo responder judicialmente ao Supremo Tribunal Federal, a última instância da Justiça brasileira.

Ou seja, hoje, mais do que nunca, fica claro a real intenção de derrubar o antigo governo: se salvar da operação Lava Jato. O combate à corrupção era apenas um pano de fundo, sustentado pela mídia, que manobrou perfeitamente milhões de pessoas pelas ruas, criando o clima de tesão social e pressão contra o governo, que perdia a sua base social e já não tinha a sustentação política.

Hoje (06) o presidente Michel Temer indicou para ocupar a vacância da cadeira de Teori Zavascki, morto em um misterioso acidente aéreo ocorrido no litoral fluminense no mês passado, o seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, criminalista que prestou serviços advocatícios a uma empresa ligada ao PCC (Primeiro Comando da Capital) a maior organização criminosa do país.

Claramente a indicação é política. Moraes será o revisor do processo da Lava Jato no STF, em que constam nomes de seus pares ministros e do seu chefe direto, Michel Temer. Tudo parece fazer sentido e se encaixar perfeitamente quando se busca relacionar os fatos e seus desdobramentos. O que me parecia uma miopia política, um revanchismo ideológico, tornou-se claramente um golpe. E com a plateia, os milhões de brasileiros assistindo tudo inertes. Tal passividade impressiona a opinião pública internacional. Enquanto isso, ruas continuam vazias e as panelas guardadas, em uma hipocrisia gigantesca.  A anarquia institucional dita a regra. Caminhamos para o caos, mas antes tem a barbárie.

1 COMENTÁRIO

  1. Quer dizer Branco que só hoje que você acredita em golpe ? Um de nós dois tem amnesia ou escrizofenia. Me lembro muito bem no grupo dos professores do Município eu postei um vídeo do Leandro Karnal dizendo que não era golpe e você postou outro de outro Sérgio cortela que afirma que era um golpe logo depois do Impeachament . Você usou no grupo o expressão troxinhas já a muito tempo. Se você olhar as reportagens mais antigas do seu blog acredito que vão provar meu argumento.

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