O pronunciamento e o modus operandi bolsonarista. Tem método

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Não é de hoje que este espaço analisa o governo de Jair Bolsonaro. A reflexão, na verdade, começou antes, dentro do processo eleitoral que o elegeu, passando pela montagem de seu governo. Uma situação estava posta: o modo operandi do que se passou a se chamar Bolsonarismo. E tal conduta seria conduzida por um grupo, que passou a ser taxado de ala ideológica, fato este tratado em diversos outros artigos neste Blog.

O tal ajuntamento, passaria a ser composto e estaria no governo, com os seguidores de Olavo de Carvalho, este considerado o guru ideológico. Como já dito aqui, este grupo que tem os filhos do presidente em sua composição, ditaria o ritmo e daria as cartas no governo; se impondo perante aos outros setores, justamente por estar ao lado de Jair Bolsonaro. Quem ousou enfrentá-los, foi exonerado.

O governo Bolsonaro é composto por diversos setores, dentre eles os principais: militar, técnico e ideológico. Todos são suprimidos por este último que determina tudo e tem função de, quase sempre, gerar as diretrizes governamentais.

Dito isto, vamos ao fator fomentador deste artigo: o pronunciamento em cadeia nacional do presidente Jair Bolsonaro. Ontem, 24, o mandatário da nação, falou ao país. Horas antes, Bolsonaro havia feito movimentos apaziguadores em relação aos governadores, pedindo a estes união e baixando o tom em relação ao seu inimigo preferencial: a imprensa. Esperava-se, portanto, que o pronunciamento tivesse o formato de um chamamento para a unificação de forças entre Governo Federal e entes federativos.

Já não é novidade que, o modus operandi bolsonarista, estica e puxa a corda o tempo inteiro. Testa. Inflama. Provoca. E depois, se necessário, afrouxa. Ontem, 24, foi mais um exemplo. O presidente não anunciou nenhuma medida de contenção ao coronavírus, não buscou reforçar, por exemplo, o seu discurso – feito horas antes – de união. Não acalmou a nação. Não reforçou o pedido feito pelas autoridades de saúde de seu governo, que seguem os padrões adotados pelo resto do mundo. Pelo contrário, instigou a população a voltar as atividades normais, ou seja, sair do isolamento. Só resguardou quem está doente e os que estejam enquadrados em algum grupo de risco.

Bolsonaro foi de encontro ao que se está praticando no mundo. A única alternativa a ser adotada, sem ainda se ter vacina ou remédios contra a Covid-19, é evitar o contato social para não se propagar a carga viral. Dias antes, o Ministro da Saúde do governo brasileiro, o médico Luiz Henrique Mandetta, já havia alertado que, se o confinamento coletivo não for seguido, no início de abril, o sistema público de saúde, poderá entrar em colapso. É justamente isso que se tenta evitar no mundo. Mas o presidente Jair Bolsonaro acredita (só ele como chefe de Estado) que não. Pediu que as pessoas voltem a trabalhar e que as escolas sejam reabertas. Sob qual estudo científico? Sob qual base técnica de especialistas? Por que o mundo inteiro faz o contrário, e só aqui, tem que ser diferente?

Além dos pedidos relatados, Bolsonaro voltou a atacar a imprensa e os governadores, que havia elogiado mais cedo. O presidente reafirmou que há excesso de alarmismo. Que a doença não passa de uma “gripezinha”. Relativizou o problema, como faz de forma recorrente.

O mandatário da nação afirmou a auxiliares próximos que, se a economia não estiver bem, o governo dele acaba. E está certo. A história brasileira valida tal afirmação. O receio de Bolsonaro é esse. Sob sua gestão, o Produto Interno Bruto (PIB), em 2019, foi de 1.1%. Menor do que o ano anterior, que já havia sido baixo. Com a suspensão de grande parte das atividades econômicas, o país caminha – como o resto do mundo – para uma acentuada recessão. A recuperação é lenta e o governo corre sério risco de não conseguir chegar a 2022 com crescimento econômico satisfatório.

Conforme dito no início deste artigo, a ala ideológica é quem comanda e impõe quase todas as narrativas do governo, muitas destas, polêmicas. Foi esta ala que redigiu o conteúdo lido pelo presidente em seu pronunciamento. Ou seja, a polêmica foi provocada premeditadamente. Há método em fazê-la. como já dito, tal procedimento, tem como finalidade fomentar a movimentação dos apoiadores, dos numerosos grupos bolsonaristas em seus redutos de ação: redes sociais. Esticar mais um pouco a corda.

Como dito em outro recente artigo publicado neste Blog, Bolsonaro perdeu a liderança no processo de condução do país no combate à pandemia do novo coronavírus. Foi suplantado pelos governadores, que tornaram-se protagonistas. Ocuparam algo que em se tratando de política não existe: vácuo. Por isso, a tensão entre as partes. Bolsonaro corre atrás do prejuízo. E para isso faz uma aposta de alto risco e que poderá ser, dependendo dos desdobramentos futuros, o seu fim político: relativizar, desmerecer o novo coronavírus.

O modus operandi bolsonarista continua a todo vapor. E ela produziu um dos pronunciamentos mais polêmicos da história da República brasileira. Bolsonaro dobrou a aposta e assumiu o risco político. A ver.

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