O estoque da China

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Análises no fim do ano passado comprovaram que o estoque de minério de ferro da China bateu o seu recorde histórico desde quando iniciou, em 2004, o acompanhamento de estocagem da referida commoditie. O volume que se configura em estado de espera chegou aos impressionantes 150 milhões de toneladas, ou seja, quase metade da média exportada anualmente em Carajás (o maior em reserva e volume vendido do mundo).

Esse cenário me remeteu à sala de aula. Desde 2015 que venho abordando a questão com os meus alunos. Para explicar de forma didática faço uma rápida encenação sobre o caso. Reproduzo de forma teatral uma conversa entre a mineradora Vale e a China. No processo dialético, ambos conversando sobre compra e venda. A mineradora oferecendo novos contratos e os chineses dizendo que não pagarão o valor oferecido. Na cena seguinte a mesma coisa, mas com a diferença do fechamento do negócio ao gosto dos chineses, fixando o preço abaixo do pretendido pela Vale.

Ao voltar à explicação digo aos discentes que a China comprou uma tonelada de minério de ferro, e que irá usar 500 quilos e estocará a mesma quantidade restante. Claro que os volumes explicados são hipotéticos, bem abaixo da realidade. Números redondos ajudam didaticamente a entender o processo como um todo.

A China pratica um controle de uso e estocagem justamente para lhe permitir a negociação de preços, quase sempre abaixo do valor comercial. A seu favor tem o seu volume de compra, sendo o maior do mundo em relação ao ferro. O grandioso volume estocado irá lhe permitir segurar a alta da cotação do referido minério que vem – aos poucos – se valorizando, mas bem abaixo dos níveis atingidos nos anos de 2010, 2011 e 2012.

A estocagem não ocorre só pela questão de demanda e oferta, buscando controlar o preço. Ela ocorre também por outros fatores: a desaceleração da economia; a queda na demanda por aço e ações de combate à poluição, que incluíram o fechamento de usinas, são os principais fatores, mas sem desconsiderar o acúmulo proposital dos chineses.

Na cotação de mercado o minério de ferro vem se valorizando desde setembro de 2017. Fechou na última sexta-feira (26) a 76 dólares a tonelada. Se os estoques continuarem a crescer (o que vem ocorrendo desde janeiro do ano passado) não há dúvida que isso deverá puxar para baixo o valor comercializado da referida commoditie. Segundo o levantamento dos analistas de mercado, a maioria do minério estocado pela China são considerados de baixa qualidade, ou seja, o mercado chinês continua a usar o de melhor qualidade (aumento da produção e que sofre menor pressão dos grupos ambientalistas por ser necessário menor intervenção em seu processo de beneficiamento), o que acaba tornando-se uma boa notícia para Carajás, reconhecidamente o melhor minério de ferro exportado do mundo, com 62% de pureza, o que enche os olhos dos mercados chineses, mesmo o frete custando três vezes mais do que a dos australianos. Por isso, a grande batalha da Vale internamente é baixar ao máximo o custo de produção, o que torna o preço mais competitivo no mercado internacional.

A China que tem o poder de controlar o preço por ser – de longe – a maior compradora, agora tem mais uma arma: seus grandes e poderosos estoques. Quando se trata de minério de ferro, quem manda é a China.

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