Maria: uma história em três atos

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Vim falar de uma moça cuja história pode assemelhar-se com a de muita gente, mas se faz mais um caso excepcional de alguém que parou em algum momento da vida para refletir sobre seus erros e acertos, para seguir de maneira mais inteligente dando seus passos rumo ao seu crescimento pessoal.

1º Ato:

Maria foi mais uma menina nascida na colorida e política década de 80, onde o pai era o provedor financeiro (e emocional) da casa. Tinha mais dois irmãos e uma mãe do lar. A família, vinda do interior (mesmo que a menina tenha nascido na capital, fazia uso de hábitos bem conservadores ensinados pelos pais). Como a única “menina” dos três filhos foi programada para ser responsável com as tarefas do lar e por servir aos demais (principalmente aos homens, já que estes não têm obrigações domésticas). O que soava bem contraditório, ao passo em que sua mãe reforçou por todos os dias da infância (e o faria ainda na adolescência) que “uma mulher com seu emprego e o dinheiro obtido dele não precisaria de homem”.

A garota não teve muita facilidade para vencer esta fase, mas no caminho compreendeu que a mãe reproduzia um padrão machista, o fazia discordando dele, mas não possuía recursos emocionais e cognitivos talvez (além dos financeiros, já que não trabalhava fora) para romper. Diante disto o reproduzia com uma maestria sem precedentes. Ordenou louças lavadas, com a justificativa de a obrigação era de Maria e não de seus irmãos ou da mãe ou menos ainda do pai, tido como o verdadeiro rei do lar.

Maria constituiu pequenos rancores que levaria pela vida.

Também era típica deste cenário uma economia de palavras de amor. Não se repetia “Eu te amo” para filho algum com o objetivo de evitar que ficasse malcriado e mal acostumado demais. Nesse imaginário uma criança que ouvisse essas coisas certamente seria mais difícil de controlar em suas travessuras.

Somamos uma rotina de obrigações (inclusive com a escola. “Excelentes notas não são mais que sua obrigação, já que não trabalhas” era frase comumente repetida) à rotina de desamor para termos um resultado previsível. Maria comportou-se de maneira perfeitamente funcional ao contexto. Foi encaminhada para se incomodar, foi forçada a questionar e automaticamente a se transformar na filha “respondona”, “malcriada”, “ruim”, “ingrata” e obviamente a que mais merecia apanhar.

Maria ocupou o lugar que foi exatamente preparado para ela. Estudiosa (de atenção, lógica, memória, pensamento estratégico, linguagem, percepção entre outras funções cognitivas bem apuradas) a menina descontente com suas relações familiares só faria uma coisa à priori: reclamar (com os melhores argumentos. Com as justificativas mais emudecedoras possíveis). Logo se transformaria na pior das filhas que se poderia ter gerado. Ainda era a melhor da turma na escola (entregava boletins de notas irretocáveis). Ela percebeu que estudar era um excelente refúgio. Sentia-se realmente reforçada pelos livros.

Em casa, nem tudo era ruim. Com o pai a relação sempre foi de outra natureza. Tinha algo de divino e imaterial. Mas, este só estava em casa à noite e aos finais de semana. Era o machista apaixonado.  Um homem que lavava as louças, mesmo que a esposa repetisse que esta era obrigação da filha. Era o homem que cozinhava e poderia lavar a própria roupa. Era pai amoroso com a filha (e apenas com ela. Da mulher, o homem cuida), já que, segundo ele, para filhos homens o carinho é menor “porque macho precisa saber se virar e não pode ser mole demais”. Era este o seu modelo de papéis. Com a diferença da visão da mãe de que um homem sim faz tarefas domésticas quando pode ou precisa (ou simplesmente, por que mora naquele ambiente também).

O pai era muito inteligente e sábio. Nunca entrava numa discussão para gritar e nem para perder. Desferia palavras certeiras e mortais, sem alarde. Já sua mãe não fazia menos que gritar ou chorar nas desavenças que tinha com o marido. Não demoraria para Maria ver com clareza a quem saiu. Era uma verdadeira cópia vestida de rosa que era seu pai. Concluído o processo de identificação com sucesso. Assim como grande parte de seus problemas começariam a se agravar.

A mãe não suportaria tanta semelhança, tanta intimidade, tanta lealdade e dedicação. A mãe não aguentou de fato. Maria era quem mais “errava” e, portanto, quem mais apanhava. E claro, de quem ela mais se queixava para o marido, à noite, depois que o mesmo chegava do trabalho. Ela queria destruir a imagem que o pai tinha da filha. “Tá vendo como ela não é nenhuma santa?”. Mas, para ele ela era sua menina (e pronto!).

Não tardaria para Maria se tornar uma adolescente problemática. Combativa, teimosa, cruel. Seria violenta também, se revolvesse deixar sair tanta raiva guardada no peito, especialmente pela distinção que afirmava ter na criação dos irmãos e dela. Maria reivindicava atenção. Não conseguia.

Das vezes em que se dispôs a explicar alguma coisa, sua mãe justificava que não precisava render muita atenção à menina porque esta era muito autossuficiente e resolutiva, o que, portanto, tornava-a menos dependente; mais autônoma em suas coisas. Maria sentia-se culpada por ter “evoluído” tão bem. Às vezes, queria ter sido frágil como os irmãos eram (mas talvez para isso devesse ter nascido homem, ou não ter sido tão amada pelo pai). Contudo, sua vulnerabilidade sutil talvez tenha sido a característica fundamental para que a menina marcasse a mulher que viria a ser mais tarde.

Logo saberemos se Maria confirmou tudo isto. Que caminhos esta então mocinha seguiu. O que houve com o pai, a mãe. O que se deu com os irmãos.

Por onde Maria ainda iria caminhar e a que destino chegou? Teremos mais nos textos seguintes.

Por hora, o que acreditam que pode ter acontecido? Contribuam com suas perspectivas e tentem sugerir a sequência.

Até o próximo ato.

Vai uma dose de terapia?

Saudações Psi a todos!

@annypontes­_psicomportamental (no Instagram)

da série: Psicologia de Cabeceira

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