Maria: Terceiro Ato

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3º Ato:

Dias de sol; dias sem cor. Não importando as condições, Maria definiu os contornos de temperatura e fez de toda em qualquer oportunidade a SUA.

Mulher bonita e inteligente lançou-se nos sombrios caminhos que transitam as pessoas adultas de verdade. Responsabilidades e sonhos começaram a pautar seus passos.

Iniciou no primeiro emprego após um ano de formada e foi com toda motivação para dar seu melhor. Obstinada, procurava se dedicar a conhecer tudo da parte técnica do trabalho. Mas, também passou a conhecer os segredos da “boa gestão” daquele lugar. Cresceria por seus méritos sem dúvidas. Trazia a romântica ideia de que os talentosos vencem e os incompetentes ficam para trás. Simples assim.

Mas, era ambiciosa demais para esperar o tempo certo das coisas. Deveria ter focado no aprimoramento pessoal, sem se importar com as preferências da gestão; sem se opor às políticas informais já instaladas. Mas, para não contrariar a própria história e se envolver em mais uma batalha sangrenta passou a se comportar muito motivada por seu incômodo e sentimento de injustiça.

Conversas paralelas e informações de corredor. Tudo compunha um clima de aquele já não era mais um lugar agradável para se estar. Mas, era lá o lugar do reconhecimento. Seria lá o lugar da permanência. Acima de qualquer vontade de desistir estava a vontade de crescer financeiramente e os meses se passaram. Ao final do primeiro ano já estava ocupando um lugar sênior por seu empenho e técnica. Mas, era pouco ainda, já que normalmente recebia orientações de uma gestão fraca e tecnicamente incapaz, segundo Maria. O que ela merecia era sim uma boa posição de gestão.

Muito competente, mas descontente pela posição que ocupava, ao final de dois anos de empresa começou a aplicar “pequenos golpes”. Sempre que podia deixava aparentes os erros da ocupante da coordenação que almejava. Seu plano corria de vento em popa e logo seus talentos foram discriminados positivamente aos olhos de valor da alta gestão. De aprendiz ao topo, como era de se esperar.

Maria tornou-se Gerente de Negócios e desta forma passou a exercer liderança sobre as coordenações que sempre julgara incapazes. A moça venceu finalmente?

Acumulou honras pela excelência de seu trabalho. Boa reputação técnica; méritos indescritíveis. Somou dinheiro e conforto material. Se isto é vencer, sim, venceu!

Ainda existiriam espinhos a retirar. Tão dura e inflexível exercia com punhos de ferro a gestão dos processos que estavam sob sua responsabilidade. Nos dez anos seguintes, humilhou, assediou e desligou muitos funcionários. Não buscava amizades em seu trabalho, buscava perfeição. Conquistou muitos negócios rentáveis também. Era uma verdadeira máquina de fazer dinheiro para aquela organização.

Implacável demais não desenvolveu relacionamentos de amizade no trabalho, nem tinha tempo para afazeres sociais que não envolvessem trabalho. Seus dias eram totalmente movidos pela vontade de vencer a todo custo. Em casa, no pouco tempo em que estava, era mãe dedicada e boa gestora do lar, mas a cabeça não se distanciava muito da empresa.

Maria seguiu assim: um sucesso profissional e um fracasso pessoal. O passar dos anos foi implacável. Cada vez menos amável e cada vez mais sozinha.

Até que finalmente se permitiu trocar algumas palavras com um parceiro de negócios que viraria sua história. Bem sucedido, responsável e amável conseguiu provocar algumas respostas naquela mulher intransponível. Contrariando todo o provável, ela cedeu.

Aos 40 anos de idade Maria viveria algo novo e estarrecedor. Viu-se apaixonada novamente (depois de quase 20 anos). Não lembrava mais que protocolos usar. Utilizou os piores. Defendeu-se demais e atacou quando viu a oportunidade.

Maria, sinônimo de poder, desconfiança, firmeza e frieza. Foi péssima amante mesmo estando perdidamente apaixonada por aquele homem. Foi resistente, mandona, cruel e o deixou ir, quando o mesmo pediu mudanças a ela. No momento em que o deixou ir sentia estar fazendo o certo, já que todos os anos e danos de sua história tinham montado uma mulher incrível e valente, para a qual não existia a necessidade de retoques ou melhorias. Então ele foi.

