Releitura: “quem vai salvar o rio Parauapebas?

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Retomo a problemática do rio Parauapebas, tema que sempre abordei no blog, desde quando cheguei em Parauapebas, no ano de 2014. A maior parte deste texto foi escrito em agosto do ano passado, em meio a uma das maiores estiagens que o referido recurso hídrico já havia sofrido. O que me levou a escrever novamente sobre o tema foi a entrevista que concedi a um canal de televisão local, em que a pauta foi justamente o descaso geral como a maior fonte de abastecimento de água da “capital do minério”.

O governo Darci Lermen, que acabou de assumir o comando político parauapebense terá um grande desafio nos próximos meses em relação a criação ou retomada de políticas públicas integradas em prol da preservação e gestão do maior recurso hídrico que corta a cordilheira de ferro. Por enquanto, o inverno amazônico, mantém em bons níveis a vasão do rio. Ainda ocorrerão fortes chuvas nas próximas semanas, o que dará a falsa impressão de que a problemática de falta de água é algo do passado. Nos próximos meses a tendência é a diminuição do nível de precipitação, até o início do mês de agosto e com ele a forte estiagem. No período mais seco, Parauapebas passa semanas, até mês, sem uma gota de chuva.

Período também que o nível do rio baixa tanto que em alguns pontos (como na imagem acima, tirada em 2015, perto da ponte que leva à portaria do projeto Salobo) chegou a secar completamente. Diversos bairros ficam sem água. A prefeitura toma medidas emergenciais de envio de carros-pipas, medida necessária, mas paliativa. Portanto, o problema não se resolve e as medidas são meramente ocasionais.

Convido-os para acompanhar novamente um texto que escrevi em 2015 sobre o tema. Ele sofreu adaptações para que possa ser mais atual e contextualizado. Boa leitura.

No último sábado (20/08) concedi entrevista à Rede Brasil Amazônia de Comunicação (RBA) de Parauapebas, afiliada a Bandeirantes, no qual abordei sobre atual situação do rio Parauapebas. Na ocasião o excelente repórter Marcelo Duarte criou a sua pauta para a entrevista em relação ao triste cenário em que o principal recurso hídrico que contorna a serra dos Carajás vive. As perguntas que me foram feitas estavam sustentadas no que fazer para salvar o referido rio que possui 350 km de extensão e corta além da “capital do minério”, mais dois municípios: Água Azul do Norte e Canaã dos Carajás.

Não é novidade ou algo que venha causar surpresa o atual estado do rio. No atual período de estiagem, seu leito está bem abaixo do estado mínimo necessário para que o seu curso de água funcione normalmente. Além do fator climático natural da estiagem (verão amazônico com a falta de chuvas) as ações antrópicas aprofundam o problema, que parece só se agravar e sem solução, pelo menos, a médio prazo.

Conforme abordei em meu blog diversas vezes, o fator natural associado aos desmandos do homem em sua relação com a natureza só agrava o problema. Por sua geografia aliado aos arranjos institucionais, ou seja, criação de novos municípios na região no fim da década de 80 houve um intenso processo de adensamento populacional na região de Carajás. A pressão sob os recursos naturais, especificamente sobre o rio que corta a “capital do minério” foi um dos maiores agentes complicadores. A ocupação desordenada das margens do rio aumentou sem controle por parte das autoridades públicas locais.

Não há tratamento adequado ao esgoto produzido em nossa cidade. Esse material é despejado nos córregos que cortam a área urbana que acaba por desaguar no rio. Isso todo dia, toda hora. Na entrevista chamei atenção para esse fato. Na relação rio-cidade, sete bairros estão às margens do Parauapebas. Os ataques ao rio são flagrantes em plena luz do dia, sem controle ou combate de ações.

Os impactos mais recorrentes são: desmatamento das matas ciliares; atividade mineradora; retirada de seixo e areia; expansão urbana desordenada, com a ocupação da beira do rio; aterramento dos afluentes do rio Parauapebas. Todas essas ações ocorrem há anos e nada efetivo é feito para mudar essa realidade. Isso tudo aliado à estiagem, produz o atual cenário que presenciamos atualmente: um rio com pouca vazão e em alguns pontos, seco.

Conforme já abordei aqui, o município de Parauapebas pelo seu perfil econômico sofre com a falta sentimento de pertencimento de seus moradores. Pior ainda é rio que o corta e responsável pelo abastecimento de quase 300 mil pessoas. O nosso recurso hídrico tornou-se apenas um depósito do que a cidade ou os seus moradores não querem. Não há relação direta.

Não há ações integradas. Por exemplo: comitê de gerenciamento de crise, neste caso em período de estiagem e que tenha uma discussão mais ampla, envolvendo os três municípios que são banhados pelo rio. Hoje o que se observa são ações localizadas sem interligação com outros fatores envolvidos. Como melhorar a vazão da água do rio nos limites de Parauapebas sem ações em sua cabeceira ou à montante de nossa cidade?

A discussão sobre o minério e o futuro da cidade não deixam que outras pautas entrem em debate. Parauapebas poderá ficar sem minério nas próximas décadas, mas, antes disso, se nada for feito, poderá não ter água suficiente para atender os seus moradores em um espaço de tempo muito menor do que o fim do ferro. Quem vai salvar o rio Parauapebas?

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