Para além dos confetes

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Na semana passada, foi inaugurada a 18º e última turbina de grande porte (o sistema ainda conta com mais seis de pequeno porte, totalizando 24) da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, situado na volta grande do rio Xingu, 90 km à jusante do município de Altamira, o mais populoso da região da Transamazônica no Pará. No ato de inauguração estavam presentes diversas autoridades, dentre elas o presidente Jair Bolsonaro e o governador do Pará, Helder Barbalho.

Agora sim, a usina irá operar em sua capacidade máxima, com 11,3 mil megawatts. A questão da geração de energia é o centro dos debates técnicos. Por que construir uma usina hidrelétrica para gerar energia em sua capacidade máxima instalada por apenas quatro meses, neste caso 11 mil MW, por apenas quatro meses no ano?

O rio Xingu entre todos os grandes rios amazônicos é o de maior variação entre o período de cheia e vazante. A diferença chega a impressionantes 25 metros. Durante oito meses no ano, a geração de energia não passará dos quatro mil MW por falta de água suficiente nas 18 turbinas da casa de força. Por outro lado, a engenharia permitiu grande redução da área total alagada. Belo Monte é um dos assuntos que mais foi tratado neste blog, desde 2015, ano em que foi concedido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), liberou a licença de operação, permitindo que a Norte Energia enchesse os reservatórios para a geração de energia.

Dois meses depois, já em 2016, outra questão estava na mesa de debate: a geração de energia de Belo Monte e o Pará. Toda a capacidade instalada através de sua geração é enviada para as regiões Sul e Sudeste, que concentra quase 70% do consumo nacional de energia. Será utilizado o sistema de corrente contínua, pois não há distribuição de energia no trajeto do linhão de Belo Monte, pois toda a energia é usada nas regiões Sul e Sudeste.

Sem alarde da mídia a Usina de Belo Monte iniciou a sua operação no dia 03 de abril de 2016 com o funcionamento da primeira turbina, que transformou as águas do rio Xingu (o 25º maior do mundo) em energia elétrica, mas sem -à época – interligação com o Sistema Interligado Nacional (SIN). Dois dias depois (05), a segunda turbina entrou em operação, em um total de 24. O Pará depois da revisão de produção e uso de energia, passou de 1% para 2,3% do volume consumido pelo referido ente federativo. Belo Monte sempre foi marcado por uma verdadeira guerra jurídica desde o início de sua construção.

Conforme disse o jornalista Lúcio Flávio Pinto, o Pará é o estado com o maior número de pessoas vivendo às escuras no Brasil. Dos seus 8,5 milhões de habitantes, 410 mil não têm energia em suas casas. Altamira, a cidade de apoio a Belo Monte, com seus 130 mil habitantes (população que era metade da atual quando a obra começou), é a segunda mais violenta do país. No ano passado, a concessionária da usina, a Norte Energia, faturou R$ 4,2 bilhões, ainda com produção restrita, e teve um lucro líquido de R$1,7 bilhão. O futuro pode ser promissor para ela ao longo do prazo da concessão, de 35 anos, graças à colaboração e o entusiasmo do governo federal.

Conforme abordado pelo Blog recentemente, a inauguração de operação total da usina de Belo Monte, esconde um sério problema técnico, estrutural, que poderá comprometer a obra mais cara do Brasil. Em outubro, a Norte Energia SA afirmou em documento que precisava alterar a vazão do reservatório intermediário, devido à seca severa do Xingu, para evitar danos estruturais na barragem principal. Cenário lança incertezas sobre a segurança da hidrelétrica. Na Volta Grande do Xingu, região mais afetada pela hidrelétrica de Belo Monte, a escassez de água tem causado a morte massiva de peixes, provocado insegurança alimentar de indígenas e ribeirinhos e impedido a mobilidade da população.

A situação é séria. Por isso, a solenidade da inauguração da última semana não pode escamotear os problemas aqui apontados. Temos que ir para além dos confetes.

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