Em meio às incertezas do papel que o Brasil terá na agenda ambiental, o legado de Chico Mendes. Parte II

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Continuação…

Além de Ângela, Chico teve dois filhos com Ilzamar, a segunda esposa, Sandino e Elenira. Os nomes eram uma homenagem a Augusto César Sandino, nicaraguense que liderou uma revolta contra a presença militar dos Estados Unidos na Nicarágua no fim da década de 1920, e Helenira Resende, militante do Partido Comunista do Brasil desaparecida durante a Guerrilha do Araguaia.

Fora de casa, o que Chico mais fazia na vida era andar. De 1981 até o dia de sua morte, foi diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Xapuri. Também articulou a criação da Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS, hoje Conselho Nacional das Populações Extrativistas), em 1985, assim como fundou ao lado de Mary Allegretti o Instituto de Estudos Amazônicos. No dia a dia, todo esse trabalho exigia horas a pé no meio da floresta para visitar a colocação dos seus companheiros de luta – em geral, dormia na casa deles após uma reunião.

Enquanto fortalecia sua base, o nome de Chico começava a ganhar projeção internacional. Ao longo de 1987, visitou o Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID) para denunciar como a construção sem planejamento da BR 364, financiada pelo BID, degradava a floresta amazônica.

“Ele era muito despojado e disponível, tinha uma capacidade de interação grande com pessoas de fora da Amazônia e que não fossem trabalhadores, como jornalistas, pesquisadores e até militares.”

Mary Allegretti, a antropóloga

No mesmo ano, também falou sobre a conservação da Amazônia a congressistas americanos. “Para você ver como ele conseguiu juntar diferentes atores, nessa visita ele impressionou o senador republicano [partido conservador americano, o mesmo do atual presidente Donald Trump] Robert Kasten, que depois do assassinato do Chico escreveu um artigo no New York Times cobrando uma atitude do governo brasileiro”, conta Gomercindo.

Mas ele não era uma figura unânime. Para os agricultores e pecuaristas donos de terras, Chico era um vagabundo que atrapalhava o desenvolvimento. Da mesma forma, em Rio Branco e Xapuri muitos o viam como alguém que vivia às custas do sindicato.

A realidade era menos rica. Não havia dinheiro e os poucos recursos que vinham de fora eram paupérrimos. As viagens que Chico fazia eram pagas por quem o convidava – quando sobrava dinheiro, ele usava para pagar as contas do sindicato, que vivia com o telefone cortado. “Era comum ele falar que ia desaparecer para catar castanha. Ainda precisava desse dinheiro para sobreviver. Quando retornou da viagem em que foi receber o prêmio da ONU, ele fez isso. Entrou na floresta para catar castanha por um mês”, diz Mary.

Miguel Scarcello, geógrafo que trabalhava no Instituto de Meio Ambiente do Acre, conta que se aproximou de Chico no final de 1987. “Quando comecei a conviver com ele, percebi que era necessário reforçar a opinião pública a favor dos seringueiros na área urbana”, fala Miguel. Juntos a um grupo de outros ativistas, os dois criaram a SOS Amazônia.

Na época, também organizaram exposições em praças públicas sobre o desmatamento na região. “Foi quando começaram a sair os primeiros dados de desmatamento do INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] e nós usávamos infográficos produzidos pela Folha de São Paulo, entre outros materiais”, diz.

No entanto, por mais que o desmatamento fosse pauta e Chico estivesse em voga fora do país, os grandes jornais do Sudeste ainda não tinham embarcado na sua história. No dia 11 de dezembro de 1988, Chico Mendes deu uma entrevista para o repórter Edilson Martins. No papo, avisou que seria morto antes do fim do ano. Também acertou quem o mataria.

O texto deveria ser publicado no dia 16 no Jornal do Brasil, mas os editores decidiram colocá-lo na gaveta por se tratar de uma visão muito politizada de um personagem desconhecido do Brasil. Dias depois do assassinato, o JB finalmente publicou a entrevista na íntegra, junto a um editorial na primeira página.

Sangue no campo e um sonho de pé

De acordo com dados da ONG britânica Global Witness, o Brasil é o país mais perigoso para ambientalistas do mundo, com o assassinato de 57 ativistas em 2017 – 80% deles atuavam na Amazônia. O país também é letal nas disputas agrárias: foram 71 mortos no campo, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra.

É uma violência que não vem de hoje. No Acre, grupos econômicos e políticos poderosos nunca tiveram problemas em resolver disputas à bala, uma realidade que se aproximou de Chico Mendes pela primeira vez em 1980. Naquele ano, o líder do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, Wilson Pinheiro, foi assassinado.

Era um crime anunciado. Como era um crime anunciado o assassinato de Chico Mendes a partir do começo de1988, conforme os resultados do trabalho dele começavam a mudar a realidade da região. A principal ameaça vinha de Darly Alves, um pecuarista que disputava a propriedade do seringal Cachoeira, ponto de partida da luta de Chico.

A tensão era tamanha que o governo do Acre disponibilizou uma escolta de PMs para ele. Os amigos, por sua vez, insistiam para que aceitasse convites e passasse um tempo fora do estado. Chico negava, dizia que ali estava sua luta e que se fosse para morrer, morreria ao lado dos companheiros.

Marina conta que a última vez em que viu Chico, havia ido a Xapuri fazer uma reunião com ele e dormiu na sua casa, que ficava próxima à rodoviária. Na hora de ir embora, ele disse que a acompanharia até o ônibus. Antes de embarcar, os dois se abraçaram. “Ele falou ‘dessa vez não vai ter jeito, nega véia, os ‘cabras’ vão me pegar”, relembra. “Eu insisti com ele, perguntei porque ele não ia para o Rio de Janeiro, o Fernando Gabeira e a Lucélia Santos tinham convidado. Mas ele disse que não, ‘meu lugar é aqui’. Vai embora, vai com Deus. E eu fui, meio chorando no ônibus”.

