Maria: segundo ato

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Vim falar de uma moça cuja história pode assemelhar-se com a de muita gente, mas se faz mais um caso excepcional de alguém que parou em algum momento da vida para refletir sobre seus erros e acertos, para seguir de maneira mais inteligente dando seus passos rumo ao seu crescimento pessoal.

2º Ato:

Maria, uma adolescente problemática. Combativa, teimosa, cruel.

Reivindicou atenção e não conseguiu. Precisou conquista-la da maneira menos harmoniosa possível.

Passou por anos de trevas e fez de trevas os anos de muitas pessoas. Não amou porque não teve o treino adequado. Não amou porque não considerava viável. Vida envolvida em paixões românticas não tem seus problemas resolvidos ou evitados. Objetiva e prática e não muito empática, criticou e se ressentiu diante de pessoas que tinham o que ela não tinha. Experimentou raiva, sentiu inveja. Foi egoísta e não mediu esforços para alcançar às metas que teria traçado como as que seriam os passos para a virada em sua vida.

É exatamente isto: o ato segundo diz respeito ao aparecimento de sentimentos muito contrários e pouco benevolentes de Maria. Ela aprendeu a tramar e odiar.

Caminhou para longe, quando resolveu se distanciar dos seus (parentes e amigos) estudando para viver melhor naquele tão esperado dia e que tivesse uma carreira bem sucedida. Contudo, antes disto, precisaria perder a autoestima, diante de seus colegas do ensino médio e mais tarde da faculdade, já que sua origem de necessidades não atendidas a seguia onde quer que ela trafegasse.

Vencia barreiras que a expunham a outros desafios ainda maiores para uma moça de 14 a 20 anos de idade. Venceu o fundamental e todos os concursos de bolsas integrais aos quais se submetia. Venceu o ensino médio com boas notas, mas também com altos déficits em sua autoestima. Não foi aluna bonita, não foi popular, não levou amigas para sua casa, não saiu para lanchar com os amigos da escola. Sentiu vergonha ao falar, ao caminhar, ao existir. Na sua leitura pessoal, era uma verdadeira coitada; não tinha amigos não por ser agradável e ou interessante, mas sim porque era dona de boas notas e assim poderia contribuir bem com os resultados do grupo. Não estavam errados ao atribuírem tanta expectativa à menina (já que suas notas sempre a posicionaram em ranking de excelência na escola particular onde estudava com bolsa).

Muito pouco empática, cometeu pequenos furtos na escola e diante das melhores oportunidades. Nunca ninguém a “pegou” (Graças a Deus!). Não era justo nunca ter nada das coisas que seus colegas tinham. Pegou dinheiro de sua mãe, em pequenas quantias (e que bom que sempre acharam que foram terceiros). Maria sabia enganar.

Passou no vestibular em universidade pública federal com média que a posicionou em curso bem concorrido.  A única proveniente de escola pública dividiu a sala de aula com filhos de famílias abastadas. Nossa personagem não tinha nem dinheiro para almoçar. Alimentou-se pela camaradagem de uma professora, que pagou aquela despesa por dois longos anos. A menina comia novamente após chegar a sua casa, às 19:00 horas, depois do estágio que conquistou ainda no segundo ano de curso.

Já tinha uma remuneração agora (sua bolsa de estágio). Assim, agradeceu à amável senhora e comprometeu parte de sua humilde remuneração com suas refeições fora de casa.

Foi aprovada em alguns concursos de bolsa para estágio. Encontrou-se naquele que seria o tema defendido por ocasião de seu Bacharelado. Passou licitamente pelas provas de conhecimento escritas, mas era boa mesmo nas respostas orais. Que maneira envolvente de convencer!

Na faculdade aprendeu muitas coisas. Foi ainda aluna estudiosa. Mas sofreu bastante por sua incapacidade de adequação social (ela mesma não se aceitava ali). Seus colegas eram muito “endinheirados”. (caramba!). Sua inferioridade era evidente demais para disfarçar. Não tinha roupas para trocar todos os dias, não tinha dinheiro para as apostilas (agora não dava mais para abrir as bolsas dos outros… era nível superior; colegas mais atentas às suas bolsas de marcas famosas). Não teve amigos. Aproximou-se de quem não demonstrou sentir pena o de quem não demonstrou-se julgador de sua aparência ou condição.

Anos monstruosos para a autoestima de uma moça recém-saída da adolescência. Ela não era a única naquela condição no meio em que estava, mas provavelmente tinha a convicção de que seu inferno pessoal era o mais doloroso.

