É Paixão ou Amor?

0
19

O semanal: Psicologia de cabeceira

Por Anny Pontes*

A principal característica do apaixonado é que ele passa a enxergar no outro aquilo que desejaria que ele fosse, e não o que ele realmente é. “O parceiro é idealizado e transformado em um personagem”. A verdade é que o indivíduo se apaixona pelo ideal de parceiro que o mesmo construiu e guarda em seu pensamento. Extasiado, o apaixonado se vê arrebatado pelo que ele mesmo imprimiu na pessoa que é o atual objeto de sua paixão.

Paixão é Amor? Será que a paixão pode ser vista como uma preliminar do amor ou como algo que o atrasa ou até mesmo o atrapalha?

Paixão vem do latim tardio passio -onis, derivado de passus, “sofrer”. É um termo que designa um sentimento muito forte de atração por uma pessoa, objeto ou tema. A paixão é intensa, envolvente, um entusiasmo ou um desejo forte por algo. Muitos de nós, roteiristas de filme, compositores e poetas consideram ser uma bela expressão de amor.

Existe uma duração determinada para sofrermos os arroubos da paixão? Segundo alguns especialistas em comportamento, sim. Diz-se que seres humanos são biologicamente programados para se sentirem apaixonados durante 18 a 30 meses. Ao que parece a paixão possui um “tempo de vida” longo o suficiente para que o casal se conheça, copule e produza uma criança. É isso mesmo o que leram o corpo humano “conhece” o algoritmo da paixão previamente e este está em nós funcionalmente para que mantenhamos a disposição por produzir e manter a espécie humana.

Pesquisadores do segmento identificaram algumas substâncias responsáveis pelo amor-paixão: dopamina, feniletilamina e ocitocina. Estes produtos químicos são todos comuns no corpo humano, todos nós temos o maquinário ideal para produzir cada uma, mas são encontrados juntos apenas durante as fases iniciais do flerte, desse entusiasmo inebriante. Ainda assim, com o tempo, o organismo vai se tornando resistente aos seus efeitos, como o faz diante de toda droga – e toda a “loucura” da paixão desvanece gradualmente – a fase de atração não dura para sempre. O casal, então, depara-se com uma difícil escolha: ou se separa ou aprende a lidar com a nova realidade de contato, o amor, a brandura – companheirismo, afeto e tolerância, e permanece junto.

Boa parte separa, especialmente na cultura do imediato que temos fomentado atualmente. O Carpe Die que temos proposto como estilo de vida atual é o do descartável. Hoje pouquíssimas coisas são estáveis. Nem valores são tão confiáveis. Estamos muito voltados para a ideia de substituição. Assim, quando é concluía a etapa da paixão, para muitos casais, o amor também se faz inviável de forma que a experiência real de amor nem mesmo pôde ser sentida.

Longe de mim, como psicóloga que vive repetindo a mesma fala aos pacientes que sejam corajosos e autoconfiantes e rompam com seus opressores que esteja sugerindo uma persistência doentia em relacionamentos que limitam. Mas, também não recomendo que meus pacientes se comportem como crianças que não choraram ou não passaram pelo Treino do Não e, por isso, hoje não conseguem se manter estáveis e equilibrados diante do menor indício de que seus relacionamentos não são a expressão do idealizado por eles. Recomendo mais parcimônia de emoções sempre para que o entorno seja melhor avaliado para que se aja de maneira a não gerar arrependimentos futuros por arroubos cometidos agora.

Os pensamentos de indivíduo tomado pelo mix de neurotransmissores que definem a paixão virão um verdadeiro amontoado de ideias, muito pouco confiáveis do ponto de vista da realidade, mas naquele momento o apaixonado é um dos indivíduos mais confiáveis do mundo, o mais forte, o mais dedicado; aquele capaz de trazer o Sol de presente do dia dos namorados. Os homens parecem ser mais susceptíveis à ação dessas substâncias. Eles são rapidamente tomados por sua ação; se apaixonam mais rápida e facilmente que as mulheres. Graças à intensidade da ilusão romanceada, achamos que escolhemos nossos parceiros e que aquele é o maior representante de nossas expectativas de par para a vida toda. Contudo, parece que somos ligeiramente traídos por ilusões minuciosamente produzidas por nós mesmos.

Precisou reunir um punhado de características físicas e de comportamento para então a pessoa se TORNAR AQUELA PESSOA que você esperou a vida inteira. Pena que a paixão tem longevidade curta e a vida toda dura bem menos do que o tempo que demorou-se para manter a música do casal no topo das mais acessadas canções do YouTube.

