Em meio às incertezas do papel que o Brasil terá na agenda ambiental, o legado de Chico Mendes. Parte I

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Em meio a incertezas que a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro representa em relação ao futuro papel do Brasil na agenda ambiental, o maior símbolo do ambientalismo brasileiro, Chico Mendes, completaria neste sábado (15), 74 anos de vida. Há 30 anos seu legado ficou eternizado com a sua morte. O blog reproduz uma longa e bem produzida matéria feita pelo jornalista João Paulo Vicente, do National Geographic – Brasil. Vale a pena a leitura.

Era uma quinta-feira, dia 22 de dezembro de 1988, e Chico Mendes jogava dominó com dois policiais militares responsáveis por sua segurança na casa onde morava, em Xapuri, no Acre. Conforme anoitecia, Ilzamar, esposa de Chico, avisou que iria colocar a mesa para jantarem. Dali a pouco começaria um dos últimos capítulos da novela Vale Tudo, da TV Globo. Chico jogou uma toalha em cima do ombro e se preparou para tomar banho do lado de fora. Antes, olhou pela fresta da porta e comentou que estava escuro no quintal. Disse que colocaria uma luz no dia seguinte, mas não teria a oportunidade. Assim que saiu, levou um tiro de escopeta que tirou sua vida.

“Mas quem matou o Chico errou o alvo, perdeu o tiro”, diz Gomercindo Rodrigues, amigo do seringalista acreano que se tornou famoso ao redor do mundo ao propor um modo de explorar a floresta sem destruí-la. “Pensaram que iriam matá-lo, mas na verdade o tornaram imortal”.

Trinta anos depois de ser assassinado, Chico Mendes continua um símbolo maior da luta dos povos extrativistas pelo uso das terras que ocupam há décadas, em específico, e pela preservação da Amazônia, num âmbito geral. Um lugar inusitado para quem nasceu em um seringal ainda antes da metade do século 20 e só aprendeu a ler e escrever depois de adulto. Mas justificado: junto a um vasto grupo de pessoas que trabalharam ao seu lado desde o final da década de 1970, ele idealizou o modelo de reservas extrativistas que traduziu com perfeição a ideia de desenvolvimento sustentável bem antes desse conceito se popularizar.

A taxa de desmatamento da Amazônia brasileira aumentou nos últimos anos – e sob a liderança do novo presidente, Jair Bolsonaro, espera-se que aumente ainda mais. A floresta é frequentemente queimada para limpeza, com a terra sendo usada para pastagens ou campos agrícolas.

“As reservas extrativistas foram uma invenção brasileira que não têm comparação com qualquer outro tipo de unidade de conservação no mundo. É a ideia de proteger a floresta de maneira original, não só para a natureza, mas para as populações que vivem ali”, explica Mary Allegretti, antropóloga que se aproximou de Chico no começo da década de 1980.

“Ele é muito relevante pelo que significou o conceito do socioambientalismo, definido a partir daí. Como integrar proteção ao meio ambiente e justiça social”, diz Marina Silva, presidente da Rede Sustentabilidade, que começou na política por influência de Chico. “É incrível como uma pessoa com a simplicidade dele teve a sabedoria para uma visão pioneira que hoje configura a escala macro no mundo”.

Vida pela floresta

Francisco Alves Mendes Filho nasceu em 15 de dezembro de 1944, em uma família de seringueiros. Aos doze anos, ficou encarregado do sustento da casa quando o pai começou a ter dificuldades de locomoção. Era bom na lida com o látex das árvores, tanto que, segundo relatos ouvidos por Gomercindo, no final da adolescência chegou a ser premiado como seringueiro mais produtivo na região onde vivia.

Isso não significa que estivesse satisfeito com as condições de trabalho nos seringais, onde em geral um dono explorava o trabalho de diversas famílias. Elas trocavam a produção por bens de primeira necessidade com o proprietário das terras e acabavam numa espécie de servidão por dívida para com ele. Na prática, uma situação semelhante à escravidão. “O Chico vivenciou isso. Entregava o racha e não recebia nada em troca, ficava devendo o tempo todo”, conta Mary Allegretti.

“É incrível como uma pessoa com a simplicidade dele teve a sabedoria para uma visão pioneira que hoje configura a escala macro no mundo.”