E somente quando se viu novamente sozinha foi capaz de se questionar se teria feito a coisa certa. A mulher degustou uma saudade grande, até de coisas que não se permitiu viver com ele.

Seu filho ingressou na faculdade e foi embora para a cidade de aprovação. Maria ficou um pouco mais solitária e num fatídico dia daqueles aparentemente normais sofreu um infarto no interior da própria casa, no chão, na única companhia que agora tinha, a de seu cachorro.

Desfrutou ali, na fração de consciência que conseguiu ter, de um momento ímpar de reflexão. Estava não por opção, mas especificamente por própria culpa. E agora partiria (assim pensou) de uma forma banal, sem sal, sem cargo, sem título; deixando uma história que nem se ocupou de “ler” direito, a da própria vida.

Chegou a fazer como era acostumada na infância: rezou, pediu paz e quando pensou em adormecer para aguardar a própria morte, enquanto sentiu o calor de seu cachorro. Quando de repente, alguém chegou a sua casa chamando.

A casa era segura e normalmente as portas eram mantidas fechadas, mas alguém que encontrou o portão destrancado e a porta da sala entreaberta ousou e entrou. Encontrou Maria no chão e a levou ao hospital.

O tempo foi suficiente para que o socorro fosse eficaz.

Acordada depois de algumas horas sem consciência, Maria perguntou que teria lhe ajudado na hora mais vulnerável que conheceu desde os quase esquecidos anos de trevas passadas, quando precisava da ajuda de muita gente.  Perguntou à senhora que ali estava e de quem não se recordava.

A senhora então respondeu: sou ex-secretária do lar da sua vizinha da terceira casa à direita. Minha patroa foi demitida recentemente, depois de uns problemas na empresa que trabalhava há 15 anos, adoeceu dos nervos e não a quiseram mais. A mesma ficou sem recursos e dispensou as duas empregadas. Fui uma delas. Fui até sua casa lhe pedir uma oportunidade de trabalho. Vi o portão encostado e resolvi entrar, mesmo sabendo que a senhora poderia não gostar. Minha necessidade de sustentar meus filhos falou mais alto.

Maria pensou e perguntou quem seria a tal vizinha. A senhora respondeu perguntando: A senhora não sabe? A dona Rebeca era funcionária da mesma empresa em que a senhora trabalha. Passou anos dizendo que a chefe fazia a vida dela um inferno até adoecer agora e passar o dia inteiro tomando remédios.

Maria lembrou: Rebeca, minha antiga assistente. Nem sabia que ela morava naquele bairro.

Foram necessários alguns segundos de silêncio para que Maria refletisse sobre sua participação no adoecimento da ex-assistente e quem sabe de alguns outros funcionários. Não se desculpava por não ter percebido que a moça era sua vizinha e quem sabe por ter deixado para trás muitos outros detalhes.

Era um típico cenário de reencontro de uma pessoa com ela mesma. Maria tinha padecido de “injustiças” e de situações que tinham marcado sua vida, da infância à fase adulta e quando finalmente alcançou a oportunidade de realizar os próprios sonhos, se perdeu. Viveu anos de solidão que ela mesma promoveu. Vítima da própria ambição, conseguiu ser afortunada materialmente, mas não viveu pessoas. Esteve pobre por todo esse tempo.

A senhora foi contratada e Maria se reabilitou. Retornou ao trabalho e refez seus planos. Contribuiu com o tratamento de Rebeca e pediu perdão a ela.

Maria retornou ao trabalho, na mesma função, mas com uma cabeça melhor. Passou a programar melhor suas férias e “conheceu” melhor suas pessoas; seus colegas; seus liderados.

Ela chamou e Deus a respondeu. Nossa protagonista teve uma nova oportunidade. E retirou de lição que não há trajeto doloroso que justifique qualquer nível de crueldade que se possa ter com o outro. E que sucesso não é completo quando não conseguimos ser humanos durante o percurso.

Obrigada a todas as Marias presentes nessa história!

Saudações Psi a todos!

@annypontes­_psicomportamental (no Instagram)

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