O Legado de Sanders

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Deixando temporariamente de lado a crise que a pandemia do novo coronavírus trouxe ao mundo, ocupando todas as pautas, vale neste momento o registro da eleição americana, que vinha com todo o gás, antes de ser interrompida pela Covid-19.

Na disputa, o lado republicano está resolvido. O presidente Donald Trump disputará a reeleição. O que faltava resolver era o nome dentro do partido Democrata. As prévias iniciaram com 20 candidatos, e logo foi reduzindo o quantitativo destes a cada rodada de votação nos estados. Haviam ficado apenas dois para o prosseguimento do processo pelo território americano: Bernie Sanders, senador pelo pequeno estado de Vermont, contra Joe Biden, ex-vice-presidente americano.

Cenário posto, esperava-se um embate duro. Sanders com a sua narrativa de cunho socialista, lutando pelo social (algo que já faz há décadas e que tomou projeção nacional, na última disputa nacional, quando disputou a indicação do partido contra Hillary Clinton, em 2016). Inegavelmente, ele trouxe uma narrativa que se existia, nunca tinha tomado tamanha repercussão. É sabido que os índices sociais que medem pobreza e miséria nos Estados Unidos, só crescem. A nação mais rica do mundo, a vitrine do capitalismo mundial, enfrenta (processo que já vem se acentuando desde a década de 90) aumento considerável de pessoas sem emprego, em subocupações, e até mesmo os que moram na rua, sem conseguir atendimento pelas políticas sociais dos governos.

Biden começou as prévias em situação desconfortável. Não constava nem entre os três primeiros. Mas tudo mudou após a primeira super terça (17 de março), em que o ex-vice-presidente conseguiu importantes vitórias em diversos estados, fato que o recolocou bem posicionado na disputa; estabelecendo, portanto, dentro do partido Democrata o controle do chamado Establishment.

Sanders seria aos democratas (e falo dos dirigentes e quem tem mandato pelo partido), o que Trump foi para os republicanos (no mesmo filtro apresentado) em 2016. Ou seja, não a melhor ou a mais aceita internamente. O senador que concorreu na última eleição, há quatro anos, perdeu para a senhora Clinton, e que mais à frente viria a ser derrotada pelo presidente atual.

No último dia 08, o senador por Vermont, anunciou a sua desistência da disputa contra Biden. Sanders sabia e estava claro que não conseguiria sustentar (apesar de ter largado na frente) a candidatura por muito tempo. Seu adversário estava em elevada curva de crescimento e, mais à frente, atingiria o número mínimo de delegados (1991) para conquistar a indicação do partido.

A questão de produzir este artigo de opinião não foi pelo fato da desistência de Sanders, e, com isso, a indicação direta de Joe para disputar a Casa Branca. Tal fato era esperado e sua abordagem foi feita em demasia desde o último dia 08. A questão é discutir o legado deixado pelo desistente. A narrativa de Bernie pautada no social, em um novo sistema de saúde, este público, um Estado de maior cobertura social, se firmou? Teve e terá ressonância na campanha? Biden se verá obrigado em incorporá-la? O Establishment do partido Democrata usará em sua plataforma?

De fato, Sanders trouxe à tona, não só internamente, mas também externamente, sem maquiagem, que os Estados Unidos deixou de ser exemplo inquestionável de prosperidade que tanto se propaga. Como já havia analisado no início da “onda”, que ela teria um limite. Apesar do discurso pelo social ter se tornado amplo, necessário e importante ao próprio país, ainda lhe falta sustentação maior, mais apoio popular. E tal resistência está muito vinculada à cultura americana.

A disputa pelo cargo político mais importante do mundo está definido. Donald Trump disputará a reeleição, e terá como adversário Joe Biden. Este de perfil mais conciliador, portanto, dentro do limite imposto pelo Establishment Democrata.

Sanders mesmo fora, ampliou o seu legado. Sua narrativa tomou outras proporções e inevitavelmente, para ambos os adversários citados aqui, a plataforma social, deverá – em níveis diferentes a cada um – compor seus planos de governo. Dentro do debate, um ponto será debatido: o sistema de saúde americano, este privado. A pandemia, com o país liderando o número de infectados e mortos, universalizar o sistema de atendimento, tornou-se uma necessidade, mesmo porque a economia entrará em recessão, e como as pessoas que perderão seus empregos, poderão pagar um sistema de saúde privado?

O legado de Sanders é importante. E sem volta.

1 COMENTÁRIO

  1. A desistência de Sanders é bastante triste, de fato.. em determinados fóruns do reddit, era notável o entusiasmo dos jovens estadunidenses a respeito de sua candidatura, uma individuo colocado, razoáveis vezes, como subversivo as ideias dominantes; Circunstância que, de práxis, agradava bastante a geração Z… ;-;

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