Minas não há mais. E o Pará?

Logo da Vale em escritório da empresa no Rio de Janeiro 07/08/2017 REUTERS/Ricardo Moraes

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As tragédias de Mariana e Brumadinho abreviaram um desfecho que já estava em andamento: o fim da supremacia de Minas Gerais como o maior Estado minerador do Brasil. O ciclo atravessou três séculos, sem competição possível para qualquer outra unidade federativa do país.

A queda para a segunda posição, que seria um processo natural, pelas condições existentes no território do novo líder, o Pará, se tornou acidentada e traumática pelo rompimento de duas das dezenas de barragens que a Vale construiu em Minas.

A transição, planejada e programada pela própria mineradora, do centro hegemônico no Sudeste para a Amazônia, foi atropelada pelos gravíssimos acidentes, os maiores da história da mineração brasileira e mundial, com muitas vítimas humanas, enormes prejuízos materiais, um vazio súbito nas receitas estadual e municipais e uma descontinuidade histórica brusca depois de tanto tempo de vigência.

A Vale viu-se na contingência de acelerar tudo para não perder posição no mercado internacional e redefinir seus centros de produção para continuar a atender o mercado interno. Sem falar na necessidade de converter o processo de extração de minério através da separação por umidade, que exige o uso da água (o fator principal das rupturas das barragens, combinado a ainda questionada imperícia ou imprevidência da mineradora), para o processo a seco.

Quase toda mineração praticada pela Vale em Carajás, a mais importante província mineral do planeta, 500 quilômetros ao sul de Belém, é a seco. O risco de desabamentos é muito menor. Além disso, o minério local, com quase 67% de pureza, é bem melhor do que o minério que está sendo lavrado em Minas, com teor médio de 64%. Na escala de produção total da Vale, de 400 milhões de toneladas, é uma diferença de 4 milhões de toneladas. Ao preço do mercado internacional, vale algo em torno de 350 milhões de dólares (ou quase 1,5 bilhão de reais).

Minas já não teria mesmo condições de competir com o Pará, com subsolo mais rico em minérios. Além do melhor minério de ferro que há na crosta terrestre, o Estado já exporta manganês, bauxita, caulim, níquel, cobre, ouro, alumina, alumínio. A pesquisa geológica ainda tem muito espaço para avançar. Mesmo em Carajás, a abundância de ocorrências desafia a prospecção. Novas descobertas ocorrem a cada ano.

Os desastres ambientais e humanos impuseram à Vale abrir novas minas. A última, conhecida como S11D, talvez nem se mantenha como a maior e mais importante por muito tempo. A Vale expandiu a capacidade dessa mina, que era de 90 milhões de toneladas, equivalente à soma das minas ao norte do distrito mineral, para 100 milhões. Mas vai agregar outra mina para que na Serra Sul a produção alcance 150 milhões de toneladas. No total, pelo menos 240 milhões, mais de um terço da produção indo para a Ásia e chegando, principalmente, à China.

A tecnologia foi revolucionada e continua a ser aperfeiçoada para que se abrevie cada vez mais o tempo entre a extração do minério, no sertão paraense, na sua região mais devastada, e o seu embarque no porto da ilha de São Luís do Maranhão, a 870 quilômetros de distância, pelo maior trem de carga do mundo. E que a escala de produção cresça ainda mais, permitindo à Vale alcançar a sua grande meta: superar totalmente seus rivais australianos.

Além disso, dando significado concreto a um lamento celebrizado num poema de Carlos Drummond de Andrade: Minas não há mais. E o Pará: já há? Os paraenses e amazônidas em geral estão conscientes do novo ciclo e o que fazer para que seu Estado não se torne, como Itabira, apenas um retrato na parede? maior rebelião popular da história do Brasil.

O artigo reproduzido na íntegra, foi escrito pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto. Publicado originalmente em sua coluna no site Amazônia Real e reproduzido em seu blog. 

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