Desafios da Saúde Pública: Epidemologia, Dados e Política

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Coletar dados para obter informação é um instrumento essencial para a tomada de decisão, principalmente quando se trata de políticas públicas. Trazendo isso para o contexto sanitário em que o Brasil está vivendo, é importante levantar esse debate porque estamos diante de uma situação delicada. Não temos dados registrados e nem informações estratégicas suficientes voltadas para uma análise permanente de respostas que precisam ser produzidas e do seu impacto sobre a real situação de saúde em relação ao coronavírus.

Nesta crise, o país não consegue testar uma parcela grande de sua população e enfrenta um problema de subnotificação de casos, o que resulta no enfraquecimento do sistema público de saúde, que tem as capacidades de
recursos humanos e estruturais bem reduzidas. Há, então, a redução na capacidade de governança, de tratamento e o aumento da mortalidade.

Já que o objetivo da saúde pública é promover, proteger e restaurar a saúde, aqui aproveito para ressaltar a importância da epidemiologia dizendo que ela é essencial no processo de identificação e mapeamento das doenças
emergentes. O propósito de investigar uma doença transmissível é identificar a causa e a melhor maneira de controlá-la com maior eficiência de gastos. Isso requer trabalho epidemiológico ordenado, como identificação e notificação de casos, coleta e análise de dados.

A epidemiologia estuda a ocorrência das doenças nas populações humanas para definir estratégias de prevenção e controle. Porém, o uso de métodos epidemiológicos na investigação das doenças transmissíveis ainda é um desafio para os profissionais de saúde, pois as investigações devem ser feitas de forma rápida, mas frequentemente os recursos são limitados para este fim.

As doenças transmissíveis apresentam um grande e imprevisível peso sobre os sistemas de saúde, principalmente nos países pobres e em desenvolvimento. Se a epidemiologia pretende contribuir para a prevenção e
controle dessas doenças, ela deve se apresentar como uma ferramenta indispensável para se obter sucesso.

O Brasil também tem um desafio a mais. Ao mesmo tempo em que atua precariamente para conter o coronavírus, uma instabilidade política assola o país. O Ministro da Saúde, Henrique Mandetta acaba de ser demitido e o seu substituto, Nelson Teich, deu a entender que daqui para frente as medidas de combate serão baseadas em dados.

O problema é que dos 15 países mais afetados por essa pandemia, o Brasil é o que menos realiza testes, com apenas 296 exames para cada milhão de habitantes. O Irã, que é o segundo que menos testa, registra mais de 2.755
testes por milhão de habitantes. Quase 10 vezes mais que o Brasil. Os EUA fazem 8 mil por milhão de habitantes, e a Alemanha faz aproximadamente 16 mil, o que equivale a 54 vezes mais testes que o Brasil.

Com esse rápido comparativo fica claro que precisamos multiplicar a quantidade de testes para obter resultados capazes de influenciar as políticas públicas sanitárias. Isso nos leva a entender que o nosso maior obstáculo na
saúde vai muito além de combater o coronavírus tendo como base os dados epidemiológicos oriundos das testagens.

A realidade é que o SUS precisa ser fortalecido de modo a superar um sistema de financiamento insuficiente, que prioriza o pagamento de juros e amortização da dívida interna em detrimento das políticas sociais para cumprir
metas de inflação e superávits primários. Também é importante ressaltar que o Brasil é o único país com sistema universal de saúde em que o gasto privado é
maior que o gasto público, o que deixa a saúde pública cada vez mais vulnerável.

Ainda assim, há esperança de vencer as dificuldades atuais porque o SUS tem provado que é possível construir uma política de saúde universal. Porém, se a classe política não colocar o sistema de saúde como prioridade, o Brasil seguirá frágil e incapaz de produzir evidências epidemiológicas suficientes para combater problemas sanitários emergentes.

Seanne Rodrigues é Cirurgiã Dentista pela Universidade Federal de Alfenas – MG, Especialista em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, estuda Gestão em Saúde pelo Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e é formada pela escola de políticos RenovaBR.

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