A economia brasileira já está desacelerando. A dúvida é se essa perda de força será suficiente para reduzir a inflação e permitir novos cortes de juros, ou se o petróleo e o clima, por exemplo, vão prolongar o aperto mesmo com crescimento menor.
Não existe um número mágico de PIB (Produto Interno Bruto) que, sozinho, dê sinal verde ao Banco Central. O que importa é se a desaceleração está reduzindo a capacidade de empresas repassarem custos e diminuindo a pressão sobre os preços.
O Relatório de Política Monetária divulgado nesta quinta-feira (24) mostra que esse processo está em curso. O Banco Central reduziu de 2% para 1,8% a previsão de crescimento deste ano. No consumo das famílias, a revisão foi maior: de 2,1% para 1,2%.
Na coletiva, o diretor de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos do BC, Paulo Picchetti, relacionou o enfraquecimento das compras às condições de financiamento e aos efeitos defasados dos juros.
Isso ajuda a entender por que a economia continua perdendo força mesmo depois dos cortes da Selic: o crédito permanece caro, e a política monetária leva tempo para produzir seus efeitos.
Mas desacelerar não significa que todas as pressões desapareceram. O emprego segue aquecido e, segundo Picchetti, os salários têm crescido acima da produtividade.
Ou seja, uma economia pode avançar mais devagar e ainda conviver com custos pressionados e pouco espaço para ampliar a produção sem gerar inflação.
Para Juliana Inhasz, professora de Economia do Insper, o consumo mais fraco dificulta reajustes porque as empresas arriscam perder vendas. Só que esse freio não elimina aumentos provocados por energia, combustíveis ou alimentos mais caros.
É aí que os choques externos complicam a tarefa da autarquia. Juros brasileiros não encerram a guerra nem corrigem uma quebra de safra. A atuação do BC busca impedir que essas altas iniciais contaminem outros preços e salários, tornando a inflação mais persistente.
Segundo Picchetti, essa propagação ainda não aparece de forma significativa, e a política monetária parece estar ajudando a contê-la. É um sinal favorável, mas não prova, por si só, que a restrição já possa ser rapidamente retirada.
Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, fala sobre o tamanho do dilema. Ele prevê crescimento de apenas 1% em 2027, abaixo dos 1,4% estimados pelo BC. Mesmo com esse cenário mais fraco, ele considera possível uma pausa depois de um eventual corte na próxima reunião.
“Não tem muito espaço para quedas fortes de juros”, afirma. A avaliação dele leva em conta os riscos do El Niño, dos combustíveis e as sinalizações fiscais para o próximo governo.
Mas o que permitiria continuar cortando? Juliana diz que só uma inflação de serviços menor, com os aumentos menos espalhados pela economia e a melhora das expectativas. Esses sinais, sim, ajudariam a mostrar que a desaceleração está produzindo uma redução mais duradoura das pressões sobre os preços.
Então a resposta à pergunta inicial depende de quanto a inflação cede quando a atividade esfria. Se petróleo e clima atrapalharem esse movimento, o país pode crescer menos e ainda precisar de juros elevados por mais tempo. Para famílias e empresas, esse é o risco: sentir o freio da economia antes de conseguir um alívio maior no custo do dinheiro.
Com informações e imagem – CNN Money