Quando estamos apaixonados, a amígdala passa a funcionar mal – e isso tem grandes consequências. Se dizemos que o amor é cego (e é), é por conta desse mal funcionamento. Localizada no lobo temporal do cérebro, é ela que comanda o bom senso do ser humano, ajuda na tomada de boas decisões, reconhecimento de situações de risco, entre outras funções. Além do mais, de acordo com estudos da antropologista Helen Fisher, o sistema límbico, voltado para as recompensas, é ativado quando estamos apaixonados. Toda vez que você pensa na pessoa amada ou sempre que a vê, mais dopamina é liberada. O seu amor, contudo, não fica restrito apenas à pessoa, mas tudo ao seu redor parece mais “colorido”. Assim, é claro que todas as análises e decisões tomadas sob efeito desta condição neurológica estarão sujeitas ao erro.

Mas, então, antes que esqueçamos o que nos motivou a compreender com tanto afinco o estado de paixão, retomo a pergunta: a Paixão atrapalha o Amor?

O amor, que é um sentimento de carinho e demonstração de afeto que se desenvolve entre seres que possuem a capacidade de demonstrá-lo. Motiva a necessidade de proteção e pode se manifestar de diferentes formas: amor materno ou paterno, amor entre irmãos (fraterno), amor físico, amor platônico, amor à vida, amor pela natureza, amor pelos animais, amor altruísta, amor próprio etc.

Amor (do latim amore) é sentimento que leva uma pessoa a desejar o bem à outra pessoa ou a uma coisa. Não que na paixão você não deseje cuidar (mas, é mais receber do que doar). O amor possui um mecanismo biológico que é determinado pelo sistema límbico, centro das emoções, presente somente em mamíferos (a tal ponto que Carl Sagan afirmou que o amor parece ser uma invenção dos mamíferos).

Para o psicólogo Erich Fromm, ao contrário da crença comum de que o amor é algo “fácil de ocorrer” ou espontâneo, ele deve ser aprendido; ao invés de um mero sentimento que acontece, é uma faculdade que deve ser estudada para que possa se desenvolver – pois é uma “arte”, tal como a própria vida. Ele diz: “se quisermos aprender como se ama, devemos proceder do mesmo modo por que agiríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte”.

Por sua característica mais racional que emocional (por mais irreal que isso nos possa soar), o amor certamente é a própria condição de lucidez que vem depois do arroubo da paixão para aqueles casais que escolhem resistir juntos, no caso do amor romântico. Se for aprendizado, claro que o amor não mascarará defeitos, como o que realiza a paixão, mas sobrevive a eles; os conduz, de maneira inteligente e sábia. Deste modo, parecemos estar diante da condição de apego astuto, ponderado que pode nos acompanhar até os nossos últimos dias, diferente da instabilidade de permanência das emoções compreendidas pelo estado de paixão.

Assim sendo, talvez estejamos diante de boas respostas qe se relacionam à pergunta do titulo: “Paixão não é Amor”, “A paixão não atrasa o amor” e “A paixão nos prepara para o amor”.

Sim, é isso mesmo. A paixão, com todo o empenho para nos forçar às atitudes erradas nos permite entregar sóis e luas; criar poesias e ações; sermos confiáveis e dedicados e, portanto, nos permitem estrear uma bela história cujo início é importante para demarcar fronteiras e compartilhar sonhos e céus. Sem este estágio, estaríamos fadados a um amor sem história; sem porquês. A paixão é a mágica.

O amor precisa passar por isso. Mas, precisamos compreender o estado de paixão como uma etapa de construção, que não deve ter duração permanente. Então as expectativas deverão se ajustar ao longo do tempo em que as pessoas continuem juntas. Ao passo em que a paixão dizia respeito ao que diz a letra de música: “Me apaixonei pelo que eu inventei de você”; o amor é estar com os dois pés na realidade, conhecendo virtudes e defeitos e, apesar destes decidir ficar. Aí entra novamente a racionalidade: de que defeitos se estão falando? Toalha molhada sobre a cama SIM (posso gerenciar); gritos e depreciações NÃO (não posso lidar).

Para concluir, a paixão sempre apoiará o amor quando for entre pessoas emocionalmente desenvolvidas, curadas de suas feridas emocionais e psicológicas. Se a paixão derrota o amor na sua história afetiva, meu querido leitor, existem necessidades suas que merecem atenção. Cure-as primeiro. E depois volte a se apaixonar.

Vai uma dose de terapia?

Saudações Psi a todos!

Deixe uma resposta