No dia 15 de dezembro, Chico comemorou o aniversário de 44 anos. Cantou parabéns com a mesma toalha que morreria pendurada no ombro. Em seguida viajou para um encontro de seringalistas em Sena Madureira, também no Acre. Na volta (no dia 19 ou 20, de acordo com Gomercindo), parou em Rio Branco para pegar um caminhão que havia sido conseguido com apoio do BNDES para escoar a produção dos extrativistas.

Um dos PMs que fazia sua escolta dirigiu o caminhão até Xapuri, onde Chico deu voltas pela cidade com várias crianças na boleia. Na medida do possível, o clima era bom. Mas Gomercindo notara uma movimentação estranha.

Ao longo de todo aquele ano, sempre havia uma dupla de pistoleiros de olho neles. “Todos os dias eu abria a janela do local onde morava, lá estavam na praça dois pistoleiros. Na frente do Sindicato, também sempre tinha dois sentados. Eles faziam questão de ser notados, ficavam com as armas cutucando a parte de trás da camisa”, conta Gomercindo. “Depois que o Chico viajou… cadê os caras? Comecei a passar por onde sempre estavam, bebendo, jogando sinuca, mas eles sumiram, fiquei preocupado”.

“No dia 22 cheguei por volta das 18h na casa dele. Estava jogando dominó com os dois policiais e me chamou ‘Guma, venha aqui, vamos ganhar desses patos’”, diz. Agoniado, Gomercindo negou o convite. Quando Ilzamar falou da janta, Chico insistiu para que o amigo comesse, mas este disse que ia dar uma volta antes para ver se encontrava os pistoleiros. “Eu peguei a moto e fui dar um baculejo na cidade. Demorei cinco, dez minutos, e quando vinha voltando gritaram ‘Guma, atiraram no Chico!”.

A notícia correu o mundo. Mary, que passaria o natal com a família em Nova York, voou de lá para Miami, depois Caracas, Manaus e Xapuri. “Quando cheguei o seringal inteiro estava na cidade”, conta. “Lula, o Gabeira, todo mundo foi lá”. A imprensa internacional também. Com a repercussão, jornalistas brasileiros caíram em peso para o Acre. “Uma semana depois, ninguém mais falava Chico, todo mundo falava Chico Mendes”, diz ela.

Ângela, que à época tinha 19 anos (Elenira e Sandina tinham 4 e 2, respectivamente), conta que não sabia o peso do nome do pai antes disso. “Foi uma coisa intensa para mim. Tudo que aprendi sobre a história dele não foi com ele, mas com os amigos, os companheiros, foi tecer uma colcha de retalhos”, afirma ela.

Toda atenção sobre o caso garantiu que os responsáveis pelo crime, Darcy Alves e o filho Darci, fossem condenados a 19 anos de prisão em 1990. Os dois fugiram em 1993, foram capturados em 1996 e ficaram presos até 99. Hoje, estão livres.

Além disso, o assassinato também impulsionou a definição legal das Reservas Extrativistas (Resex) em 1990. São áreas da União onde os moradores têm permissão para explorar os recursos da floresta. Na Amazônia, são 1979 Resex e outras 20 Reservas de Desenvolvimento Sustentável, modelo semelhante de unidade de conservação.

“Isso equivale a 23 milhões de hectares, 5% da Amazônia. É um legado muito relevante, alcançado a partir das ideias dele e de outras lideranças e instituições que deram sequência ao trabalho, principalmente o CNS”, explica Mary.

Na verdade, muitos dos atores envolvidos nessa história assumiram cargos relevantes no governo federal. A própria Mary foi secretária de Coordenação da Amazônia no Ministério do Meio Ambiente de 1999 a 2003. Marina, ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008. O projeto de Chico virou realidade.

“Trinta anos se passaram e mudou muita coisa”, diz Nilson Mendes, primo de Chico que mora até hoje no seringal Cachoeira, de onde tira açaí, borracha e castanha. “Muitas coisas aconteceram, energia, chegou ramal [estrada não pavimentada], as pessoas melhoraram de vida”.

O modelo, no entanto, não é perfeito. Do ponto de vista econômico, a exploração dos recursos da floresta ainda não é rentável o suficiente – é necessário subsídio no preço dos produtos. Essa ajuda de custo, claro, traz um retorno para o país: imagens de satélite demonstram como essas regiões estão mais bem conservadas em relação a áreas desprotegidas.

Além disso, os órgãos responsáveis por gerir essas unidades de conservação – o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), primeiro, e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), hoje – tem expertise na proteção do meio-ambiente, mas não na formulação de políticas socioeconômicas que atendam demandas específicas dos extrativistas.

O ICMBio, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), foi criado em 2007 e está entre suas atribuições implantar, proteger e fiscalizar Unidades de Conservação (UCs) instituídas pela União, além de fomentar e executar programas de pesquisa, proteção, preservação e conservação da biodiversidade.

Em resumo, para o povo de Chico Mendes, a luta continua. “Essa luta não morre. Pelo contrário, no cenário atual, ela é cada dia mais recorrente”, afirma Ângela, que se envolveu nas atividades da CNS e no Comitê Chico Mendes, uma rede criada para lutar por justiça no campo.

Para a família e amigos de Chico, o final do ano é uma época de comemorar a data do seu aniversário e reforçar a briga que levou ao assassinato. A saudade, claro, também aparece.

“Houve conquistas, mas eu trocaria todas elas pelo Chico vivo”, diz Gomercindo. “Acho que as conquistas teriam sido muito maiores”.

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