Endividamento das famílias atinge 79,5% em janeiro e iguala recorde, diz CNC

O percentual de famílias com dívidas voltou a atingir 79,5% em janeiro, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada nesta sexta-feira (6) pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Este patamar repete o dado de outubro de 2025, quando chegou ao recorde da série histórica. O dado de janeiro é 3,4 pontos percentuais acima do registrado no mesmo mês do ano passado. Famílias envidividadas são aquelas que relataram ter dívidas a vencer, como cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa.

Apesar do número recorde, o percentual de quem tem dívidas em atraso (contas não pagas entre 30 e 90 dias) recuou para 29,3%, a menor taxa desde abril do ano passado, aponta a CNC.

Na avaliação do economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, o dado de endividamento não seria preocupante se significasse aumento de consumo no varejo. Mas, na avaliação de Bentes, parte da demanda por crédito ainda está sendo direcionada para o reequilíbrio financeiro. “O que preocupa não é o endividamento em si, mas sim que o orçamento das famílias está sendo fechado constantemente por recursos de terceiros, o que provoca a inadimplência”, afirma.

Percepção do endividamento sobe

Os dados também apontam que a percepção do endividamento aumentou. Em janeiro de 2026, 16,1% dos entrevistados responderam que se sentiam muito endividados, enquanto em dezembro eram 15,7%. Quem declarou estar mais ou menos endividado também subiu, de 30,4% para 30,9% no mesmo período.

A CNC destaca que essa percepção captada pela pesquisa representa o que cada consumidor considera muito ou pouco em termos de endividamento sendo, portanto, um indicador subjetivo.

Inadimplência cai

Apesar da percepção sobre o próprio endividamento ter piorado, os brasileiros ainda estão conseguindo pagar suas dívidas. A inadimplência captada pela pesquisa caiu. Em janeiro de 2026, o atraso nas contas estava em 29,3%, a menor taxa desde abril, quando chegou a 29,1%.

O ponto de alerta fica em relação ao percentual de famílias que declaram não terem condições de pagarem suas dívidas. O indicador subiu para 12,7%, aumento de 0,1 ponto percentual em relação a dezembro do ano passado e o mesmo percentual em relação a janeiro de 2025.

Tempo das dívidas em atraso aumentou

A CNC também aponta que o tempo em que as dívidas ficam em atraso aumentou para 64,8 meses, maior nível desde janeiro do ano passado, quando era de 65 meses. Este dado foi puxado pelo percentual de famílias inadimplentes há mais de 90 dias, que é de 49,2%.

Comprometimento da renda com dívida sobe

De acordo com a CNC, a pesquisa aponta que também aumentou o nível do comprometimento da renda com dívidas. A maior parte das famílias (56,2%) continua possuindo entre 11% e 50% da renda comprometida. Na média, o percentual de comprometimento da renda com dívidas aumentou para 29,7% em janeiro, o maior nível desde maio de 2025 (29,8%), mas abaixo dos 30,0% de janeiro de 2025.

Faixa de renda

Na análise dos dados por faixa de renda, o percentual de famílias que declaram não ter condições de pagar aumentou em todas as faixas de renda abaixo de 10 salários mínimos. Em dezembro de 2025, 18,6% das famílias de zero a três salários mínimos declararam não ter condições de pagar as dívidas, enquanto em janeiro deste ano o percentual foi para 18,9%.

Na faixa de três a cinco salários, o percentual era de 10,7% e foi para 11%. Entre cinco e dez salários, a variação foi de 9% para 9,1%. Acima de dez salários, o indicador caiu de 5,1% para 4,9%.

Cartão de crédito concentra pendências

O vilão continua sendo o cartão de crédito, que concentra 85,4% das pendências. O quadro geral preocupa pela gravidade do comprometimento orçamentário: para 19,5% dos brasileiros, mais da metade dos ganhos mensais já entra na conta ‘corroída’ pelo pagamento de dívidas, deixando menos de 50% para despesas básicas.

Juros encarecem dívidas

Para José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, o dado deve ser visto com cautela. “É uma variável da economia que está estreitamente relacionada à taxa de juros cobrada no Brasil, uma das maiores do mundo”, afirma Tadros.

Bentes cita o juro médio praticado pelo mercado para a pessoa física que, em dezembro, ficou em 60,1% – aumento de 7% em relação a janeiro, quando era de 54,3%. Esse encarecimento do crédito reflete a taxa básica de juros, a Selic, que está em 15%. Com a perspectiva de início do ciclo de cortes em março, em meio ponto percentual, essa queda de juro levará de seis a nove meses para ser sentida na ponta.

“É fundamental priorizar o equilíbrio das contas públicas para que a política monetária possa ser flexibilizada, aliviando a carga sobre consumidores e empresas”, diz Tadros.

Por Élida Oliveira (Info Money)

Imagem: reprodução 

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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