O Jornal Pessoal morreu. Viva o Jornal Pessoal – Por LFP.

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Seguindo o rito diário de leitura que sempre faço em diversos sites e blogs, me deparei ao acessar o domínio mantido pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto com a notícia de que o seu veículo impresso, o Jornal Pessoal, deixaria de circular, ou seja, encerrou o seu ciclo de 31 anos no mês passado. Logo me veio à cabeça o extenso tempo que acompanhei quinzenalmente o jornal, quando morava em Belém. A cada quinze dias a expectativa de adquirir a nova edição me consumia. Os textos, alguns bem extensos, mas que não cansavam justamente por seu conteúdo. Nunca cheguei a contagem final, mas seguramente cheguei a ter uns 100 exemplares sequenciais do referido periódico quinzenal. Até mesmo fora da capital, sem acesso direto ao jornal, sempre conseguia exemplares antigos, mesmo lidos em atraso cronológico; eram extremamente atuais e envolventes.

Mas como todo processo chega ao fim, o seu dono, um dos mais reconhecidos jornalistas do mundo quando o assunto trata de Amazônia, resolveu encerrá-lo. Aos leitores cabe a lembrança e o acervo pessoal de um dos jornais mais interessantes que surgiram nas últimas décadas no Pará. Reproduzo abaixo o texto feito pelo Lúcio Flávio Pinto em seu blog, justificando o encerramento da versão impressa do Jornal Pessoal. Vida que segue.

O Jornal Pessoal não circulará na 1ª quinzena de dezembro, nem na 2ª quinzena. Na verdade, deixou de existir na versão impressa em papel. Tomei a decisão de encerrar suas atividades neste último dia 19, depois de uma reflexão extensa e intensa sobre a sua existência. Para não se repetirem os finais anteriores, que nunca chegaram a ser definitivos, não haverá uma edição de despedida. O anúncio do fim é este, pela via eletrônica.

São várias as causas da exaustão do JP, algumas mais antigas, outras mais recentes. Sua prolongada sobrevivência, por 31 anos e meio, deveu-se mais a um ato de vontade (ou de teimosia), cada vez menos sustentável nos fatos concretos e numa tendência histórica voraz.

1 – O jornal nunca teve real viabilidade comercial, por se recusar a aceitar publicidade, opção que fez para garantir sua plena independência e autonomia, como crítico do poder, fora do alcance dos grupos de pressão, ainda quando recorressem à força intimidatória.

A tênue margem de lucro foi se estreitando na medida da redução da venda avulsa, efeito de novos hábitos de leitura e, como derivação, da redução drástica dos pontos principais de venda, as bancas de revista, ameaçadas de extinção. Atualmente, o jornal já não se paga. Sem capital, não tem como cobrir o prejuízo.

2 – O apoio voluntário se revelou incerto; na apuração dos números, insuficiente para garantir a perenidade da publicação. A esmagadora maioria dos que se declararam favoráveis ao JPse comportou, quando muito, como simples leitor, não como voluntário na defesa de um jornalismo crítico.

Não é inexpressivo o número dos que simplesmente deixaram de comprar o jornal por algum motivo diverso da proposta que ele encarnava, ou nunca o compraram. A 5 reais o exemplar, o jornal era tido até como caro.

3 – Com o surgimento deste blog e dos quatro outros que criei, há mais de quatro anos, manter o padrão do JP ficou cada vez mais difícil e sacrificante. Nas últimas edições, cresceu o aproveitamento de matérias do blog. Mesmo reescritas, aumentadas e atualizadas, elas foram ocupando espaços cada vez maiores.

A rigor, nem poderia ser de outro jeito. Houve dias em que escrevi mais de 10 notas ou matérias mais longas neste blog, na tentativa de ser contemporâneo de eventuais avalanches de fatos importantes. O blog era quase um jornal diário, a despeito de tão poucas contribuições de seus leitores – e tão numerosas críticas e acusações. Impossível não abordar os mesmos temas no JP sem desatualizá-lo.

Ainda mais porque, informado gratuitamente, muito leitor não se dispunha a pagar para manter o jornal em papel. Em ação, a lei do menor esforço ou o mandamento de Gerson para tirar vantagem de tudo.

4 – O desgaste físico e emocional não foi só por causa de uma produção em escala industrial de textos, precedida, evidentemente, por pesquisa e investigação, acompanhada por reações tão diversas dos leitores, a exigir a resposta devida nos casos extremos.

Sozinho, tinha que cuidar da edição, impressão, expedição e distribuição do jornal, num processo que costumava se alongar e atrair acidentes de percurso. Por vezes, o tempo decorrido entre a finalização dos textos e a chegada do jornal às ruas alcançou uma semana. O JP envelhecia nesse percurso, para minha frustração e angústia.

Esses fatores e mais alguns, de natureza mais pessoal do que o previsto pelo título do jornal, me levaram a amanhecer no dia 19 com a decisão tomada: o fim da edição impressa em papel do JP. Como o jornal não terá mais um número, a circunstância me dará a aptidão necessária para uma decisão final.

Final, porém, não do meu jornalismo – ou, pelo menos, ainda não.

Está em finalização um site para abrigar todos os meus blogs, com o incremento do noticiário cotidiano deste, a coleção do JP, meus livros e vídeos. O acesso será possível com o pagamento mensal de 12 reais, renovável a cada 30 dias. Quando o site estiver pronto, comunicarei o endereço ao leitor, talvez na quarta-feira da próxima semana, dia 26.

Sigo o rumo que me dizem ser inevitável como um desafio a mais na minha vida e com a nítida sensação de que muito de mim ficou pelo caminho rumo à atualização tecnológica, mas ainda em busca de um mundo melhor, um Brasil à altura da sua grandeza e uma Amazônia com direito de ser o que é. Se possível, na companhia dos meus leitores.

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