A antropóloga viu esse cenário com os próprios olhos quando foi ao Acre pela primeira vez, em 1978, para seu projeto de mestrado. “Eu achava que não existia mais, que era coisa de literatura”, diz. Quando voltou para continuar a pesquisa, três anos depois, conheceu Chico, à época já um líder importante entre os seringueiros. “Ele tinha duas causas pelos quais lutou a vida inteira. Uma era a justiça nas relações de trabalhos nos seringais. A outra era a ideia de que a floresta valia mais em pé do que derrubada”, fala Mary.

A construção dessa luta começara quase duas décadas antes, quando Chico conheceu um homem chamado Euclides Távora. Ex-militar e militante do Partido Comunista Brasileiro, Euclides se refugiou na fronteira com a Bolívia após participar da Intentona Comunista, uma tentativa frustrada de golpe contra Getúlio Vargas, e se envolver numa outra revolução mal-sucedida no país vizinho.

Então com 19 anos, Chico se aproximou de Euclides, que começou a ensiná-lo a ler e escrever. “O Euclides era uma pessoa com boa formação política e foi além da alfabetização. Ensinou Chico a escutar diferentes pontos de vista para chegar a uma conclusão”, conta Mary. No meio desse processo, em 1964, os militares tomaram o poder no Brasil. Era a oportunidade perfeita para colocar em prática a capacidade analítica do pupilo.

Na colocação – como são chamados os pedaços de terra explorados por uma família ou pessoa dentro de um seringal – de Euclides, havia um radinho de pilha onde Chico ouvia, em português, notícias do mundo sobre a situação política brasileira. A Voz da América, um programa produzido nos Estados Unidos, louvava os militares. Emissoras russas, por sua vez, denunciavam o golpe. E a BBC inglesa, por fim, trazia uma terceira opinião nem à direita, nem à esquerda. “Isso fez muito a forma de pensar do Chico”, diz a antropóloga.

Para Mary, outros dois fatores ligados à memória dos seringueiros ajudam a explicar como Chico se tornou um personagem tão influente. Um deles é a história da migração de nordestinos para a Amazônia para produzir borracha para os Aliados durante a 2ª Guerra Mundial, o que criou tanto um senso de heroísmo quanto a identidade de que eles contribuíram com a defesa da democracia nos países livres.

O segundo, num passado mais distante, foi a participação de seringueiros na conquista do território atual do Acre na virada do século 20. Essas histórias convergiam para a ideia de um povo valente, guerreiro, mas que na década de 1970 se via espremido entre a opressão dos donos de seringais tradicionais e a chegada de agricultores do Sul e Sudeste do país que vinham com o objetivo de derrubar a floresta para criar pasto e lavoura.

Euclides havia dito a Chico que a situação dos seringueiros só melhoraria com a chegada dos sindicatos na região. Foi o que aconteceu em 1975, quando a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) aportou em Brasileia, distante 234 km da capital Rio Branco e 50 km de Xapuri. Como era alfabetizado, Chico logo se tornou secretário da entidade no local.

Foi nesse ano que Marina Silva começou a ouvir falar a respeito do seringueiro de tendências comunistas. Ela estudava para se tornar freira em um convento em Rio Branco e quando se falava sobre ele era em tom negativo, inclusive com críticas a padres que eram próximos a Chico. “Eu ficava triste porque era aquela história de dizer que quem defendia seringueiros, quem defendia os índios, era comunista, como se fosse uma coisa ruim”, diz Marina, ela própria vindo de uma família que trabalhava em seringais.

Certo dia, na missa, Marina viu o anúncio de um encontro da sindicância rural que teria a presença de Chico e do teólogo Clodovis Boff. “Eu pensei: ‘agora vou entender essa história de Chico Mendes comunista’. Pedi permissão para minha madre superiora para fazer o curso e ela perguntou que curso era esse. Eu disse que era um curso que o padre queria que a gente fizesse. Afinal, o cartaz estava na missa”, conta Marina, com uma risada.

“Quem matou o Chico errou o alvo, perdeu o tiro: pensaram que iriam matá-lo, mas na verdade o tornaram imortal.”

Gomercindo Rodrigues, o amigo

Os dois se deram bem e Chico começou a enviar informativos sobre a luta dos seringueiros. Marina se viu numa contradição: ela havia escolhido praticar a fé em recolhimento, mas via à frente a opção de transformar essa mesma fé em compromisso real em defesa da justiça. Logo ela abandonaria o convento para militar com Chico. Ambos participaram da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Partido dos Trabalhadores (PT) no Acre.

