Início e fim de Carajás

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Em 28 de fevereiro de 1985 a Companhia Vale do Rio
Doce iniciou o transporte do minério de ferro de Carajás, no centro do Pará,
até o porto da Ponta da Madeira, em São Luiz do Maranhão, em extensão de 892
quilômetros do sertão ao mar por ferrovia da própria Vale. O início das
operações na maior jazida de minério de ferro do mundo completará 30 anos
amanhã.
A imprensa local praticamente
ignorou o fato, que também não recebeu a atenção devida da grande imprensa
nacional, exceto por uma extensa série de matérias do enviado especial
Francisco Góes, do jornal Valor Econômico, de
São Paulo. A data histórica podia ter motivado uma avaliação dessas três
décadas de mineração, que começou o novo ciclo com minério de ferro e manganês,
e hoje inclui também níquel e cobre, substâncias de maior valor (embora com
volume muito menor).
O primeiro trem que saiu da pera ferroviária de
Carajás, em Parauapebas, aliás, não levou minério de ferro, mas manganês.
Provavelmente porque o estoque na mina ainda não permitia o embarque do ferro,
o que seria algo de estranhar num empreendimento que remonta a 1967, quando o
depósito de ferro foi descoberto por uma equipe chefiada pelo geólogo Breno
Augusto dos Santos, paulista que mora atualmente em Niterói, no Rio de Janeiro.
Se tal circunstância procede, ela talvez explique
uma marca do processo de exploração mineral em Carajás: a pressa em produzir e
expandir continuamente a produção, remendo quase tudo para o exterior. Em 2014
ela foi de quatro vezes o máximo previsto no projeto original: 120 milhões de
toneladas.
Em 2007, quando a produção era de mais de 50
milhões de toneladas ao ano, a Vale – privatizada em 1997, no segundo ano do
primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB – atingiu o primeiro
bilhão de toneladas extraídos a céu aberto, sem a necessidade de mina
subterrânea, mais onerosa. Isso, em 22 anos de lavra. Nos sete anos a partir de
2008, até 2014, foram mais 700 milhões de toneladas. O novo bilhão, portanto,
será atingido em 2016, em apenas nove anos.
No segundo semestre do próximo ano começará a
entrar em operação a nova mina, chamada de S11D, que adicionará 90 milhões de
toneladas à capacidade atual de Carajás, no maior empreendimento da história da
antiga CVRD, com investimento de 17 bilhões de dólares. O novo bilhão será
batido em 2023, num intervalo de apenas sete anos. Em tese, o esgotamento do
minério de ferro de Carajás acontecerá em pouco mais de um século, se a Vale
não aumentar novamente a escala de produção até lá.
É tempo correto ou aceitável? A resposta é
complexa, envolvendo variáveis técnicas e políticas, não apenas internas, mas
considerando a escala mundial. Esta é a de Carajás desde o seu nascimento,
quando era de propriedade exclusiva da siderúrgica americana United States
Steel (a Vale entrou dois anos depois da revelação da jazida; sua sociedade com
a multinacional acabou em 1977, quando a então estatal se tornou a única dona
da província mineral). Agora vinculada à economia asiática, sobretudo à China,
a análise tem que partir dessa grave circunstância de um comprador que absorve
sozinho 60% da produção.
Qualquer que viesse ser a definição de um exame
crítico sobre o futuro de Carajás, um ponto é pacífico: ele é monopólio da
própria Vale. Se esse pressuposto é aceito, então o modo atual de lavra é o
melhor possível. Em escala microeconômica, a empresa dobra a sua produção para
reduzir o custo de produção, que é de 23 dólares a tonelada, para menos de US$
20. Mesmo bastante rebaixado, o preço da commodity no mercado internacional
ainda é de US$ 62 a tonelada. Logo, a Vale tem lucro, mesmo incluindo os custos
adicionais ao operacional.
É lucro pequeno, a ameaçar o fluxo de caixa, em
comparação com o alto grau de endividamento, e a prejudicar as ações da empresa
na bolsa de valores. Expandindo a lavra, porém, e graças ao teor de hematita
contida na rocha em Carajás, superior quase 10% em relação ao minério standard
no mercado internacional, a Vale pode deslocar ou liquidar concorrentes e estar
em posição mais confortável para o momento – ainda incerto, mas não de curto
prazo – em que o preço do ferro voltar a subir.
Mas será uma boa estratégia para o Brasil e o Pará
a liquidação da melhor jazida do minério mais usado pela sociedade humana em um
século, recebendo apenas compensação financeira, royalties, ISS e sobras do
lucro líquido? O Pará fracassou até agora no fomento à industrialização da
matéria prima. As usinas de gusa e as aciarias primárias agregam pouco valor.
Não constituem, a rigor, bem industrializado. O Estado repete, no extrativismo
mineral, os erros cometidos no ciclo da borracha, em versão ampliada e piorada.
Vai pagar caro por isso quando descobrir que Carajás virou passado acusador.
* Esse artigo foi escrito na
íntegra pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto e retirado de seu blog e postado com algumas adaptações: www.lucioflaviopinto.wordpress.com/2015/02/27/inicio-e-fim-de-carajas/

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