O novo tempo diante de nós

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O ano se parte em 12, que se parte em 30 — às vezes mais ou menos — que se parte em 24 e depois 60. O tempo partido vai sendo vivido aos pedacinhos miúdos de minutos, que ainda se divide em segundos e, ao fim, temos os milésimos. Inventamos isso não se sabe muito bem por que. Ou sabemos. Sem essa marcação metódica como ficaríamos com uma linha reta infinita diante de nós? Um aberto indefinido. Seria aflitivo. Os seres humanos iniciais como sobreviviam sem a ideia do ano, como nós o conhecemos? Acordavam, saíam das cavernas com o sol, voltavam com o poente. Pelo menos do dia sabiam. Mas não tinham a vantagem do recomeço depois de 365 vezes daquele entra e sai da caverna.

Quando se marca o tempo em fatias e depois as sobrepõe até fechar um bloco de minutos, horas dias e meses e, em seguida, cria-se uma fronteira bem marcada, à qual define como recomeço, é inevitável ter algum otimismo. Tudo pode acontecer, dado que é novo o tempo diante de nós. Não me diga que você não tem esperança em 2019, porque sei que há planos. Sempre há. O papel está em branco, o dia por vir, a vida não vivida. São possibilidades. Vou fazer o que não fiz, o que prometi em vão no ano que acaba, serei resistente às intempéries, verei mais as pessoas que amo, procurarei um livro novo que seja tão lindo que me arrebate, serei útil a alguém, farei uma viagem de trem, irei a uma terra tão distante que me espante.

Agualusa diz que será um ano de turbulência. Conta que quando criança fantasiava que era um piloto que avisava aos passageiros para apertarem os cintos. Aviso dado é aviso recebido. Apertemos os cintos porque o novo ano pode nos dar um sacode. Ou em reverso nos sacudiremos quando e onde quisermos. Cada um decide o seu ir e vir. O tempo que ainda não existe é livre por natureza, nós é que vamos aprisionando os minutos nas escolhas que fazemos, somos nós os carcereiros. Se o tempo é seu, liberte-o.

Você dirá: mas são ásperos os dias que virão e isso eu não posso impedir. Quem disse? Se eles serão seus e você saberá, ao fim das obrigações, alocar as horas como quiser. Pode-se aumentar o percentual do tempo dedicado às alegrias e assim mitigar as asperezas que não podemos controlar. Pode-se inventar o que ainda não existe. Eis a essência da liberdade.

Hoje eu amanheci sem palavras que aqui pudesse alinhar e postar em forma de crônica. Há dias mudos. Eu amanheci hoje assim: sem as palavras. Pensei nos poetas e elas voltaram, ainda que relutantes avisando que preferiam o descanso. Pensei nos livros nos quais me recolhi em tempos tristes e vi que os terei outra vez. Eles sempre serão a minha casa quando eu me sentir desterrada. São como fortalezas contra invasores. Isso sei de já ter vivido. Decidido: nas tempestades, eu me abrigarei nos livros. Eles me protegerão no futuro, como no passado.

Desejo para você o que sonho para mim. Daqui a um ano, quero recolher as lembranças, lamentar os desgostos que não pude evitar, mas comemorar a lucidez das escolhas que fiz com o tempo que escolhi. Aviso que serei egoísta com o meu tempo, reservando o máximo para usar como eu quiser. Eu tenho muitos planos para o ano novo, porque não tê-los é entregar-se numa rendição sem glória, é aceitar a voz passiva na própria vida. Feliz Ano Novo.

* Miriam Leitão é jornalista e escritora. Escreve crônicas aos sábados como colaboradora do blog MATHEUS LEITÃO.

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