MEC: ideologia acima da racionalidade

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Fachada do Ministério da Educação (MEC), na Esplanada dos Ministérios, Brasília, DF. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Independente da pandemia de coronavírus, do caos ocasionado ao país, fechando, por exemplo, estabelecimentos escolares; o calendário letivo segue sem alteração. A expectativa para quem defende a manutenção das datas pré-pandemia, é que mais à frente, a normalidade seja retomada. Talvez isso não passe de um sentimento de esperança. Não há previsão que se volte à vida normal. Os mais otimistas dizem que antes de setembro é impossível. Os alarmistas afirmam que só no meio do ano que vem, poderemos voltar a ter a vida de antes.

Entre prognósticos, estes imprecisos, vale tratar aqui dos impactos que o novo coronavírus está exercendo na educação brasileira. Com aulas presenciais suspensas, sem alternativa, coube instaurar o sistema remoto de aulas. Ou seja, a distância. Qual o impacto disso? Sou professor de cursinho preparatório ao Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) há alguns anos, além de ministrar aulas para concurso público e para os ensinos fundamental e médio, portanto, sei do que trato aqui. Para ficar no exemplo dos discentes de maior idade, público que geralmente frequenta salas de aulas de curso preparatório, a figura do professor sempre esteve aliada a um outro suporte: vídeo-aulas, isso claro para quem tem condições de contar com esse suporte a mais. Mas isso em nenhum momento desmereceu a figura presencial docente.

Pois bem, dito isto, vamos ao cenário mais amplo. Não é novidade que temos em nosso país um nível alarmante no que se refere a desigualdade educacional. Por exemplo, não há como comparar a preparação de candidatos das regiões Sul e Sudeste com a do Norte e Nordeste, com exceções nas duas últimas regiões. Claro que isso depende também do próprio aluno em buscar se preparar para além do que é ensinado formalmente. Mas voltando à questão comparativa, há tempo defendo um Enem regionalizado, para que, através de investimentos que busquem melhor nivelar a qualidade de nosso ensino, se possa fazer um provão, como é hoje. As diferenças de ensino nas diversas regiões brasileiras convergem a um único exame, como se as assimetrias não existissem, “nivelando” todo os candidatos, o que na prática não existe. E isso se percebe analogamente no preenchimento de vagas nas universidades. Mas essa questão é assunto para um outro artigo.

Agora imaginem, no caso do Enem, o desnível na preparação dos alunos, que agora se aprofunda pelo meio remoto em meio ao isolamento social. Sem aulas presenciais. Quantos candidatos estão sem o devido preparo por não terem internet em casa? Ou caso tenham, seja de péssima qualidade, inviabilizando o estudo a distância. O ensino presencial por mais desnivelado que seja, ainda consegue colocar os candidatos em melhores condições de disputa, se não todos, mas grande parcela deles.

Pois bem, em meio ao caos que vivemos, o Enem ainda mantém o seu calendário original, este feito antes da pandemia chegar aqui e transformar o cotidiano de todos. Então, contando a partir de hoje, 02, o candidato tem pouco mais de cinco meses para se preparar para o maior exame educacional brasileiro. O que é um absurdo. Quem é professor preparatório ao exame, sabe que em condições normais, já é difícil vencer o conteúdo, imagina com essa interrupção, em que o ensino se restringiu ao uso remoto. É evidente que a cobertura de conteúdo está comprometida.

A manutenção da data da prova mesmo com a paralisação das aulas do país gerou críticas por parte de entidades estudantis, como a UNE (União Nacional dos Estudantes) e a Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), e também dos secretários estaduais de educação. As críticas, no entanto, pedem um adiamento do exame, e não o seu cancelamento. Porém, o ministro de Educação, Abraham Weintraub se mantém irredutível sobre o tema. Inclusive o Ministério da Educação recorreu e derrubou liminar que obrigava a mudança de datas do cronograma do exame.

E por que recorreu? Por que mantém um calendário que claramente deixou de fazer sentido? A questão está na relação do ministro da pasta com o presidente. Weintraub compõe a ala ideológica do governo (mesmo não tendo influência em decisões, mas é influenciado e cumpre ordens vindas da área citada), portanto, caso altere datas, prolongando-as, estará concordando com quarentena, com o isolamento social, logo, indo de encontro ao que prega o chefe, neste caso o presidente Jair Bolsonaro. Por isso, e só por isso, que o Ministério da Educação resiste em alterar o calendário do Enem, que inclui recorrer à justiça, se necessário para manter.

Como professor digo: não há condições de manter o atual calendário. Por falta de cumprimento do verdadeiro isolamento social, infelizmente, a pandemia irá durar por mais tempo no Brasil. Países como a China que detectaram o primeiro caso em novembro de 2019, só agora, após quase seis meses, começa de forma tímida, gradual, a retomar as atividades econômicas. E lá, vale citar, ocorreu o chamado “Lockeddown” ainda no início dos casos, o que fez achatar a curva rapidamente, eliminando a sobrecarga no sistema de saúde. Aqui, ainda caminhamos para o pico, sem saber em que momento ele atingirá o seu ápice, para que depois possa ser achatado.

Manter o calendário do Enem é de uma irresponsabilidade atroz. É desconsiderar o caos que vivemos, as desigualdades educacionais que o país possui e ocasiona para muitos total ausência de preparo ao exame. E isso tudo por conta dos que pregam e defendem o negacionismo. Para agradar e não desconstruir a narrativa do chefe (presidente). Estamos à deriva.

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