Uma década de Belo Monte

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Um dos assuntos mais tratados neste Blog desde a sua criação é a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, construída na chamada Volta Grande do rio Xingu, completou dez anos que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) emitiu a Licença de Instalação que permitiu à Norte Energia o início das obras, em 2011. Tal documento é necessário para que as obras físicas possam ser começadas.

Com o início do processo de montagem do canteiro de obras, diversos municípios impactados pelo empreendimento, que tecnicamente é chamada de Área de Influência Direta (AID), foram eles: Anapu, Brasil Novo, Senador José Porfírio, Vitória do Xingu e Altamira – o último foi o que mais sentiu os impactos da construção do grande projeto, por sempre ter sido um município-polo da região e a cidade que mais acolheu as pessoas que vieram trabalhar nas obras.

Em matéria postada em O Liberal, no Brasil, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), 67% da energia gerada no país em 2021 e 62,48% da potência instalada vêm de usinas movidas pela força dos rios. O país tem 739 centrais geradoras hidrelétricas e operação, 425 pequenas centrais hidrelétricas e 219 usinas hidrelétricas, que são responsáveis por 109,3 gigawatts (GW) de capacidade instalada em operação. Três das usinas no país estão entre as dez maiores do planeta, sendo elas Itaipu (binacional, com capacidade de 14.000 MW, divididos entre Brasil e Paraguai), Belo Monte (11.233 MW) e Tucuruí (8.370 MW).

O título de maior hidrelétrica 100% nacional fez com que Belo Monte estivesse no centro das expectativas não apenas dos paraenses, mas dos brasileiros em geral, sobretudo, em um período de crise enérgica e aumentos expressivos nas contas de luz. Em 2021, o Ministério de Minas e Energia começou uma campanha para incentivar a economia de recursos como água e energia elétrica. No começo de setembro, os reservatórios do sistema Sudeste/Centro-Oeste, que geram 70% da energia do país, operavam com 19,59% da capacidade esta semana, de acordo com que informou o Operador Nacional do Sistema Elétrico à Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), apresentando os números da pior crise hídrica em 91 anos de monitoramento das bacias hidrográficas do Brasil.

Todavia, toda essa expectativa sobre a geração de energia de Belo Monte não se concretizou, e não foi por falta de aviso. Sabia-se que o rio Xingu em oito meses do ano, em seu período de seca, provocado pela estiagem na região, não permitiria a geração de carga máxima da usina. Exemplo disso é que desde o dia quatro de agosto do ano corrente, apenas uma das 18 turbinas da usina principal de Belo Monte está operando por dia, em função das condições hídricas.

Segundo a Norte Energia, esse fluxo de geração de energia se deve a décadas de estudo, que fizeram com que Belo Monte fosse redesenhada para reduzir o tamanho do seu reservatório e garantir que nenhuma terra indígena fosse inundada. A usina passou a ser um modelo a fio d’água, operando praticamente com o fluxo de água do rio Xingu, contando com dois reservatórios, pensados para tentar minimizar os impactos. A UHE Belo Monte tem 18 turbinas, com potência de 611,11 MW em cada uma. Já a casa de força complementar (UHE Pimental) tem 6 turbinas, com 38,85 MW de capacidade em cada unidade, somando os 11.233 MW. Nos mais 1.800 km de extensão do Xingu, Belo Monte atua em 200 km.

Nenhuma novidade. Apesar de chocante, a situação estava prevista no projeto da hidrelétrica, por um fator acima de qualquer controvérsia, produto da natureza: a vazão de águas do Xingu diminui 30 vezes entre o período de chuvas abundantes e o pico da estiagem, que acontece agora. Por isso, a energia média do ano cai dos 11,2 mil MW de potência máxima (com a qual poderia atender 40% da demanda nacional) para 440 MW firmes.

O Blog do Branco em diversas oportunidades apontou problemas no projeto. Erros até estruturais em que, por falta de água, a estrutura da usina poderá correr risco. Além disso, os graves problemas sociais e econômicos que Belo Monte causou aos moradores da região. Altamira, o maior município da região, foi o que mais recebeu os impactos do empreendimento, tanto que, em 2017, foi considerado pelo Atlas da Violência de 2019 (com dados de 2017), o município mais violento do Brasil.

O ano corrente fez completar uma década em que a maior usina hidrelétrica brasileira iniciou a sua saga, uma das mais polêmicas da história da Amazônia, que através de Belo Monte segue pagando uma conta muito cara, emitida pelo modelo de desenvolvimento, sempre com grande ônus socioambiental, e com questionável retorno positivo às regiões de implantação desses projetos. Dê exemplo em exemplo, a Amazônia segue o seu triste e intermitente rito desenvolvimentista “rabo de cavalo”. Até quando?

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