Chico, inclusive, foi candidato a alguns cargos públicos pelo PT, sem sucesso. Antes, foi vereador em Xapuri pelo então PMDB no fim da década de 1970. Havia, no entanto, um certo conflito entre o modo de fazer política no campo na região com aquele praticado no restante do Brasil. “A luta tradicional do movimento camponês era pela demarcação de terras em lotes. E os seringueiros queriam o usufruto do seringal, que é de acordo com os estrados da seringa, de forma não linear. Também tinha um estranhamento da proximidade com ambientalistas, que vinham de uma luta diferente”, explica Marina.

De qualquer forma, uma das atividades pelas quais Chico ficou mais conhecido não tinha grandes lastros partidários. Eram os empates, em que um grande grupo de pessoas, incluindo crianças e idosos, se juntavam para ir até uma região que estava sendo desmatada para dialogar com os operadores de motosserra e convencê-los a parar.

“Muitos eram ex-seringueiros que precisavam trabalhar. Eles conheciam a realidade, então virava um diálogo e muitas vezes paravam”, conta Gomercindo, hoje advogado. Guma, como era conhecido na época, trabalhava como agrônomo no Acre desde 1983 e se aproximou de Chico em 1986 para auxiliar na organização das cooperativas do Projeto Seringal, criado no começo daquela década e cujo eixo de alfabetização de adultos era responsabilidade de Mary Allegretti.

Marina também participou de vários empates. Sobre um dos mais famosos, numa área do Frigorífico Bordon, ela lembra o momento em que o grupo se aproximou de onde ocorria o desmatamento:

“Quando chegamos ao local, havia uma proteção da Polícia Militar para que os peões derrubassem as árvores. Chegamos e os policiais vieram na nossa direção para impedir a entrada. Então o Chico Mendes deu sinal para cantar o Hino Nacional. Todo mundo deu as mãos e cantou. Aí os soldados pararam e ficaram esperando. Quando terminou, eles começaram a caminhar de novo, e aí o Chico falou para dar as mãos e rezar um Pai Nosso. Pegamos na mão dos PMs, que tiveram que parar de novo, e aí pronto, não tinha mais o que fazer, já tínhamos entrado. Era tudo muito pacífico”.

A destruição da floresta causa alterações climáticas que podem prejudicar inclusive a agropecuária. Como boa parte da agricultura brasileira não é irrigada, as plantações dependem da chuva. O problema é que as chuvas diminuem à medida que o solo perde cobertura florestal.

A Bordon desistiu da área e vendeu a fazenda. A colocação do seringalista que ficava dentro das terras foi preservada. Posteriormente, quando foi criada a Reserva Extrativista Chico Mendes na região, uma imprecisão nas imagens de satélites usadas para a demarcação fez com que a área ficasse fora da reserva. Ainda assim, a floresta ficou de pé. Até o ano passado, quando os novos donos da fazenda voltaram a investir na justiça para expulsar os seringueiros.

Calmo da cabeça e inquieto dos pés

Chico era um homem tranquilo. Era raro perder o controle e se irritar. Na verdade, chegava a ser difícil perceber quando estava nervoso. Em cima do palanque, nas incursões pela política, essa personalidade impediu que se apresentasse como orador apaixonado. Pelo contrário, apostava em conversas pessoais mais afáveis.

“Ele era muito despojado e disponível, tinha uma capacidade de interação grande com pessoas de fora da Amazônia e que não fossem trabalhadores, como jornalistas, pesquisadores e até militares”, conta Mary. Uma consequência disso é que sobrava pouco tempo de lazer e para a família.

Ângela Mendes, filha do primeiro casamento, conta que passou a conviver com o pai na adolescência. “Eu nasci no seringal, mas fiquei doente e fui morar com uma tia na capital para me tratar quando tinha três anos”, diz. A tia acabou responsável por sua criação, mas na juventude ela passou a ir visitá-lo em Xapuri. “Mas como não tinha muita comunicação era comum eu ir lá e ele estar para outro lugar”.

“Nós tivemos oportunidade de partilhar momentos especiais”, conta Ângela. “De eu chegar na casa e ele estar lendo um livro e dizer que quando terminar ia deixar guardadinho para eu ler e nós conversarmos sobre. Ou acordar de manhã e me chamar junto com meus irmãos na cama, para começar o dia numa brincadeira de família”.

Continua no próximo post…

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