Tudo ainda poderia piorar, já que sua necessidade por pertencimento era tão gritante que sentiu devidamente atendida pelas investidas de um rapaz que não era daquele lugar. Um misterioso e bonito rapaz que passava por ali todos os dias resolveu se aproximar.

Inteligente, envolvente e agradável. Não era aluno do campus, mas estava sempre por ali. Viu beleza onde ela jamais perceberia, já que só tinha tempo para se lamentar. Não demorariam muito tempo para se aproximar.  Pronto. Ela estava namorando.

Maria era muito bonita (sempre foi); só não se percebia. Assim, ainda chegou a achar que o pretendente estava jogando com ela. Eles não se largavam nunca, eram muito conectados. Ele a servia com o que podia. Mas, não a servia com boas explicações sobre sua vida; não falava de sua história. Mas, ainda assim foram um casal feliz pelo curto tempo em que estiveram juntos.

Marcos esteve incrível até falar quem realmente era. Filho de pais envolvidos com o tráfico de drogas local, afirmava não ter nenhum envolvimento com o “negócio” dos pais, mas que entendia se Maria não acreditasse. Já muito envolvida, resolveu não separar. E não o faria realmente, já que aos 21 anos, no terceiro ano da faculdade experimentaria a sua primeira e única gravidez.

Sim, Maria, que mal tinha organizado os próprios sentimentos agora deveria se comprometer com outra vida, dentro da sua. A pobre garota de escola pública não fugiu à regra (outra mãe fora de hora e sem um pai para seu filho). Na metade do curso superior virou mãe. Não muito tempo depois virou viúva (seu namorado teria sido morto por sua filiação arriscada).

Meu leitor se perguntou onde estariam os pais e irmãos de Maria? Estavam guardando esforços para julgá-la, culpa-la e desliga-la da moral familiar. Sua mãe ficou com seu filho para que a moça trabalhasse e estudasse; seus irmãos usavam seu tempo para humilhá-la e seu pai morreu ainda antes que a moça ingressasse no ensino superior. Teria sido feliz pela aprovação no vestibular, mas não a teria perdoado talvez pela gravidez fora do tempo (e ainda pela “qualidade” do pai de seu neto).

Maria carregou uma gravidez para a sala de aula e teve de responder a muitas perguntas. Acomodou-se numa inferioridade ainda maior, especialmente quando precisou ouvir de muitas pessoas que teria perdido seus anos de estudo, já que agora era mãe solteira.

Fim de Maria?

Parece que o universo se convenceu com severidade das palavras da mãe e de parentes próximos da moça (que sempre disseram que a mesma não chegaria  alugar nenhum, a menos que arranjasse um bom casamento). Maria passou uma gestação de dor física, falta de paz e depressão. E quase encerrou a própria vida.

Teve um parto assustador, onde esteve perto da morte. Só por um milagre sobreviveu. A mãe orou; pediu a Deus pela vida da filha, a mesma a quem ajudou por 21 anos, a matar, todos os dias. O bebê também escapou de não experimentar a luz do sol. Ambos resistiram e voltaram vivos para casa.

Maria era oficialmente mãe agora. Ela voltou “morta” para casa também. Seu ódio não foi aplacado. Agora sentia que nem ela e tampouco o filho tinham lugar numa casa de tantas humilhações. Por sorte a mãe deixou que ela retornasse à faculdade para concluir seu curso. E assim ela o fez.

Maria ressecou o peito e desistiu do amor. Sua mãe permaneceu humilhando por todas as horas em que o bebê chorou ou por todos os dias em que precisou cuidar dele para a menina ir à faculdade e ao trabalho. Apenas viveu pelo objetivo de viver longe dali, bem sucedida financeiramente, com seu filho nos braços. Viveu para esquecer as dores que passou; esquecer parentes e “próximos”. Viveu para escrever uma nova história um dia, muito distante daquele lugar.

Formou-se a mulher de pouco valor. Ainda não era o tempo de sociedade considerar empoderada a mãe que solteira criasse o próprio filho. Ela ainda ouviria inúmeras vezes que deveria cuidar-se para não se transformar em uma “fazedora de filhos sem pai”. Bastaria um único filho nesta condição.

Sofreria em silêncio e gritaria seu ódio, através de palavras e ações. Ressecada. Nunca veria obstáculos para se desenvolver em sua carreira e alcançar um bom lugar no mercado de trabalho (seria oportunista, se precisasse). Amedrontada, mas muito ambiciosa, nunca mais usou da doçura de quando era criança. Agora se iniciava a verdadeira Guerra.

Até o próximo ato.

Saudações Psi a todos!

@annypontes­_psicomportamental (no Instagram)

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